Resíduos de pesticidas em crianças e adultos caem dramaticamente após uma semana só com orgânicos

Será mesmo que o consumo de alimentos orgânicos, cultivados sem o uso de agrotóxicos, pesticidas, herbicidas ou fungicidas, é melhor para a saúde? Esta é uma dúvida recorrente na cabeça de muitos consumidores, principalmente, porque verduras, frutas, hortaliças e outros produtos orgânicos são, geralmente, mais caros do que seus similares.

Alguns estudos já demonstraram que a ingestão dos orgânicos reduz a quantidade de organofosforados (organophosphate – OP – , em inglês ). Desenvolvido nas décadas de 1930 e 1940, originalmente como um agente de gás nervoso humano, mas depois adaptado, em doses menores, para ser utilizado como inseticida, o OP é associado com o aparecimento de câncer, leucemia, autismo, entre outros problemas mentais (leia mais sobre o assunto aqui ).

Todavia, um estudo mais amplo, recém-divulgado na publicação Environmental Research, por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley e em São Francisco, nos Estados Unidos, em parceria com a organização não-governamental Friends of the Earth revela o resultado impressionante de um experimento realizado com quatro famílias americanas.

Durante duas semanas, os pesquisadores analisaram a urina de dezesseis crianças e adultos. Eles fazem parte de famílias, de raças e origens geográficas distintas (Oakland, Minneapolis, Atlanta e Baltimore). No total foram coletadas 158 amostras. As primeiras, no início da pesquisa, e as demais, ao final de seis dias, durante os quais, os envolvidos no estudo fizeram uma dieta baseada somente em alimentos orgânicos.

Os testes iniciais indicaram a presença dos quatorze tipos de pesticidas testados na urina de todos os participantes. Depois da mudança para os alimentos cultivados sem substâncias químicas, houve uma redução média de 60% na presença dos agrotóxicos. Um deles, especificamente, o malationa, teve uma queda de 95%. Segundo a Organização Mundial de Saúde, ele é associado com o aparecimento de câncer.

A prova de que os orgânicos funcionam: resultados da urina,
praticamente sem resíduos de agrotóxicos

Os cientistas citaram ainda a diminuição de vestígios de 2,4D, piretroides e o neonicotinóide. Este último é um dos pesticidas mais consumidos globalmente e tem como grande diferencial ser sistêmico, ou seja, se espalhar por toda a planta: folhas, flores, ramos, raízes e até, néctar e pólen. Em geral, é colocado na semente e a partir daí, toda a planta fica com vestígios dele.

Em apenas seis dias, o gráfico mostra a redução impressionante
dos pesticidas

Além de câncer, muitos dos agrotóxicos encontrados na urina das crianças e adultos americanos são apontados como responsáveis pelo aumento de casos de autismo, doenças autoimunes, infertilidade, problemas hormonais, Alzheimer e o mal de Parkinson.

“Este estudo prova que os orgânicos funcionam”, disse Kendra Klein, PhD, cientista senior da equipe do Friends of the Earth e co-autora da pesquisa.

O antes e o depois: com e sem pesticidas

“Todos nós temos direito a alimentos isentos de pesticidas tóxicos. Os agricultores e trabalhadores rurais que cultivam a comida da nossa nação e as comunidades rurais em que vivem têm o direito de não serem expostos a produtos químicos ligados ao câncer, ao autismo e à infertilidade. E a maneira como cultivamos alimentos deve proteger, e não prejudicar, nosso meio ambiente. Precisamos urgentemente que nossos líderes apoiem nossos agricultores na disponibilização de alimentos orgânicos saudáveis para todos”, ressalta Kendra.

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Imagens: reprodução vídeo Friends of the Earth

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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