Ramba no Santuário dos Elefantes: após viagem de quatro dias, ela curtiu o novo lar, tranquila, e já conheceu Maia e Rana

A foto acima é uma das últimas de Ramba tiradas no Parque Safári Rancágua, no Chile, onde ela ficou desde 2011, quando foi tirada de um circo. Tinha espaço, era super bem tratada, mas vivia sozinha e sofria com o frio intenso porque o local é muito próximo da Cordilheira dos Andes. Mas desde 18 de outubro, sexta-feira passada, ela está finalmente em seu novo lar: o Santuário dos Elefantes (SEB), na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, o único da América Latina.

Leia texto a respeito da criação do Santuário dos Elefantes, em 2016.

A apreensão em relação à viagem era grande. Afinal, não é todo dia que se transporta uma elefanta de 3,6 toneladas em tão longa distância. De avião e por estradas. Mas, apesar do trabalho logístico que deu, tudo correu muito bem e a querida Ramba chegou sã e salva a seu destino de paz e liberdade. Se você quiser saber como tudo aconteceu, leia texto que publiquei na semana passada: Ramba chega ao Brasil.

Do parque ao Santuário, Ramba viajou por quatro dias, dentro de um contêiner (uma caixa especial, de metal, com aberturas para respirar, ser vista), e contou com toda a assistência necessária. O presidente do SEB, Scott Blaiss, e a veterinária Laura Paolillo, foram até Rancágua para acompanhar Ramba, que saiu de carreta do parque na quarta, 16/10, até o aeroporto de Santiago. De lá, o contêiner foi colocado num avião cargueiro (Boeing 747) e seguiu para o aeroporto de Viracopos, em Campinas, São Paulo, onde chegou na sexta, 18/10, cedo: às 6h30.

No aeroporto – que teve sua rotina bastante modificada por presença tão ilustre -, a previsão era de que o traslado do avião até a carreta e as paradas para se certificar de que ela estava bem fossem levar cerca de seis horas, mas todos os envolvidos (30 pessoas) trabalharam para reduzir o tempo em prol do bem estar de Ramba, que tem 53 anos, parte deles vividos sob maus tratos. Tudo foi feito em 4 horas e 50 segundos.

Na operação, além do pessoal da concessionária que administra o terminal, estiveram envolvidos integrantes da Receita Federal, do Ibama, do Ministério da Agricultura e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

E você deve estar se perguntando o que faz o cachorro lindo, ao lado, nesta jornada da Ramba. Pois ele é mais uma figura importante nessa comitiva: o mascotinho Pity, que a equipe do SEB chama de “menino valente” porque também já sofreu abandono, desamor e injustiça. Agora, todo lépido e faceiro, “cruzou parte do país para ajudar a levar Ramba pra casa”.

De Campinas à Chapada dos Guimarães

Depois de instalado o contêiner na carreta, começou a viagem até o Santuário dos Elefantes que fica a 65 km de Cuiabá, capital do estado do Mato Grosso – num comboio escoltado pela Polícia Rodoviária Federal. Durante todo o percurso, Ramba foi acompanhada pelos especialistas e foram feitas algumas paradas para que ela pudesse comer e descansar. A primeira foi em Santa Fé do Sul (no noroeste do estado de SP).

Segundo a equipe do SEB, Ramba come frutas, legumes e verduras. Durante a viagem de Campinas a Mato Grosso, ela ingeriu cerca de 20 fardos de feno, 40 kg de melancia, além de maçãs e beterrabas, entre outros alimentos. E como ela fez cocô e xixi? Simplesmente fez. Na parte de baixo do contêiner, há uma bandeja onde se depositaram suas necessidades fisiológicas. E, por isso, foi necessário ter uma equipe para acompanhar a operação: a bandeja foi retirada de tempos em tempos e limpa com água e produtos de limpeza.

Algumas fazendas, localizadas em pontos estratégicos do percurso (tanto em São Paulo como em Mato Grosso) haviam sido contatadas para o caso de ser necessário parar e abrir o contêiner onde Ramba estava. Mas isso não foi necessário. Enfrentaram sol, calor intenso e chuva e, por isso, a viagem foi um pouco mais longa do que o previsto, mas tudo correu muitíssimo bem, sem percalços.

Ramba foi uma guerreira! Do carregamento do contêiner em Rancágua até a abertura das portas no Santuário, ela ficou em “sua caixa” (que chacoalhou a maior parte do tempo) durante 73 horas, 33 minutos e 50 segundos. Foram percorridos cerca de 3.600 km!

Scott Blais, do SEB, disse ao G1, que durante seus 32 anos de trabalho com elefantes, a vinda de Ramba foi a experiência mais incrível que ele já teve. “Foi uma longa viagem, mas muitas pessoas trabalharam juntas e deram suporte. É mágico ver todos juntos, tantas pessoas envolvidas fazendo a diferença. Podemos mudar a vida de muitos animais e de muitas pessoas quando todos fazem a sua parte”. 

No Santuário, paz e liberdade

Segundo relatou Blais, por causa do cansaço e, também, de insegurança, Ramba demorou cerca de duas horas para sair do contêiner. Mas logo que saiu – já era noite – começou a usufruir do espaço, sozinha. Nele, não faltou sombra, sol e terra para que se banhasse.

