Resistência, primeiro boi resgatado em Brumadinho, descansa numa fazenda com outros animais sobreviventes

Por causa de seu tamanho e imobilidade, bois, vacas e cavalos chamaram a atenção nas primeiras imagens feitas em Brumadinho, Minas Gerais, em meio à tragédia causada pelo estouro de uma barragem da mineradora Vale em 25 de janeiro. Eles apareciam atolados e ilhados na lama tóxica, sem qualquer perspectiva de salvamento. Levando em conta seu peso, as chances de resgate pareciam remotas.

A ativista Luisa Mel chegou a denunciar, em seu Instagram, que a equipe de resgate estava matando os animais com tiros, do alto de helicópteros. E que esse seria o motivo pelo qual não aceitaram sua presença na aeronave. Envolvida por emoções fortes – imagina o que é estar num local como esse tentando ajudar… -, ela foi precipitada.

A Defesa Civil confirmou que uma das aeronaves utilizadas pelo resgate, em alguns momentos, teve a missão de sacrificar animais muito feridos, que estavam sofrendo muito. Nessas condições, é impossível prosseguir com o resgate, então, o melhor a fazer é sacrificá-los, por compaixão inclusive. Portanto, não há como recriminar a decisão desses profissionais tão corajosos e dedicados. Seria leviano.

Mas, em meio a essa tristeza, muitos foram os animais salvos nessa tragédia. Cerca de 60 bovinos foram resgatados da lama de rejeitos, até o dia 31 de janeiro, e o primeiro deles acabou ficando famoso. Ganhou o nome de Resistência dos bombeiros que o salvaram. Nome lindo e muito simbólico para a ocasião.

Assim como os demais animais – cães, gatos, aves, patos, porcos, cavalos e um cágado -, Resistência foi encaminhado para uma fazenda na zona rural, entre o Córrego do Feijão e a UPA da cidade, onde recebeu tratamento veterinário e descansa em um curral, na companhia de galinhas.

Como é feito e encaminhado o resgate dos animais

Nessa fazenda, que funciona com uma espécie de hospital de campanha para os bichos, há especialistas para todas as espécies. Foram criadas algumas áreas reservadas para cachorros e aves e, neste caso, está sendo construído um viveiro. Um caminhão recebe e transporta os animais que não resistem e morrem.

Segundo o jornal Estado de Minas, Mirella Lauria D’Elia, médica contratada pela Vale para trabalhar na fazenda com uma equipe de veterinários, garantiu que “os animais resgatados por civis ou pelas equipes são triados e medicados e, se houver algum quadro crítico, temos ônibus móvel que pode fazer cirurgias emergenciais”.

Em geral, os animais que lá chegam perderam seus donos e estão atordoados, mas em boas condições. Primeiro, são fotografados a pedido da Vale, que se comprometeu a fazer um mural para afixar todas as imagens e facilitar a identificação por seus donos. Os que não forem identificados, serão encaminhados para adoção.

Depois da sessão fotográfica, tomam banho, recebem antiparasitários e são atendidos pelos médicos, nessa ordem.

Demora

Quem ama os animais e acompanhou a tragédia de Brumadinho, ficou desesperado com a demora para se iniciar o seu resgate, mas isso se deveu a alguns fortes motivos. De acordo com Laiza Bonela Gomes, coordenadora de resgate de fauna do Conselho Regional de Medicina Veterinária e integrante da brigada veterinária, bombeiros e Defesa Civil impuseram restrições que fazem parte da organização. A prioridade para os resgates eram as pessoas. Além disso, ainda havia grande quantidade de corpos a resgatar e o perigo do rompimento de uma outra barragem.

Deve-se levar em conta também que animais de grande porte, como o Resistência, todos de sua espécie e cavalos, são mais complicados de transportar e seu resgate pode demorar de seis a sete horas já que é preciso um helicóptero, suporte anestésico e redes e cordas especiais. Por isso, é difícil içar mais de um animal grande por dia. “Esses são os resgates mais complexos em virtude do peso, da condição clínica do animal e da quantidade de profissionais que precisam ser envolvidos na ação”, explicou Laiza.

Toda vida vale

Qualquer tragédia desse tipo (provocada, como a de Mariana) ou natural (tempestades, tsunamis, furacões), ceifa vidas humanas e animais de todas as espécies. A gente nem imagina. Mas bichos como cães, gatos, porcos, cavalos, bois são seres sencientes e corta o coração vê-los em situações como esta. Ainda mais serem considerados em segundo plano porque a prioridade sempre são as pessoas.

Alguns tiveram a sorte de sobreviver, como Resistência, que espero seja mesmo considerado um símbolo desta tragédia, em todos os sentidos – os bombeiros já lhe deram um nome à altura, como vimos – e tratado como tal. Espero que não vá parar no prato e que, com sua presença, ajude todos a recordar que toda vida é valiosa e merece ser salva.

Fonte: Estado de Minas/Anda

Foto: Gladyston Rodrigues/DAPress/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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