Raízes nas (des)cobertas

Raízes nas (des)cobertas

Não era argila, nem era massinha. Era cobertor plantado no chão. Era um artista na modelagem de cobertor. Mesmo nesse calor. Ao acordar ali no cantinho entre as plantas que dividiam a calçada decorada com um bem cuidado  jardim e um não-lugar que é o ponto de ônibus, ajeitava, ajeitava, ajeitava até que ficasse no formato dele mesmo, desse(a) morador(a) de rua, dessa pessoa que faz vínculo com qualquer espaço, que faz vinco para parecer um braço no abraço. Isso é experiência de eras sem cobertor. Agora entre heras e cobertor, fazia questão de fingir eterno sono, talvez para que ninguém roubasse a sua não-cama.

Um vizinho foi quem descobriu a farsa. Foi lá e deu um cutucão na massa inerte e modelada. Como não obteve resposta deixou os já quase costumeiros sanduíche e água no não-chão, na imaginária transparência que começa sussurrando pelo criado-mudo para terminar preferindo urrar por essa estranha e difícil liberdade, alvo de olhares, julgada pelos milhares dos que se consideram não-pares, objeto de estudos, discursos confusos… Ele(a) enterra fusos em sua infinita imobilidade que pulsa uma marginalidade de pacata insubordinação.

Pensei em chamar o artista capixaba Diego Ribeiro e, se ele não quiser vir aqui para Curitiba, vou lá no Museu de Arte da Universidade Federal do Paraná e afano as obras. Brincadeira. Não afano nem dadinho, o docinho de amendoim. É bom explicar tudinho porque tem muita gente que lê tudo ao pé da letra, sem perceber nuances irônicos literários em nada. Continuando. Pensei em afanar as obras feitas nuns trapos para aplicar no que passarei a chamar de não-cobertor. Queria que ele passasse pela mão desse bordador.

É que as pernas, braços e pedaços que ele finca no tecido preenchem a minha necessidade de dar identidade à modelagem. Quanta bobagem. Aonde vai essa curiosidade de precisar desvendar, nominar, saber? E se o ser que se esconde entre cobertores não quiser se mostrar? E se quiser continuar anônimo, sem casa, sem lenço bordado ou documento? Se não quiser ser instrumento da minha mesquinha necessidade de travar conhecimento só com o palpável? Tudo bem.  Em termos.

Será que vou conseguir me dar por vencida, sem argumentar com o o/a modelador/a até agora imaginário(a)? Acho que essas raízes negras que contornam as formas no tecido poderiam amenizar o vazio – será que é melhor nem falar sobre isso com ele (a)? Poderia, talvez, trazer confusão e balançar os alicerces da convicção de que ali está livre das prisões que construímos ao nosso redor? Será que ele(a) me dirá para sumir dali com as raízes, com ou sem matizes? Capaz de  eu levar lição de moral e ter que ouvir que ele(a) já tem raízes e gosta delas assim superficiais, fáceis de arrancar e plantar em outro lugar e sair e voltar. Talvez me diga que sabe lidar com as preocupações, obstruções, violações nuas das ruas. Quem sabe ele(a) mangue de mim… Ou me jogue na cara a facilidade que tem de se manter no insólito pântano, coberto pelas águas, pelas mágoas que querem deixar fugir em qualquer asa…

EXPOSIÇÃO DESENHO: A LINHA DIFUSA
Local
: MUSA – Museu de Arte da UFPR
Endereço: (Prédio Histórico da UFPR – R. XV de Novembro, 695, 1º andar – Curitiba, PR)
Data: até 1o de fevereiro de 2019
Horário: segunda a sexta, das 9h às 18h
Telefone: (41) 3310-2603

Fotos: Letícia Karoline

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Deixe uma resposta