Raoni para o Prêmio Nobel da Paz: Fundação Darcy Ribeiro lança campanha pela indicação do líder indígena Kayapó em 2020

No ano que vem, Raoni Metuktire completa 90 anos. Ele tem dedicado boa parte de sua vida à luta em defesa dos povos indígenas brasileiros, de suas terras e da Amazônia, em especial.

Tornou-se conhecido no mundo todo a partir dos anos 80, quando começou a viajar pelo mundo para tornar a causa indígena conhecida e também em busca de apoio financeiro. Começou suas mobilizações internacionais contra Belo Monte, usina hidrelétrica idealizada no governo militar, quando conheceu Sting, de quem se tornou amigo (estiveram juntos, no Brasil, em maio de 2017). Não conseguiu evitar sua construção – as obras começaram em 2011 -, mas a visita a 17 países rendeu a criação da ONG Rainforest Foundation (mantida pelo músico britânico) e a obtenção de recursos que tornaram possível a demarcação das terras de indigenas Kayapó e de outras etnias, entre os estados de Mato Grosso e Pará.

No ano 2000, voltou a circular pela Europa e o fez com certa frequência para divulgar a urgência de se proteger a Amazônia, sua biodiversidade e os povos da floresta, e também para divulgar projetos de desenvolvimento sustentável na região. Viajou em 2001, 2003, 2009, 2012, 2015, 2017 e, este ano, voltou com campanha forte. Visitou líderes de países como França, Bruxelas e Luxemburgo, entre outros visitou o Papa Francisco e passou pelo Festival de Cannes (foto abaixo), onde ganhou ainda mais visibilidade, muito bem acompanhado por lideranças jovens – para denunciar os ataques do governo Bolsonaro à maior floresta tropical do mundo e seus povos, para denunciar o aumento do desmatamento e para pedir ajuda financeira para proteger o Xingu, sob ameaça constante do agronegócio e de outros invasores: madeireiros, grileiros, mineradores…

Em agosto, esteve novamente com Emmanuel Macron, presidente da França, durante a realização do encontro do G7, para entregar-lhe carta assinada por 58 organizações com pedido para que o grupo das maiores potências econômicas mundiais promova ações contra a destruição da Amazônia.

Por tudo que sua trajetória representa para os povos originários, o Brasil e o mundo, a Fundação Darcy Ribeiro decidiu iniciar uma campanha para indicação de seu nome ao Prêmio Nobel da Paz de 2020, para que seja o primeiro brasileiro a conquistar a honraria e ganhar ainda mais visibilidade no planeta.

Resgatou petição online na Avaaz e divulgou sua intenção nas redes sociais, apoiada em artigo do jornalista Leonel Kaz publicado no jornal O Globo, em 24 de agosto, que reproduzo a seguir.

Prêmio Nobel para um índio

Não só os indígenas estão caindo em desgraça, nós também.

Raoni é um cacique caiapó. Um brasileiro autêntico. Brasileiro é o único gentílico de nome que se assemelha a uma profissão: aquele que carrega o pau-brasil às costas. Hoje, não há mais pau-brasil. Amanhã, pode não haver mais Amazônia.

Uma proposta está sendo avivada, com apoio da Fundação Darcy Ribeiro, para que o Brasil, finalmente, consiga um Nobel. O Nobel da Paz para Raoni, 89 anos, que fez da luta pela Amazônia a razão de ser de sua vida (os saberes da cultura indígena são tão dignos de premiação quanto quaisquer outros!). Em tempos em que o poder público, encarregado de pacificar, busca, ao contrário, a contenda enfurecida, nada mais pertinente.

Venho de uma geração, na década de 1950, em que na escola primária se ensinava que os animais eram divididos em “úteis e nocivos”. Eram tempos do presidente JK em que conviviam a celebração das liberdades e a sanha do “progresso a qualquer preço”. Ao derrubar uma árvore gigante no trajeto da rodovia Belém-Brasília, que então se iniciava, escreveu Juscelino: “Ainda não apareceu um Euclides da Cunha para fixar, em páginas que seriam imortais, a epopeia dessa luta contra a floresta (…) Quando um cedro ou uma maçaranduba gigante parecia irremovível, encaixavam-se bananas de dinamite em fendas, abertas nas raízes, e estrondava-se o tronco. A queda de um desses reis da floresta era um espetáculo inesquecível”.

Pouco mudou. Aliás, muito pouco mudou desde a chegada dos primeiros predadores, em 1500, que dizimaram milhões pela escravidão ou pelas doenças com que os infestaram. Somos um povo feito de gente desfeita, dizia Darcy. Continuamos sendo: à ocupação de terras indígenas com garimpos ilegais, segue-se o desmatamento desenfreado. Isso significa que não apenas os indígenas estão caindo em desgraça, mas nós também — urbanoides leitores de jornais… E por quê?

Os rios voadores resultantes da evapotranspiração de bilhões de árvores da Amazônia é que permitem que a Região Sudeste deste país sobreviva em umidade e chuva. Sem a Amazônia, estaremos liquidados.

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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (destaque) e Renato Soares (segunda e última) e Divulgação (Cannes)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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