Rebeca Lerer: denúncias, campanhas e projetos para aplacar ‘a raiva contra o que está errado’

Seja lutando pelas florestas e seus povos, por energias limpas, pela água, por mudanças nas políticas contra drogas ou contra a violência policial, a ativista Rebeca Lerer sempre esteve ligada a causas que envolvem direitos humanos, às quais dedica sua vida há mais de 20 anos.

Sua atuação em organizações como a SOS Mata Atlântica, Greenpeace e Anistia Internacional trouxe a fama de briguenta, que ela refuta. “Briguei com todo mundo do governo e fiquei com essa fama, mas o ativista, em geral, é alguém que não se preocupa com quem está falando, tem compromisso com a verdade”, explica.

Sua trajetória inclui fatos espetaculosos, como a compra de um caminhão de madeira ilegal na Amazônia para entregar na sede da Polícia Federal, em São Paulo, e invadir a usina de Angra dos Reis contra a ampliação do programa nuclear brasileiro. Mas também conta com momentos de pura emoção, como trabalhar junto a mães que tiveram seus filhos assassinados pela polícia no Rio de Janeiro.

“Cheguei a passar mal, não dormia, o nível de miséria humana, do racismo e da violência do Estado é inimaginável”. Fez parte tanto de iniciativas locais, como a Matilha Cultural, em São Paulo, até grandes projetos internacionais, como a Comissão Global de Políticas sobre Drogas, criada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Conheci essa gana por justiça e por fazer de Rebeca quando ela era ainda universitária e foi minha estagiária na SOS Mata Atlântica, e nunca consegui perder de vista e admirar sua trajetória que, hoje, inclui um ativismo lúcido em forma de “notas mentais” no Facebook. “Sempre trabalhei pelo coletivo, não tenho livro, ONG ou patrimônio, não acumulei nada. Pra mim, ativismo é isso, não é para ficar famosa. Crio as campanhas, saio e vou para a próxima”, conta ao Conexão Planeta.

Você adotou o ativismo como postura de vida muito cedo. Qual a origem dessa escolha?

Quando tinha 18 anos e estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo, resolvi passar um ano fora do país. Foram oito meses em Israel e mais cinco viajando pela Europa. Isso foi em 1995, ano em que o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabi, foi assassinado. A guerra dos Balcãs, que dissolveu a antiga Iugoslávia, estava terminando em plena Europa; fazia três anos da primeira guerra do Iraque. Foi quando conheci os primeiros grupos de direitos humanos, pessoas que tinham escolas para crianças na Jordânia, na Palestina e em Israel.

Ainda em Israel, fiz um curso de comunicação que mostrava como a mídia norte-americana criava uma narrativa sionista. Fui a primeira pessoa da minha família a ir para a Alemanha após o Holocausto. Tudo isso me tocou muito, me politizei. Abri meus olhos para os direitos humanos.

Como canalizou essa experiência para sua vida profissional?

Quando voltei, não sabia muito o que iria fazer, onde poderia trabalhar – tinha piercing, tatuagem, cabelo vermelho -, e surgiu a oportunidade de estagiar na SOS Mata Atlântica. Já tinha sido associada da SOS e achei que, pelo menos, ia fazer algo útil. Foi uma sorte cair ali e descobrir o que é uma organização não-governamental. Aprendi muito sobre o Brasil, entendi que é um país florestal. Além disso, vi que não precisaria trabalhar em uma redação de jornal, poderia atuar em ONGs.

Quando saí de lá, esse compromisso foi se consolidando. Fiz uma viagem ao Parque Nacional do Superagui, no Paraná, e resolvi fazer meu trabalho de conclusão de curso sobre ele. Lá, namorei um caiçara, morei na vila de pescadores e experimentei cogumelos. Mais tarde, quando me tornei ativista pela liberação das drogas, sabia das questões culturais que envolvem o tema. Também perdi o medo de locais selvagens, de ficar sem telefone, ser picada por bicho, nadar em rio. Tirei 9,5 no meu TCC (trabalho de conclusão de curso) na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

Passei o último ano da faculdade indo e voltando de Superagui até que soube de uma vaga no Greenpeace para fazer a newsletter trimestral. Mandei meu currículo e me ligaram no mesmo dia. Entrei em maio de 1998 e, em julho, já estava apaixonada pelo trabalho da ONG, participando de ações. Fiquei até 2009.

