Rede Tucum: o turismo sob uma nova perspectiva

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Conhecer todo o litoral do Ceará pelas mãos das comunidades tradicionais. Perceber sua cultura, seus modos de vida, sua história. Se hospedar em casas das famílias ou pequenas pousadas. Enveredar por roteiros guiados pelos moradores. Experimentar os sabores locais, preparados com hortaliças orgânicas da agricultura familiar. Conviver com ambientes preservados e realizar intercâmbios culturais.

Esse é o convite da Rede Cearense de Turismo Comunitário, conhecida como Rede Tucum. Formada em 2008 por grupos de comunidades da zona costeira, ela promove atividades turísticas que respeitam os modos de vida e ambientes locais, valorizando a diversidade cultural e fortalecendo atividades tradicionais como a pesca artesanal e a agricultura.

O movimento começou com a ampliação da atividade turística na costa do Ceará, como forma de mobilização pela garantia dos territórios tradicionais das populações costeiras, buscando garantir autonomia econômica e justiça socioambiental.

“Naquele período dos anos 1970 e 1980, era forte a chegada de estruturas turísticas, e percebemos que não adiantava as comunidades ficarem contra. Era preciso pensar em um modelo de turismo que dialogasse com seu modo de vida e suas relações produtivas”, relembra Rosa Martins, que já foi coordenadora e secretária da Rede e hoje segue como apoiadora.

“Em 1998, surgiu a primeira experiência de turismo comunitário aqui. E outras foram vindo com o passar do tempo. Percebemos que não havia condição de trabalhar individualmente em cada comunidade, porque todas essas comunidades precisavam de assessoria para se estruturarem e atenderem aos turistas. Então o Instituto Terramar propôs a criação de uma rede, buscando articular as comunidades que já tinham essa iniciativa em torno de uma estratégia única de promoção e de condução dos processos de formação, de debate, tudo feito conjuntamente”.

A Rede Tucum foi lançada em 2008, durante a realização do 2º Seminário Internacional de Turismo Sustentável, em Fortaleza. No início era formada por 12 comunidades e, hoje, já são 15, todas articuladas no processo de construção coletiva, na concepção e na estruturação de estratégias de gestão e promoção. Além do Instituto Terramar, a Rede contou com apoio e articulação da Associação Caiçara de Promoção Humana para se firmar.

Hoje é possível conhecer praticamente todo o litoral cearense, de Tremembé a Tatajuba, por meio da Rede Tucum. As comunidades vivem da pesca, mariscagem, artesanato e agricultura e, entre os grupos, há assentamentos, comunidades indígenas e remanescentes quilombolas. Os roteiros fogem do padrão tradicional das agências turísticas e oferecem atividades como pescarias com mestres jongueiros, rodas de conversa em noites de lua cheia, tecendo saberes e belezas (troca de experiências com rendeiras), histórias com café e tapioca (conversas sobre atividades tradicionais e acesso a produtos agroecológicos).

E para apreciar as belezas da geografia, há também quatro roteiros que propiciam, além do contato com as praias, visitas a estações ambientais e comunidades: Passeios e Encontros entre falésias, rios e mares; Conhecendo belezas, lutas e diversidades nos territórios; Simplicidade, hospitalidade das brisas, dunas e mar; A diversidades de culturas e vidas no litoral leste do Ceará. E claro, você também pode montar seu próprio roteiro.

Troca e construção permanente

A Rede Tucum realiza assembleia anual, com representantes de cada grupo. A coordenação da rede é eleita nessas assembleias a cada dois anos, e busca dar apoio às demandas que vão surgindo no processo. Os encontros anuais são importantes para as comunidades debaterem novos desafios e estratégias para receberem os viajantes.

Um caderno de normas e procedimentos elaborado conjuntamente e aprovado em assembleia norteia o trabalho. Como as comunidades estão em localidades muito distantes umas das outras, há sempre uma coordenação local representando a Rede, ajudando da definição dos preços dos serviços e dos processos de formação necessários.

As assembleias anuais duram cerca de quatro dias, e a cada ano são realizadas em local diferente, buscando proporcionar aos integrantes da Rede a oportunidade de conhecer e vivenciar particularidades de cada região e intensificar as trocas.

