Reconexão vital


Este blog tem a intenção de contar Histórias da Natureza. O conteúdo será balizado por descobertas de Comportamento Animal e Ecologia, tendo a Evolução Biológica como fio condutor. Na companhia de cientistas de prosa fácil – entre eles Edward Wilson, Jane Goddall, Carl Zimer, Robert Sapolsky e Ivan Sazima –, iremos explorar a admirável diversidade de vida da Terra.

Como o nome do blog revela, incluirei nessa jornada pitadas de História Natural do Homo sapiens e nossa espantosa dificuldade de compartilhar o planeta com outros tantos milhões de espécies. Não há pretensão de fazer ensaios políticos, mas olhar a humanidade pelo ponto de vista da natureza, em especial pelo caminho evolutivo que nos trouxe até aqui, pode ser revelador e uma ótima perspectiva para tentar compreender o mundo atual. Essa abordagem é especialmente apropriada quando consideramos nosso modo de vida contemporâneo, que afastou a humanidade de seu meio natural.

Nossos antepassados evolutivos desceram das árvores, vagaram por centenas de milhares de anos como caçadores-coletores pelas savanas africanas, e em um tempo relativamente curto ocuparam as mais remotas regiões da Terra. Em pé, com as mãos livres, aprendemos a construir ferramentas, no princípio muito simples, depois sofisticadas. Da pedra lascada às espaçonaves, dominamos a tecnologia e vivemos muitas vezes em pequenas cavernas de concreto.

Agora, somos uma espécie soberana. Parcelas crescentes da nossa espécie agrupam-se em grandes centros urbanos. Áreas verdes e o contato genuíno e restaurador com a natureza são cada vez mais raros. Pior, nossa relação com outros seres vivos se mingua, especialmente quando consideramos o estilo de vida cada vez mais tecnicista. Somos virtualmente encarcerados por telas sedutoras.

Uma vida mais humanizada e com empatia por todos os seres

Crianças, em sua maioria, nascem e crescem em contextos urbanos. Com orientação consciente ou não, desde pequenos vivem com agenda apinhada, imersos em telas de computadores e smartphones. São escassos os vínculos com ambientes naturais, muitas vezes erroneamente narrados como ameaçadores. Grande parte da humanidade vive, hoje, em cidades e muitas vezes a conexão com o mundo natural ocorre por meio de aquários e zoológicos (como na foto que ilustra este post).

Quando adultos, sequer percebemos adequadamente a relação fundamental com a natureza, lócus da biodiversidade que provê alimentos, fibras, medicamentos e numerosos serviços ecossistêmicos, como água pura, regulação do clima, controle de pragas, dispersão de sementes e polinização.

Muito além dos bens e serviços, o contato puro com a natureza resulta em bem-estar e resiliência para enfrentar o mundo atual. Numerosos estudos de fisiologia e comportamento mostram que a conexão com o meio natural tem admirável poder de cura por promover relaxamento e reduzir estresse em humanos.

Dessa ligação matricial com a natureza, surge a chamada de biofilia, ideia formulada por Edward Wilson em meados dos anos 1980. Sinteticamente, biofilia é nossa atração inata por ambientes conservados, dotados de poder restaurador, que nos acolhe e cura. Mesmo nas cidades, muitos de nós procuramos nos conectar com elementos naturais, seja plantando flores, praticando jardinagem, criando um cão ou simplesmente caminhando por uma área arborizada em um parque.

A hipótese da biofilia sugere também que, diante de um desastre, humanos busquem vínculos com a natureza, que promove restauração emocional. Em situações limite, o Mundo Natural é nosso maior abrigo. Por exemplo, nas semanas que sucederam aos ataques terroristas de 11 do setembro de 2001, a visitação aos Parques Nacionais dos EUA aumentou expressivamente. Emocionalmente abalados, os norte-americanos procuraram refúgio e reparo em suas áreas protegidas.

Se por um lado percebemos claramente o valor utilitário da biodiversidade, por outro lado não são bem evidentes os valores estéticos, culturais e educativos. Andamos com a biodiversidade em nossos bolsos, mas raramente nos damos conta que os ícones do papel-moeda brasileiro são formados por elementos visuais de nossa fauna. Vivemos permeados pela biodiversidade, mas ainda não a apreciamos adequadamente.

Para o bem ou para o mal somos inventores e contadores de história. Com destaque para a História Natural e a relação entre Homo sapiens e outros organismos, este blog é um espaço para estimular nossa conexão em busca de uma vida mais humanizada, com profunda empatia com as diferentes criaturas que compõem o Mundo Natural.

Aqui, também, farei sugestões de leituras e de vídeos que ajudem a ampliar o conhecimento e a afetividade pelo nosso planeta.

Sejam muito bem-vindos!

Foto: José Sabino/Natureza em Foco

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

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