Rede Caatinga Cerrado valoriza a sociobiodiversidade dos biomas brasileiros

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Em 2012, participando do Fórum em Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável – que antecedeu a realização da conferência Rio+20, da ONU, no Rio de Janeiro -, conheci a Articulação Pacari, uma rede socioambiental formada por organizações comunitárias que praticam medicina tradicional através do uso sustentável da biodiversidade do Cerrado.

As organizações participantes representam principalmente mulheres agricultoras, extrativistas, assentadas da reforma agrária, indígenas, quilombolas, agentes das pastorais da saúde e da criança.

Além disso, a Articulação Pacari também promove geração de trabalho e renda para as comunidades locais por meio do uso sustentável do Cerrado, desenvolvendo cadeias produtivas de óleos de macaúba, pequi, rufão, indaiá e gueroba, com a marca Pacari Cerrado Ecoprodutivo.

Só essa iniciativa já daria um post aqui no blog. Mas, esta semana, descobri que, além de tudo isso, a Articulação Pacari integra uma rede ainda maior de comunidades ecoprodutivas, a Rede Caatinga Cerrado.

Esses dois biomas brasileiros apresentam grande variedade de fauna, flora, recursos hídricos e diversidade sociocultural. As pessoas que habitam essas regiões enfrentam muitos desafios e esse tipo de iniciativa é uma forma de resiliência bastante proativa, buscando se distanciar do estigma da pobreza e da desarticulação. O diferencial de mercado dessas comunidades produtivas é a relação de respeito com a natureza e com o conhecimento tradicional.

A Caatinga Cerrado é hoje um espaço de articulação de redes e empreendimentos de agricultura familiar, buscando a promoção e comercialização de produtos desses dois biomas. Essa história começa em 2006, quando, após um seminário realizado na cidade de Fortaleza, no Ceará, 31 associações e cooperativas, juntamente com organizações governamentais e não governamentais, aceitaram o desafio de representar a riqueza e diversidade da Caatinga e do Cerrado numa feira latino-americana de produtos e serviços sustentáveis em São Paulo. O desafio se repetiu no ano seguinte, dessa vez reunindo 150 empreendimentos representados por 15 redes de articulação.

Em 2008, o grupo realizou uma oficina de planejamento participativo, e desse encontro surgiu a Rede Caatinga Cerrado. Hoje, ela atua com mais de 20 mil famílias, representadas por 200 empreendimentos e 20 redes de 14 estados brasileiros. Conta com a parceria do Governo Federal, cooperação alemã e organizações não governamentais.

quebrador-de-baru-dodesigns1Entre os produtos beneficiados estão óleos vegetais, café, castanhas, derivados de cana de açúcar, frutas, geleias, doces, compotas, mel, produtos orgânicos certificados, artesanato, cosméticos, fitoterápicos, alimentação escolar e agricultura familiar.

A Caatinga ocupa quase 10% do território brasileiro e abrange os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, sul e leste do Piauí e norte de Minas Gerais. A região é marcada pelo clima semiárido, solo raso e pedregoso, mas fértil. O bioma tem alta biodiversidade e é rico em recursos genéticos. Entre as espécies mais comuns estão a aroeira, o umbu, a amburana, baraúna, maniçoba, mandacaru, macambira e juazeiro A irregularidade climática interfere permanentemente na vida do sertanejo. Na longa estiagem, os sertões muitas vezes são semidesertos.

Existem as chamadas ‘ilhas de umidade’ e solos férteis, os chamados brejos. Ali é possível produzir quase todos os alimentos e frutas peculiares na região. Essas áreas localizam-se geralmente próximas às serras, onde há maior incidência de chuvas. A Caatinga, juntamente com a Amazônia, é também um dos biomas mais ameaçados pelas mudanças climáticas, com o aumento da intensidade das estiagens prolongadas e riscos de desertificação.

O Cerrado é a segunda maior formação vegetal brasileira, ficando atrás somente da Floresta Amazônia. Ao todo, cerca de 2 milhões de km² se espalham por dez estados, ou seja, 23,1% do território brasileiro. Cortado por três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul (Tocantins, São Francisco e Prata), mantém uma biodiversidade que surpreende: estima-se que haja a ocorrência de 10 mil espécies de plantas diferentes, muitas usadas na produção de cortiça, óleos, fibras, artesanato, além de uso medicinal e alimentício. Os dados são do WWF Brasil.

Muitas vezes, em nosso imaginário, associamos esses dois biomas brasileiros em especial à seca e à escassez quase permanentes, sem nos atentar para a riqueza de sua sociobiodiversidade.

Iniciativas como a Caatinga Cerrado, a Articulação Pacari e outras semelhantes nos fazem perceber que o trabalho e a associação em redes, a economia solidária, são alternativas de resiliência e sustentabilidade também nesse pedaço do Brasil. Mais ainda, de valorização de toda a riqueza socioambiental e cultural desses dois biomas.

Selecionei o vídeo abaixo, que registra a participação da Rede Caatinga Cerrado na ExpoSustentat 2008 – já então constituída como rede – que ajuda a entender como funciona toda essa articulação:

Fotos: DoDesign-S

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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