Refugiados somos todos nós

fila de refugiados

Parece que os europeus criaram vergonha na cara e trataram de mudar o comportamento em relação aos refugiados. Até agora, 160 mil deles já se estabeleceram em países da Europa, principalmente Inglaterra, Alemanha, Espanha e França, apoiados por parte da população e também por políticas adotadas com urgência. A Inglaterra anunciou que está disposta a receber 20 mil imigrantes e a França, 25 mil. Angela Merkel, chanceler da Alemanha, já reservou 6 bilhões de euros para garantir trabalho e condições de vida para as levas de refugiados sírios que estão chegando por lá.

São gestos bacanas, mas talvez não sejam suficientes: desde janeiro deste ano, mais de 350 mil imigrantes atravessaram o Mediterrâneo, de acordo com a OIM (Organização Internacional para as Migrações).

É uma acomodação política feita em virtude dos fatos chocantes que aconteceram recentemente em torno dos refugiados (estima-se que mais de 2.500 tenham morrido no mar). Não dava mais para resistir à entrada deles na Europa depois da divulgação das imagens de crianças mortas, os corpos estendidos na praia. A solução foi aturá-los, superando um sentimento inequívoco de xenofobismo e nacionalismo.

O Brasil já recebeu 8 mil refugiados sírios que vêm para cá porque não precisam de documentos — e muitos deles são profissionais especialistas de alto nível. Isso porque, há cerca de dois anos, o Conare (Comitê Nacional para Refugiados) publicou normativa facilitando a concessão de vistos a imigrantes daquele país.

A migração sempre ocorreu no planeta, normalmente motivada por perseguição política ou pela procura de condições melhores de vida. Nos últimos anos está havendo uma intensificação desse movimento. Populações de países como Congo, Haiti, Somália, Jordânia e Síria procuram abrigo em outros países pelos motivos mais fundamentais da existência: salvar a própria pele.

Mas esse já não é apenas um problema localizado, motivado por guerras regionais, catástrofes e desequilíbrio econômico circunstanciais. É um problema cada vez mais permanente e  mundial que não pode ser mais ignorado pela comunidade internacional.

Hoje, há muito mais fatores no planeta que podem provocar migrações cada vez maiores ou, em outras palavras, deslocamentos populacionais gigantescos. A água é um deles. Pouco se comenta isso, mas um dos motivos da guerra na Síria é a longa seca que atingiu a população entre 2006 e 2010. Foi também a seca que, em 2007, provocou uma crise de abastecimento de alimentos no norte da África, uma região sempre sensível a conflitos cruéis e deslocamentos populacionais.

A sombra obscura que está por trás da questão da água são as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. Em 2014, um relatório do Banco Mundial informou que as mudanças do clima provocarão ondas de calor e seca principalmente no Oriente Médio e Norte da África, prejudicando a agricultura e promovendo escassez de alimentos e água — e, claro, conflitos e deslocamentos populacionais. Climas extremos, seja frio ou calor, serão cada vez mais comuns e motivo inquestionável para populações inteiras procurarem outras áreas para simplesmente sobreviver.

Já não é possível, portanto, enfrentar a questão das migrações com um olhar circunstancial. Permitir a entrada de 20 mil ou 200 mil imigrantes na Europa são medidas paliativas, úteis sim, mas não definitivas. É preciso fazer uma abordagem muito mais ampla para encarar a migração hoje e no futuro como um fato inevitável e de grandes proporções. Esse, sim, será o verdadeiro exercício de tolerância e convivência.

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Foto: United Nations Photo

É jornalista há 35 anos. Começou a escrever sobre meio ambiente em 1988 e, desde então, não se afastou mais da área: foi editor da revista Horizonte Geográfico e colaborador do Planeta Sustentável. Como escritor e romancista, publicou seis livros e foi finalista do Prêmio Jabuti. Criou e mantém o site Poucas Palavras: http://robertoamado.com.br/

Roberto Amado

É jornalista há 35 anos. Começou a escrever sobre meio ambiente em 1988 e, desde então, não se afastou mais da área: foi editor da revista Horizonte Geográfico e colaborador do Planeta Sustentável. Como escritor e romancista, publicou seis livros e foi finalista do Prêmio Jabuti. Criou e mantém o site Poucas Palavras: http://robertoamado.com.br/