‘Refugiados do Desenvolvimento’: curta metragem brasileiro participa do maior festival de cinema ambiental do mundo

Quando o documentarista Fabio Nascimento produziu este filme para uma palestra que faria a convite da ONG Médicos Sem Fronteiras, não imaginou que ele lhe renderia tanto reconhecimento e visibilidade. E que seria exibido em tantos festivais e, muito menos, que um dia seria convidado para participar do Environmental Film Festival (DCEFF) em Washington, Estados Unidos, o maior festival de cinema ambiental do mundo.

Pois ontem, 17/3, o curta metragem Refugiados do Desenvolvimento (que você pode assistir no final deste post) foi exibido no Carnegie Institution for Science, na mostra latino-americana Glimpses from Latin America – Sustainability Challenges Affecting Daily Lives (Vislumbres da América Latina – Desafios da Sustentabilidade que afetam a Vida Todos os Dias, em tradução livre), ao lado de um filme mexicano e outro dominicano.

“É incrível ver esse filme sendo exibido ao lado das obras de colegas inspiradores. E este é um momento crucial para elevarmos e expandirmos os debates em torno de nossas responsabilidades ambientais”, escreveu Fabio em seu Instagram.

Refugiados do Desenvolvimento não teve super produção, nem contou com esforços de distribuição. Mas é tão bem editado e tão lindo, que sua trajetória orgânica é muito compreensível.

Em apenas oito minutos – feito para ilustrar uma palestra, não poderia ser muito maior do que isso -, ele resume toda destruição que presenciou e registrou em belíssimas imagens durante suas andanças pelo Brasil em vários momentos.

O progresso no Brasil não previu uma coisa: gente

Em 2016, quanto tomei conhecimento do curta metragem de Fabio, escrevi aqui, para o Conexão Planeta: Em 8 minutos, documentarista mostra como o Brasil constrói a desigualdade, todos os dias. Recomendo a leitura deste texto porque ele conta sobre a essência de todo seu trabalho e a beleza desta obra, cada detalhe e momentos vividos até chegar ao filme que você vai assistir já já. Aqui, resumo um pouco essa narrativa pra facilitar a compreensão.

Em 2016, no México, quando documentava a situação da Doença de Chagas por lá, Fábio Nascimento conheceu o médico Jorge Pedro Martins, que há muitos anos trabalha com a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) e é presidente da plataforma sobre essa doença na Drugs for Neglected Diseases Initiative (DNDi). Numa conversa em que falava de seus projetos – Fabio trabalha com várias ONGs nacionais e internacionais pelo Brasil e pelo mundo, documentando belezas e tristezas. Martins o convidou para participar de uma mesa de debates na Assembleia Latino Americana da MSF, para falar sobre os impactos sociais e ambientais da extração de recursos naturais no Brasil.

Os organizadores queriam um palestrante que não fosse médico para apresentar seu ponto de vista sobre a questão Ao ouvir o documentarista, Martins identificou que ele seria perfeito. Convite feito, convite aceito, mesmo com sua rotina maluca de viagens.

A expertise de Fabio, seu acervo de imagens e tudo que seus olhos já viram por estas terras facilmente garantiriam uma boa e importante exposição nesse encontro.

Então, para apoiar sua fala, mesmo com tempo escasso – trabalhava em vários países latinos e também na Amazônia -, Fabio produziu um vídeo no qual resume, com maestria, tudo que acontece com a terra e seus filhos quando o homem resolve destruir tudo, sem cuidado com o meio ambiente e os seres que nela vivem e que dela dependem. Fazem o mal sem olhar a quem.

“Juntei várias histórias que presenciei ao longo dos últimos anos, depois que voltei a morar no Brasil. Histórias ligadas à mineração, às hidrelétricas, ao monocultivo, às invasões de terra, ao roubo de recursos em territórios indígenas… Naquele momento, eu relia Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, e me espantava com a atualidade de tudo que ele contou, em 1971. Agradeci a inspiração e lamentei que nada tivesse mudado. Ao contrário”.

As histórias de que ele fala foram captadas para a National Geographic Brasil, o Greenpeace, a Unesco e a LAG Noruega (Comitê de Solidariedade para a América Latina) e já estavam mais ou menos selecionadas para compor outros projetos. Lá estão, entre outras, as histórias vividas em Altamira, com Belo Monte, e também depois da tragédia do Rio Doce. Ao revê-las, se encaixaram rapidamente para compor a narrativa que ele queria apresentar no tal encontro. “Eu queria falar mostrar o modelo de desenvolvimento que desrespeita modos de vida, populações inteiras e biomas”.

O vídeo ganhou texto visceral de Fabio, que foi narrado em inglês, com legendas em espanhol. Mas, assim que voltou ao Brasil, ele quis fazer uma versão em português. Chamou, então, o músico Chico Cesar, que logo topou. E nem isso levou tempo “porque a narração vinha do coração. Chico é um cara de muito amor!”, conta.

Primeiro, Fabio fez apresentações informais do filme para os amigos, que logo o incentivaram a compartilhar a obra nas redes sociais. Foi assim que o conheci. Fabio ficou um pouco em dúvida se deveria divulga-lo assim, já que contém muita tristeza, mas se rendeu: “a verdade é que vivemos muitas coisas tristes no modelo econômico e social atual”. Triste, sim, mas necessário porque denuncia a realidade de forma sintética e bela e em linguagem acessível.

“Muitas vezes, sinto um privilégio enorme por fazer este trabalho, por ter este ofício, ir a esses lugares para fotografar e filmar. Também sinto o peso de estar sempre em zonas de conflito por terra, água, dignidade e poder fazer tão pouco. Recentemente, estive no extremo sul da Bahia para cobrir as consequências do cultivo de eucalipto pela indústria de celulose e, também, fiz duas viagens ao longo do Rio Doce. É bastante grave! Chegamos a pontos avançados demais da destruição dos territórios”.

Como ele diz em seu texto narrado por Chico César no vídeo, “o progresso no Brasil não previu uma coisa: gente. Cada vez mais pessoas estão nas estradas, sem o trabalho do campo, onde o latifúndio reina” e “a riqueza da terra leva à pobreza os que nela vivem para nutrir a prosperidade de outros”. Os brasileiros que sofrem com essa exploração sem limite “são refugiados do desenvolvimento, que não encontram refúgio para sua alimentação, sua saúde, seu sustento, seu modo de vida, sua dignidade”.

Por tudo isto, o curta metragem de Fabio merece ser visto por todos os brasileiros para que a voz de todos os que sofrem diretamente com a devastação seja cada vez mais ouvida.

Se você quiser conhecer um pouco mais do trabalho deste talentoso documentarista, visite seu canal de vídeos e traillers e navegue pelo seu site (recomendo os dois porque nos dois há belíssimos registros de suas viagens, principalmente pelo Brasil!). Agora, assista a Refugiados do Desenvolvimento e espalhe:

Fotos: Lunaé Parracho (retrato do Fábio) / Reprodução do vídeo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “‘Refugiados do Desenvolvimento’: curta metragem brasileiro participa do maior festival de cinema ambiental do mundo

  • 18 de março de 2019 em 11:42 PM
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    Incrível e muito importante documentário. Mostrando pro mundo a triste realidade atual do nosso país. Mas venceremos!

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