O processo de aproximação com as outras elefantas acolhidas pelo SEBMaia, que chegou em 2016 com Guida, que faleceu em junho deste ano , e Rana, em janeiro deste ano – está sendo “gradativo e no tempo de cada uma delas”, como explica a equipe do SEB no Instagram. “O processo é muito orgânico e nada será forçado. Será dado o tempo que cada uma necessita e serão oferecidas oportunidades para interação“.

Vale lembrar que, na verdade, Ramba é a quarta elefante que vai morar no Santuário. Junto com Maia, veio Guida, que tinha 44 anos e faleceu este ano.

Tanto Maia como Rana já visitaram a nova amiga. Mas foi Rana (na foto acima com Ramba) quem demonstrou maior interesse e, por isso, os tratadores abriram os dois recintos para que elas pudessem se aproximar mais. Rana chegou bem perto – elas encostaram os rabos -, mas deixou Ramba à vontade. Parece saber que não adianta “forçar a amizade”.

E a equipe explica: “Ramba parece estar gostando, mas por ser uma nova experiência, pode se sentir um pouco ansiosa”. Ou arredia. Poxa, afinal, em pouco tempo, ela está conhecendo muitas situações novas e – importante! -, isso, após ter vivido muito tempo sozinha. sem contato com outros elefantes. “Pode ser muito animador, mas pode também ser difícil de lidar”.

Veja, a seguir, uma seleção de videos e fotos do Instagram do SEB que revelam os primeiros momentos e os primeiros dias de Ramba no SEB.

Pequeno diário de Ramba

Na noite de sexta-feira, assim que saiu de “sua caixa”, ela já se familiarizou com o novo espaço, em liberdade, e se banhou com terra:

Em seguida, ainda sob os olhares de seus tratadores chilenos, Ramba deitou para descansar. Deve ter se sentido muito aliviada.

Veja o que a equipe do SEB contou sobre o “banho de terra” de Ramba, no primeiro dia: “… apareceu coberta de lama hoje pela manhã. A transformação da pele de Ramba já é visível, através da esfoliação que ela faz com a ajuda das árvores (veja vídeo mais adianta) e dos banhos de lama (fotos no link abaixo). A vida no Santuário traz cura e transformação”. Não é lindo?

No sábado, Ramba passeou sob o sol e depois foi se refrescar à sombra. E aproveitou para se coçar um pouquinho. Isso ajuda a esfoliar a pele, como a equipe do SEB explica, acima:

Neste vídeo, o flagrante da visita de Maia à Ramba, de longe:

Uma soneca à sombra, na beira do lago, que tal?

Agora, Rana é quem visita Ramba, chega perto e compartilha a sombra com ela, respeitando seu jeito. Leia o texto lindo que a equipe do SEB escreveu no post, abaixo:

View this post on Instagram

Todo o processo de apresentação das meninas está sendo gradativo e no tempo de cada uma delas. Rana foi muito paciente e calma com Ramba. Foi também muito amigável, e não tentou forçar o contato com Ramba, aguardando que Ramba estivesse preparada para interagir. Hoje pela manhã, os cuidadores abriram os recintos para que Rana e Ramba pudessem estar juntas no mesmo recinto, e Rana se aproximou para ver Ramba. Rana então se virou de costas para mostrar submissão, para mostrar que ela seria gentil e respeitosa. RAMBA se aproximou, ficou ao lado de Rana, e se tocaram com as trombas. Ramba então decidiu sair lentamente para explorar o segundo recinto. A partir desse momento, o processo é muito orgânico, e nada será forçado. Será dado o tempo que cada uma necessita e lhes serão oferecidas as oportunidades para a interação. É excelente observar que Rana está tendo mais paciência, e que Ramba está sendo cuidadosa. Ramba parece estar gostando da experiência, mas ao mesmo tempo, por ser uma nova experiência, ela pode se sentir um pouco ansiosa. Ramba está tendo diversas experiências novas, após ter vivido tantos anos sozinha e a quantas coisas ela nunca teve acesso, incluindo o contato com outros elefantes. Pode ser muito animador, mas pode também ser difícil de lidar. Maia estava do outro lado da propriedade, muito relaxada e calma, aproveitando o dia! Vamos ver quando ela decidirá se aproximar para ver a novidade!

A post shared by Santuário de Elefantes Brasil (@elefantesbrasil) on

Fontes: Agência Brasil, O Globo, G1, BBC

Fotos: Divulgação SEB/Instagram

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

2 comentários em “Ramba no Santuário dos Elefantes: após viagem de quatro dias, ela curtiu o novo lar, tranquila, e já conheceu Maia e Rana

  • 21 de outubro de 2019 em 2:42 PM
    Permalink

    Excelente reportagem acompanhando o dia a dia da Ramba. Parabéns.
    Apenas um detalhe.
    O Santuário encontra-se em Chapada dos Guimarães – MATO GROSSO
    O equívoco está em dizer que encontra-se em MATO GROSSO DO SUL.

    Resposta
    • 6 de novembro de 2019 em 3:11 PM
      Permalink

      Simone,
      Obrigada pelo comentário e pelo olhar atento.
      O texto foi corrigido no mesmo dia, só faltou responder pra vc. :-)
      Grande abraço,
      Mônica

      Resposta

Deixe uma resposta