No Greenpeace, você participou de muitos projetos e campanhas diferentes, atuando em campo. Foi uma opção?

Meu envolvimento na ONG cresceu rapidamente. Pouco depois que comecei a trabalhar, Delcio Rodrigues me chamou para escrever com ele um relatório sobre energia solar.

Ainda em 1998, uma pessoa me falou sobre shows mantidos com energia solar e, como conhecia Ricardo Chantilly, que era empresário do Jota Quest, fiz a articulação para um show do grupo na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Foi o primeiro show abastecido com energia solar no país. A apresentação teve público de 25 mil pessoas e reportagem no Fantástico. Quando voltei para São Paulo, o diretor executivo do Greenpeace no Brasil, Roberto Kishinami, estava me esperando e me convidou para trabalhar nas campanhas.

Em janeiro de 1999, o navio MV Greenpeace fazia uma expedição e teria “uma perna” no Brasil, do Rio de Janeiro a Porto Alegre, para falar de contaminação tóxica nos rios e mares. Embarquei com uma malinha para dois dias e fiquei dois meses. Não queria mais sair do navio, que tinha gente de todo o mundo. Formalizei que era isso que eu queria fazer. Percebi que a adrenalina das denúncias era onde poderia botar minha raiva contra o que está errado, e que era um privilégio trabalhar com pessoas que estavam em movimento.

Depois disso, você passou vários anos na Amazônia. Como foi a experiência?

Abriu uma vaga para coordenação de comunicação do Greenpeace em Manaus e fui para lá. Antes de pensar, estava no Alto Juruá gravando entrevistas com ribeirinhos. A Amazônia era longe, mas eu não tinha medo. Morávamos na casa do Greenpeace, então, estávamos envolvidos 24 horas por dia, sete dias por semana, tudo o que fazíamos representava a organização. Fiz várias expedições e denúncias. Uma vez, o Paulo Adário, coordenador da Campanha Amazônia, foi ameaçado e eu estava ao lado dele.

Lá, deixei de ser jornalista para ser ativista. Entre 2001 e 2002, produzi os Ecosystem 1 e 2, dois festivais de quatro dias de música eletrônica, a Rave da Amazônia, para 30 mil pessoas e com patrocínio do governo do estado. Também levamos a Manaus uma etapa do campeonato brasileiro de skate, com a primeira rampa construída com madeira certificada do mundo. O evento teve a presença do skatista Bob Burnquist, que levou a ideia para os campeonatos norte-americanos, que passaram a usar somente madeira certificada.

Compramos um caminhão de madeira ilegal em Rondônia e trouxemos para São Paulo e entregamos na sede da Polícia Federal em São Paulo, com cobertura exclusiva do Fantástico. Briguei com todo mundo do governo e fiquei com a fama de briguenta, mas o ativista, em geral, é alguém que não se preocupa com quem está falando, tem compromisso com a verdade”.

Também fui convidada para coordenar a campanha Cidade Amiga da Amazônia, em São Paulo, na qual pedia que as prefeituras fizessem leis para garantir madeira legal ou certificada nas licitações, com regras de controle de origem. Quando saí, mais de 40 municípios tinham legislação a respeito.

Ainda no Greenpeace, você trabalhou também com energia nuclear.

Fui convidada para ser coordenadora da campanha de Clima e Energia, cujo foco eram as mudanças climáticas. Em 2006, porém, o governo Lula ressuscitou o projeto de Angra 3 e, nos próximos dois anos, fiquei focada no combate à retomada do programa nuclear brasileiro.

