Recifes de coral: antes cozidos, agora dissolvidos pelo excesso de gases na atmosfera

Oceanos mais ácidos vêm causando a perda do esqueleto de recifes de coral em uma intensidade dez vezes maior do que o ganho habitual de estrutura calcária. Esta é a conclusão de um estudo publicado, em 22/2, pela revista científica Science. De acordo com os pesquisadores, essa osteoporose dos corais pode levar à dissolução líquida de parte dos recifes até 2050 – e seu possível colapso.

O grande vilão da descalcificação é o excesso de gases presentes na atmosfera. Cerca de 30% do gás carbônico emitido pela ação do homem vai parar no oceano, que misturado à água do mar forma o ácido carbônico, liberando íons de carbonato (CO32-) e hidrogênio (H+), tornando o oceano mais ácido.

“A repercussão das mudanças climáticas no oceano são extremamente perigosas para os recifes de corais e podem dizimá-los em poucos anos”, disse Bradley D. Eyre, do Centro de Biogeoquímica Costeira, da Southern Cross University, na Austrália, um dos principais autores do estudo.

O trabalho monitorou a dissolução de carbonato de cálcio dos recifes a partir de cinco locais diferentes dos oceanos Atlântico e Pacífico. A dissolução foi medida usando 57 incubações a partir de equipamentos desenvolvidos para medições de parâmetros físico-químicos (câmaras bentônicas).

Os sedimentos de carbonato são formados por esqueletos de corais, algas calcárias e organismos como briozoários, equinodermos e foraminíferos.

Embora a dissolução tenha respondido de forma diferente em cada uma das regiões, o que se deve às diferenças nas propriedades dos sedimentos (como mineralogia, porosidade, permeabilidade, tamanho de grão e metabolismo, além de fatores como luz, profundidade e hidrodinâmica) todos os recifes de corais apresentaram perdas calcárias maiores do que ganhos.

Os carbonatos dos recifes do Havaí, por exemplo, estão entre os mais sensíveis e tendem a estar dissolvidos até o final do século. Os de Tetiaroa, atol formado por várias ilhotas de coral na Polinésia Francesa, caminham para a precipitação líquida (ou seja, ganham calcário), e os das Bermudas irão da precipitação líquida para a dissolução líquida até o fim do século. Segundo Ayre, outros componentes da comunidade de recifes de corais, como algas, também sensíveis à acidificação, podem acelerar a resposta negativa dos corais.

A concentração de gás carbônico aumentou 3,5 vezes mais nos recifes de corais do que no oceano aberto nos últimos 20 anos. Se acrescentarmos o branqueamento e a mortalidade de corais causados pela água mais quente, teremos a degradação ainda mais acelerada dos recifes de corais. “Ainda não se sabe se a dissolução líquida fará o recife inteiro erodir de forma catastrófica ou se a morte vai acontecer lentamente. De todo modo, é uma realidade que não gostaríamos de presenciar”, afirmou Ayre.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima, em 22/2/2018

Foto: The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey (coral branqueado nas Ilhas Maldivas, em 2016)

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