Retalhos de tecidos que iriam para o lixo viram bolsas e acessórios pela marca catarinense Funcionárias

Retalhos de tecidos que iriam para o lixo viram bolsas e carteiras pela marca catarinense Funcionárias

Dá pra imaginar que essas transadíssimas e coloridas bolsas, carteiras, sacolas e cachepôs que ilustram esta reportagem foram feitas com sobras de tecidos que seriam descartados? Que tremendo desperdício!

O mercado da moda é um dos que mais gera resíduos no mundo. Estima-se que, globalmente, esse setor desperdice um caminhão de tecidos por segundo.

Infelizmente, essa realidade pode ser vista em Joinvile, Santa Catarina. A cidade é o maior polo industrial do estado, assim como grande fabricante de roupas e uniformes para empresas. “As confecções produzem, em média, 15 mil uniformes por mês. Tudo o que sobra desses tecidos é enviado para aterros”, explica a artesã Ana Carolina de Liz.

Junto com a mãe, ela fez um curso focado no desenvolvimento de produtos que tivessem a identidade cultural de Joinville. Nascia aí a marca Funcionárias. “O nome é ligado a uma memória afetiva, vem da infância. É o nome de uma planta, da qual brota uma delicada flor bastante comum por aqui. E na nossa casa, ela sempre foi plantada pela minha mãe”, conta Ana Carolina.

A Funcionárias usa o que iria para o lixo para fabricar, artesanalmente, bolsas e acessórios. Formada em Turismo, com ênfase em Meio Ambiente, Ana Carolina sempre presenciou, em casa, a preocupação dos pais com a separação de resíduos.

As peças feitas por Ana Carolina e a mãe, Rosana, são repletas da referências locais. “A gente usa os carimbos 100% Joinville e Resíduo Industrial, como uma lembrança de algo do passado, utilizado pelas indústrias da região, e também, o desenho de uma bicicleta”.

A artesã contou, ao Conexão Planeta, que nas décadas de 70 e 80, Joinville era conhecida como a “Cidade das Bicicletas”, isso porque elas eram o meio preferido de locomação dos funcionários das fábricas da cidade.

Outro detalhe carinhoso: as peças são identificadas com etiquetas, em papel reciclado, que lembram os cartões de ponto das fábricas de antigamente.

A etiqueta lembra um cartão de ponto

Homenagem bacana das artesãs catarinenses é também para um animal muito encontrado na região: a capivara. Ela estampa a etiqueta do cachepô (para quem não sabe o que é um cachepô, ele é usado para colocar vasos de plantas dentro).

“Costuramos a ourela do tecido, aquelas beiradas do rolo, retiradas para que ele não desfie. Ao colocarmos uma ao lado da outra, fica parecendo uma pelagem de animal. Cada peça, leva em média de duas a três horas só para emendar todas as ourelas”, diz.

Etiqueta da capivara: homenagem carinhosa ao animal

Desde que a marca foi criada, em 2016, a Funcionárias já utilizou cerca de 2 toneladas de resíduos têxteis, doados gratuitamente por empresas.

E nada, exatamente nada, no ateliê de Ana Carolina e Dona Rosana vai para o lixo.

“Os pequenos retalhos que sobram do processo de produção servem de enchimento para almofadas, que doamos para organizações de proteção animal e são usadas como caminhas por cães e gatos resgatados por elas”, explica a artesã.

Atualmente a Funcionárias fabrica cerca de 100 peças por mês. O custo médio delas é de R$ 80. A venda é feita através da página da marca no Facebook e também pelo Instagram @funcionarias. Além disso, as bolsas e acessórios são comercializados pela carioca Muda Loja, no Rio de Janeiro, e pela Villa Germânica, em Blumenau.

E qual tem sido o retorno dos consumidores? “Eles amam a proposta, se engajaram e se identificam com a marca, pois estamos ajudando a repensarem o consumo. Muitos vem e nos dizem Sou fã ”.

Para Ana Carolina, a sensação de fazer algo tão bacana e ajudar a reduzir o impacto de resíduos no meio ambiente é a principal recompensa de seu trabalho. “É uma satisfação tão grande saber que estamos ajudando pessoas a serem melhores para o mundo”, diz.

“Há pouco tempo, a Valentina, minha filha de 8 anos, perguntou porque eu reaproveito tecidos em vez de comprar novos para fazer a peças. Expliquei a ela que a produção de tecidos demanda a utilização de recursos naturais, como água e energia elétrica. Também disse que essas sobras ocupariam um espaço no aterro que não é infinito. São lições de sustentabilidade que aprendi com meus pais e que agora procuro repassar para ela e para a irmã mais nova”, finaliza.

Ana Carolina, em meio aos retalhos:
ajudando seus clientes a repensar o consumo

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Fotos: divulgação Funcionárias

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Retalhos de tecidos que iriam para o lixo viram bolsas e acessórios pela marca catarinense Funcionárias

  • 27 de fevereiro de 2019 em 7:54 PM
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    Louvável e meritório, ecologicamente correto e imprescindível, mas nao precisava ser tão bonito, moderno e útil. Nota DEZ.

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