Fizemos vários relatórios sobre Angra, mas um dos trabalhos mais difíceis com que me envolvi foi a denúncia de Caetité, localidade a 700 quilômetros de Salvador, na Bahia, onde havia uma mina de urânio da estatal Indústrias Nucleares do Brasil. A mina operava com licença provisória e a população estava bebendo água com até sete vezes mais urânio do que a Organização Mundial da Saúde recomenda. Os casos de leucemia nas comunidades quilombolas do entorno bombavam, as pessoas estavam morrendo e não tinha tratamento na cidade. Foram nove meses de investigação, fui para a região, consegui audiências públicas, embargamos a ampliação da obra. Um dos motivos pelos quais saí do Greenpeace foi porque não quiseram dar continuidade à essa história.

Além disso, no início de 2009, haveria um expedição sobe mudanças climáticas, que iria da Amazônia até Angra, onde pretendíamos invadir a usina nuclear. Trabalhei um ano nesse projeto, mas a operação foi suspensa. Disse que faria assim mesmo, nem que fosse minha última atividade na organização. Apesar de bem menor do que o previsto, a ação foi capa do Estadão e saiu no Jornal da Globo.

E essa foi realmente sua última ação no Greenpeace?

Após a ação, tirei férias e, na volta, disseram que meu jeito era um problema, foi traumático. Acredito que incomodava mais por ser mulher. Em 11 anos de Greenpeace, nunca me convidaram para ser diretora. Fui a eventos internacionais da organização onde todos os participantes eram diretores, menos eu. Preferi sair, mas me abalei. Pensava, onde vou ser ativista?

Mas a Matilha Cultural estava abrindo em São Paulo e fui convidada para dirigir o espaço, o que foi uma experiência incrível de atuação local. Fizemos várias campanhas, trabalhos coletivos de interação com a cultura, como arborização no centro da cidade e a campanha pelo Parque Augusta. Na Matilha, inclusive, podia tocar em temas como a cannabis – desde 2008, participo do coletivo que organiza a Marcha da Maconha. É um espaço privado, mas independente. Nunca trabalhei para empresas, governos ou partidos políticos.

Como foi participar de um projeto como a Comissão Global de Políticas sobre Drogas?

Em 2011, fui convidada para participar da Comissão Global de Políticas sobre Drogas, que estava sendo criada pelo Fernando Henrique Cardoso e outras autoridades, como ex-presidentes do México e da Colômbia e o ex-secretário da ONU, Kofi Annan. A intenção era discutir as políticas contra drogas.

Passei três anos nesse trabalho, que considero meu MBA na área e foi uma grande oportunidade de ter impacto no tema. Nesse período, tive que comprar roupas e maquiagem para frequentar esse mundo dos menos de 1% que têm poder. Precisávamos falar com Bill Clinton e era tipo: “vai lá e liga pra ele!”. Nos três anos que passei no projeto, que ficava hospedado no Instituto Igarapé, no Rio, fiz 17 viagens ao exterior, participei de eventos em Londres, Genebra… Apresentamos relatório no Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova York.

Por que resolveu sair desse projeto e o que tem feito desde então?

Em todos os projetos de que participei, nunca deixei de estar em manifestações de rua, a favor do aborto, do feminismo, contra a violência policial… Em 2013, corria da polícia nas manifestações, trabalhando com o FHC. Saí depois de lançar o relatório no MoMA, por achar que já tinha feito a minha parte. Sou ativista também com minha existência, tenho que estar bem para fazer meu trabalho.

Em 2015, trabalhei para a Aliança da Água, em São Paulo e, em 2016, para a Anistia Internacional, na campanha global durante as Olimpíadas contra violência policial no Rio de Janeiro. Para isso, fazia entrevistas com mães de jovens assassinados pela polícia. Cheguei a passar mal, não dormia, o nível de miséria humana, racismo e violência de estado é inimaginável. Frequentava a Maré e o Morro do Alemão, via os tiroteios. Fizemos o aplicativo Fogo Cruzado, que mapeia tiroteios no Rio.

