Rede Xique Xique, sinônimo de resistência

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Vem do Rio Grande do Norte o post desta semana: da Rede Xiquexique, que articula agroecologia, feminismo e economia solidária. A cactácea foi escolhida para dar nome ao grupo por simbolizar a resistência no semiárido do Nordeste.

Nascida da vontade de agricultoras e agricultores de romper com intermediários na circulação e venda de seus produtos em Mossoró, teve início em 1999, com um grupo de mulheres que constituiu a Associação de Parceiros e Parceiras da Terra (APT). O objetivo da associação era entregar diretamente hortaliças orgânicas para um grupo de consumidores, eliminando mesmo os intermediários.

O projeto evoluiu em 2003 para a criação do Espaço de Comercialização Solidária Xique Xique, referência para recebimento e venda da produção da agricultura familiar do oeste do Rio Grande do Norte. A intenção era também promover uma oferta diversificada, para atrair e fortalecer o consumo solidário no lugar do lucro acumulado pelos intermediários.

Um ano mais tarde surgia a Rede Xique Xique, buscando fortalecer unidades familiares, cooperativas, associações e grupos guiados pela economia solidária, pela agroecologia e pelo feminismo.

rede-xique-xique-sinonimo-de-resistencia-1“A Rede tem 12 anos e foi a partir da experiência de grupos produtores de mulheres do Rio Grande do Norte que ela surgiu”, informa a coordenadora técnica da Rede, Maria de Fátima Rocha Gondim. “Começou com a organização de encontros de mulheres que já produziam hortaliças e foi se expandindo para outros municípios daqui, incluindo unidades de produção familiares”.

Hoje, a Rede Xique Xique está presente em 19 municípios no oeste do estado, organizados nos territórios de Sertão do Apodi, Assú-Mossoró, Mato Grande e Terras Potiguaras, e trabalha com cerca de 100 grupos produtivos, reunindo agricultores, pescadores e artesãos. Esse número é variável. Como define Maria de Fátima, a Rede é um processo fluido: “Tem pessoas que chegam, saem, voltam, é como a maré”.

Trabalhando no sistema de quintais produtivos, as unidades familiares produzem hortaliças para seu sustento e para venda. A idade dos integrantes da Rede é variada. Embora a maior parte das pessoas tenha entre 40 e 65 anos, há também jovens na casa dos 20.

Além de promover feiras nos municípios, a Rede tem dois pontos fixos de venda, um em Mossoró e outro em São Miguel do Gostoso, locais onde os produtos ficam disponíveis durante toda a semana. Mas o forte são mesmo as feiras, onde os consumidores estabelecem uma relação de confiança com os pequenos produtores orgânicos.

A Rede Xique Xique trabalha com produção de hortaliças saudáveis, sem uso de agrotóxicos. Embora nem todos os grupos sejam certificados como orgânicos, dentro desse processo de estreitamento da relação com o consumidor a venda direta nas feiras promove uma espécie de processo de certificação não sistematizado, como define Maria de Fátima. Hoje, no oeste do Rio Grande do Norte, o sinônimo para alimento saudável é Rede Xique Xique.

O trabalho com grupos de consumo, que originou a Rede, segue forte. Só na cidade de Mossoró, onde há um ponto fixo de venda, o grupo de consumo é composto por 240 pessoas que consomem hortaliças e produtos produzidos, e gira em torno de R$12 mil por mês.

Mulheres, rompendo barreiras

rede-xique-xique-sinonimo-de-resistencia-2O feminismo é um ponto forte na atuação da Rede, sendo um dos seus três pilares definidores – juntamente com a economia solidária e a agroecologia. A relação com os grupos de mulheres é muito forte: “Tem toda uma perspectiva do feminismo, de trabalhar questões de gênero dentro da formação na Rede, discutir o espaço produtivo, de como essa perspectiva pode contribuir para a autonomia, auto realização e autoestima das mulheres”, define Maria de Fátima.

“Recentemente tivemos assembleia e nas falas das mulheres vimos depoimentos espontâneos de como elas viveram transformações na autoestima e na autonomia financeira. De como conseguiram, participando da dinâmica da Rede, despertar para esse processo de romper barreiras que encontram na comunidade, no que diz respeito a mulheres produzirem e comercializarem produtos e serviços. São mulheres que agora participam de feiras, têm uma produção sistemática de queijos, hortaliças, artesanato, enfim. Essas mulheres conseguem trazer outras, e outros homens, pra discutir essas relações de gênero, feminismo, economia solidária e agroecologia. E ainda outras questões como a superação das desigualdades sociais no campo, o combate à violência contra a mulher e a soberania alimentar”, completa.

A formação contínua é também um ponto importante para a Rede, por meio de parcerias locais e nacionais com instituições que potencializam a formação por meio de cursos e vivências. Além disso, as reuniões mensais do conselho gestor da Rede promovem atualização e debates sobre economia solidária, agroecologia e todos os temas já citados aqui.

O processo de tomada de decisão é feito coletivamente, em reuniões com representantes de todos os grupos. Um conselho diretor com representantes dos núcleos se reúne mensalmente para discutir assuntos diversos, como inscrição em editais, projetos e participação em fóruns.

“Desde a sua constituição, a Rede trabalha com a perspectiva da auto sustentação. Mas, pelas dificuldades da questão climática – porque estamos numa região semiárida -, temos que passar por um processo constante de adaptação. Somos conscientes dos desafios que temos para chegarmos a uma capilaridade financeira que possa custear não só pontos fixos, mas também as pessoas que produzem. Os planos para o futuro são focar em estratégias de comercialização, buscar mercados, instituições parceiras e continuar com o estímulo e o fortalecimento da Rede”, define Maria de Fátima.

A Rede Xique Xique vai assim ampliando sua área de atuação, levando transformação para mais pessoas, respeitando o meio ambiente e a diversidade, garantindo o comércio justo e a qualidade do produto comercializado. É um instrumento coletivo para proporcionar a liberdade de poder viver do que se produz, sem ser explorado.

Agora, conheça um pouco mais da história das mulheres que compõem a Rede neste vídeo que selecionei:

Fotos: Divulgação Rede Xique Xique e Cootipesca (foto de abertura)

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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