Na última assembleia, realizada em novembro de 2015, foi apresentado um estudo sobre a Rede, feito pelo Instituto Terramar e pela Universidade Federal do Ceará. “Um dos maiores desafios é a questão da comunicação, porque essas comunidades tradicionais eram muito isoladas. Com a chegada da tecnologia muitas tiveram acesso, mas nem todas. Organizamos um projeto de integração da comunicação dessas comunidades e fizemos um bom debate sobre a importância disso. E também discutimos estratégias de organização da comercialização dos serviços turísticos. Esse é o principal debate permanente que a Rede precisa fazer: construir coletivamente uma estratégia de comércio com economia solidária, preço justo, valorização da comunidade, sem que o turismo venha a substituir as atividades tradicionais. Que ele seja um articulador de outras atividades. Isso traz vários potenciais”, avalia Rosa.

redetucumarquivoterramarNo estado do Cerará, o turismo é uma das principais estratégias de governo. Se contrapondo a esse turismo tradicional, a Rede Tucum vem pautar a organização das comunidades e os vários atrativos que elas oferecem. E ao mesmo tempo em que os grupos se organizam para o turismo, se organizam para ter qualidade de vida. Quando a Rede define uma estratégia, faz estudo das demandas das comunidades e, com isso, faz com que seus integrantes percebam que são cidadãos, que uma estrada não é construída para o turista, mas para toda a comunidade. Isso tem levado à problematização da ausência de políticas públicas à disposição da comunidade.

“O que é interessante perceber é que, além dos serviços próprios da atividade turística, outros são gerados. Comunidades que não produziam alimentos orgânicos passaram a produzir, e esses alimentos são comercializados com empreendimentos locais. Isso vem potencializando a agricultura familiar. Indiretamente o turismo vem desencadeamento outros processos que vão dinamizar a renda local das famílias que estão associadas à atividade turística. Mas essa atividade é sazonal, sabemos que as comunidades não podem depender só dela. Há períodos de alta e de baixa. E nesses períodos de baixa as comunidades continuam desenvolvendo suas outras atividades, sem depender unicamente da renda do turismo”, avalia Rosa.

Jovens em seus locais de origem

Um desafio enfrentado pela Rede, e por quase todas as comunidades tradicionais no país, é como motivar os jovens para que eles não rumem para os grandes centros em busca de trabalho.

Uma das respostas a esse dilema é a Escola Popular de Turismo Comunitário (EPTC), constituída com o objetivo de promover a formação desses jovens em temas como comunicação, gestão e comercialização no turismo comunitário. Essa iniciativa inclusive já foi mencionada aqui, no Conexão Planeta, no blog Na Garupa.

“É um fato que a juventude da zona costeira migra em busca de postos de trabalho. E nosso debate com as comunidades é como tornar compreensível para os jovens a importância de permanecerem em seus locais de origem e construir novas estratégias de trabalho. Por isso formamos 150 jovens na EPTC, que aprenderam sobre as atividades regionais, a importância do turismo e da preservação desses lugares. Jovens de todas as comunidades da Rede Tucum participaram”, diz Rosa.

O intercâmbio com iniciativas semelhantes é também importante para a consolidação da Rede, que se descobriu irmanada por mais de 200 iniciativas parecidas em todo o Brasil, sejam individuais ou em grupo. Essa descoberta veio por meio do contato com a Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário (TURISOL).

“Esse movimento está crescendo na América Latina. Em 2017 haverá um encontro latino-americano de turismo comunitário na Colômbia, e vamos estar juntos discutindo uma estratégia latino-americana. É importante conhecer a diversidade que temos em nossas regiões. Aqui no Brasil há iniciativas parecidas com a nossa em Santa Catarina, na Bahia e no Pará, onde é possível perceber a riqueza e o potencial que temos. As pessoas precisam ter conhecimento desse tipo de turismo”.

Fica o convite da Rosa. E meu também. Pra conhecer o Brasil de um jeito diferente. E aproveite o gostinho de toda essa diversidade no vídeo sobre a Rede Tucum, que reproduzo abaixo:

Fotos: Divulgação/Rede Tucum e Instituto Terramar

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Um comentário em “Rede Tucum: o turismo sob uma nova perspectiva

  • 20 de setembro de 2016 em 8:01 PM
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    Muito interessante. É uma modalidade turística que oferece aquilo que é ofertado na mídia, mas quando vamos ver, não vemos. Quero dizer que é muito comum fazer propaganda de convite a conhecer um lugar nativo, comida tradicional e outras ofertas quando na verdade não se tem nada de novo para mostrar. O da Rede Tucum é verdadeiro.

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