Retrato ribeirinho

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Era uma de minhas primeiras incursões pela Amazônia como fotógrafo profissional. Já havia viajado pela região nos tempos universitários, aproveitando alguns dias após congressos e seminários. Mas agora era diferente: os sentidos estavam mais aguçados e o olhar, aliado à técnica e à vivência, me proporcionavam novas experiências a cada curva do rio.

Na primeira parte daquela jornada, tínhamos viajado de barco por cerca de 24 horas desde Manaus à Parintins. Ali comecei a sentir o tempo da Amazônia, que parece passar de uma forma diferente e, para mim, sempre deu a impressão de um passeio pelo passado. Isso era início de 2004. Naquele ano ainda faria aquele trajeto algumas vezes e seguiria também por uma outra vertente do Amazonas, de onde surge a história por trás dessa imagem.

Manacapuru era o outro destino e, a princípio, a cidade me pareceu caótica: motos, bicicletas, pedestres e carros se engalfinhando na margem do porto no rio Solimões. Dali da beirada segui para uma inesquecível viagem rumo à comunidade do Lago do Cururu. Entramos no recreio (que é como se chamam essas médias embarcações que funcionam mais ou menos como ônibus intermunicipais) e, já na saída, fiquei impressionado com aquele moleque que ajudava seu tio, o capitão do barco.

Jonatas auxiliava os passageiros que tinham alguma dificuldade para embarcar a si mesmos ou às suas bagagens: idosos, mães com crianças pequenas e por aí vai. Batemos um papo e ele me contou da sua alegria de poder viajar em suas férias escolares com seu tio e conhecer lugares e pessoas rio afora. Tive vontade de fotografá-lo, mas não sei se pela luz ou pelo rumo da conversa acabei deixando de lado.

Entramos para a floresta e por ali ficamos alguns dias, no Lago do Cururu. Na viagem de volta, pegamos o mesmo recreio e, para minha surpresa, lá estava o pequeno Jonatas, com um sorriso no rosto e o olhar perdido no Solimões. Pedi para fazer um retrato dele e fomos até a proa do barco. Para mim, esta foto que sintetiza a minha vida pelas viagens que fiz em rios da Amazônia.

Foto: João Marcos Rosa

João Marcos Rosa

Formado em jornalismo, o fotógrafo João Marcos Rosa se especializou em registrar temas ligados à vida selvagem e à conservação, trabalhos que o levaram a correr o mundo atrás de boas e fascinantes histórias. Colabora com as revistas National Geographic Brasil, BBC Wildlife, GEO e Terra Mater. Autor dos livros “Harpia” e “Fauna de Carajás”, vive em Nova Lima (MG) e é um dos sócios da agência Nitro Imagens.

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