Sempre trabalhei pelo coletivo, não tenho livro, ONG ou patrimônio, não acumulei nada para mim. Ativismo para mim é isso, não é para ficar famosa. Crio as campanhas, saio e vou para a próxima. Meu papel é o do reconhecimento dos meus privilégios, por conta da minha educação, minhas viagens. Depois da Anistia, quis ser autônoma e trabalhar por projetos. Tentei focar bastante na questão das drogas, onde há pouca gente atuando, sobretudo na comunicação.

Neste momento, estou trabalhando na Primavera X, gincana para microbacias, na qual jovens de 10 a 17 anos se inscrevem e recebem missões durante sete semanas. Nesta edição, temos 4.300 inscritos e deverão acontecer entre 300 e 400 mutirões pela água. É um projeto de futuro, de reconstrução do tecido comunitário. O que me atraiu foi o público-alvo, pois tenho uma filha de 16 anos e sei o potencial desses jovens, que está meio solto.

Também sou do conselho da Matilha Cultural e continuo na organização da Marcha da Maconha. Tenho transtorno de ansiedade e a cannabis é meu remédio, defendo seu uso terapêutico. Também me tornei madrinha de alguns jovens negros da periferia, aos quais ajudo.

Você disse que tem uma filha adolescente. Como é a vida pessoal de uma ativista em tempo integral?

Quando a Serena nasceu, em 2003, eu já havia voltado para São Paulo e o pai dela morava em Manaus. Era difícil, ainda mais que a amamentei até os 13 meses. Em 2004, fui para uma ação, em Santarém, quando denunciamos que a produção de soja na Amazônia era associada ao desmatamento. Foi a primeira vez que o tema passou no Jornal Nacional. Mas fomos perseguidos, apanhei. Quando voltei, lembrei o perigo que passei e chorei. Fiquei um mês sem ver Serena para não colocá-la em perigo. Entendi que, por ter uma filha, não poderia mais estar na linha de frente. Continuei a coordenar campanhas, mas não a enfrentar madeireiros.

Depois que me separei, e o pai dela é bem ausente, fui ajudada pela minha mãe e pela Lene, que trabalha em casa até hoje. Mulheres ajudam mulheres e permitem que mulheres façam coisas. Sempre fui sincera com minha filha, nunca escondi o que fazia, com quem trabalhava. Fui obrigada a trabalhar mais para dar conta sozinha, o que tem um custo, mas ela é minha maior parceira. Abri mão do meu lazer e da vida pessoal. Meu tempo era para cuidar dela e do trabalho.

Quando saí da Anistia Internacional, em 2016, tive minhas primeiras férias em dez anos e fiz uma viagem sozinha de um mês. Os relacionamentos também sempre foram difíceis: mulher, ativista e mãe solo assustam. De uns três anos pra cá, faço terapia para o transtorno de ansiedade e mantenho uma rotina que me permite uma hora por dia para mim, para a terapia, exercícios, autocuidado.

Como você está vendo o momento atual no Brasil, com retrocessos em praticamente todas as áreas em que atua?

Acho que ainda vai piorar antes de melhorar. É um ciclo e é extremo, mas é um fenômeno global. Há uma rede de extrema-direita, que envolve supremacia branca, ultracapitalismo, negacionismo climático. É o que junta essa gente.

Acredito que eles ganharam força com o Acordo de Paris, em 2015. Foi a gota d’água, pois junta questões como capitalismo, imigração, segurança alimentar, direitos humanos. É uma reação de gente que realmente se viu ameaçada de perder o poder.

No Brasil, a questão é mais grave, porque temos instituições mais frágeis e o país é muito racista, violento e desigual. Está tudo explodindo ao mesmo tempo. Levará anos para nos reorganizarmos.

Foto: Thiago Mann

Edição: Mônica Nunes

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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