Respeito sagrado

bancos feitos por indígenas mostram respeito sagrado que tem pelos animais

Vocês lerão sobre o passado bem recente. Sobre o meu dia 31. Não quis postar antes em razão do meu estado de desânimo, aplacado pelo eucalipto que vejo  acima da altura dos olhos aqui do alto desse estranho décimo andar, situado ao redor da capital paulista, que me recebe tão verdejante. Estranho. O eucalipto fica no meio do terreno entre dois prédios, cercado por uma porção de pinus, essas árvores longilíneas que têm por destino crescer. Você dirá: oh! Que obviedade. Então direi: é que você precisa comparar os tamanhos dessas árvores com outras espalhadas pelas calçadas das cidades. Elas crescem mesmo. E se plantadas bem próximas espicham mais que adolescente no estirão. Bem mais. Sobem sem parecer ter medo. Umas inconsequentes. E em noite de relâmpagos despencam e transferem seu disfarçado medo – porque elas hão de ter subindo tanto –  para os moradores. Passado o susto, após a visita dos caminhões para retirar os troncos atingidos pelas quedas, restam as marcas.

Pedaços de tronco enraizados deixados ali, talvez por indecisa preguiça, fazem agora o papel de pequenos bancos. Aqueles que continuam levando seus animais para correr um pouco, para se aliviar outro pouco, sentam por ali. E daí? Já viu relâmpago cair no mesmo banco-lugar? Já viu pessoa virar lar, salgar mar, largar, alagar, esticar? Ao tapetear num alaranjado forçadamente crepúsculo fiz-me antenar em ássanas do yoga que felizmente não me deixou nas curtas férias.

Nas horas que se iam murchando em pétalas mimetizadas ao fundo do ser que não quer saber, me deixei ficar entre os troncos e roncos do que ainda era natureza por ali. Não sou alta, menos ainda se comparada àquelas tantas árvores. Meu âmago (seria isso sorte?) não atraiu o relâmpago.

No florescer do dia seguinte, me sentei um pouquinho num dos bancos-troncos e me senti – permissão – uma índia no meu próprio banco.

Não era um banco em formato animal feito aqueles que tinha visto uma semana atrás na imperdível exposição de bancos indígenas do Museu de Arte Indígena, em Curitiba. Não esculpi. Não pintei. Não bordei. Mas tratei os troncos com respeito sagrado, como os índios fazem ao reverenciar suas cobras, onças, aves, mares lilases.

Pedi com todo fervor ao meu banco proteção aos índios nesses tempos difíceis. Pedi força para lutar, caminhos para ajudá-los a não perder mais terra. Pedi formas para que os saberes e histórias desses povos não sejam consumidos pelos interesses financeiros que só sugam e não têm a vergonha na cara de indenizá-los pelo verde, pelo ver-se em belas estampas que seduzem mares de soldados consumistas marchando enfeitiçados na direção das tantas vitrines em que esbarram e se amarram por aí. Temam o enredamento paralisante vândalos depredadores das sábias natureza e cultura.

 


Depois do momento reflexivo, deixei-me alongar entre os prontos horizontes e as tontas verticais, essas, propositadamente colocadas ali para que os vizinhos dos prédios próximos escondam-se entre ramos e folhas.

Não sei se elas, as árvores, chegarão até os últimos andares para completar o trabalho forçado de dar privacidade a esse pessoal da cidade. Para isso, afinal, servem as árvores, não?

Não fosse isso, é provável, estariam se acabando nas monoculturas que crescem nos mágicos reflorestamentos responsáveis por sustentar as empresas “sustentáveis”. Esses que as ajudam a escrever uma história de aplacamento e tentativa de apagamento da destruição da diversidade que, apesar de tudo, se renova, se desnuda, se descasca numa profusão contundida de cor e forma de dar inveja em qualquer artista.

No entortar da retidão, no serpentear do erro, na forquilha que descobre a maneira para matar a sede…


Nesses lugares onde cortina de fumaça não faz efeito os nãos se rendem num ponto sem desconto, sem conto, lá naquele lugar sem volta em que a criação rompe no desvão de qualquer desses lugares esquisitos, em que dois andares de prédios fazem um, o décimo andar é chamado de quinto e a noção de altura do desacostumado ser se perde ao fitar o chão, o céu e a falta de mar. Mas, não há de ser nada porque

“Onde quer que estejamos juntos
Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés
E desvãos do ser.”



 

EXPOSIÇÃO BANCOS INDÍGENAS DO BRASIL
Data: até 11 de fevereiro
Horário: das 10h às 12h e das 13h às 17h
Local: Museu de Arte Indígena (MAI)
Endereço: Av. Água Verde, 1413 – Água Verde, Curitiba – PR
Tel: (41) 3121-2395
Informações: mai@maimuseu.com.br
Agendamentos: educativo@maimuseu.com.br
Entrada gratuita

Fotos: arquivo pessoal e divulgação 

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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