Raizeiras, raizeiros e a Articulação Pacari: saúde com recursos naturais do Cerrado

Raizeiras e raizeiros são povos tradicionais, detentores de conhecimentos transmitidos através de gerações, que cuidam da saúde comunitária por meio de recursos naturais e da espiritualidade. Sabem identificar plantas medicinais e seus ecossistemas de ocorrência, conhecem técnicas sustentáveis para a coleta de plantas, preparo de remédios caseiros e sua indicação para muitos males e doenças. E a Articulação Pacari, assunto do meu post de hoje, tem tudo a ver com isso.

A primeira vez em que folheei o livro Farmacopeia Popular do Cerrado (sobre o qual falarei no próximo post) e tomei contato com o trabalho da Articulação Pacari foi em 2012, durante o Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro dias antes da Rio + 20, a Conferência da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, numa mesa sobre conhecimento indígena e ciência.

A Articulação é uma rede socioambiental formada por organizações comunitárias que praticam medicina tradicional por meio do uso sustentável dos recursos do bioma Cerrado. Essas organizações representam principalmente mulheres agricultoras, extrativistas, assentadas da reforma agrária, indígenas, quilombolas, agentes das pastorais da saúde e da criança.

Nascida em 1999, dentro do campo da Rede Cerrado e da Rede de Plantas Medicinais da América do Sul, a iniciativa partiu de diagnósticos realizados junto a diversos grupos, proporcionando a identificação das potencialidades e dificuldades e a realização de um planejamento coletivo. Hoje, a atuação abrange cerca de 50 organizações de dez regiões dos estados de Minas Gerais, Tocantins, Goiás e Maranhão.

As atividades da Articulação Pacari incluem pesquisa popular, assessoria, intercâmbio, capacitação, produção e registro de conhecimentos, publicação, realização de encontros e participação em espaços de formulação de políticas públicas.

Além de contribuir para a valorização e preservação do conhecimento popular e da biodiversidade, a iniciativa também promove geração de trabalho e renda para as comunidades locais por meio do uso sustentável do Cerrado, desenvolvendo cadeias produtivas dos óleos de macaúba, pequi, rufão, indaiá e gueroba, com a marca Paracari Cerrado Eco Produtivo junto a grupos de mulheres quilombolas e agricultoras familiares.

Os óleos de macaúba, pequi e rufão são produzidos por grupos de agricultoras no Vale do Jequitinhonha (MG). Os de pequi e indaiá são produto do grupo de quilombolas Kalunga, da Comunidade Vão das Almas, em Cavalcante (GO). E o óleo de gueroba vem do grupo de mulheres assentadas da reforma agrária do município de Santa Rita do Novo Destino (GO), que estão também implantando sistemas agroflorestais com o uso da palmeira gueroba consorciado com outras espécies oleaginosas como girassol e gergelim preto.

O projeto conta com apoio do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), por meio do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Avanços e políticas públicas

O uso popular e tradicional de plantas medicinais está relacionado com políticas públicas que, na maioria das vezes, são desarticuladas e não traduzem o valor da prática da medicina tradicional por comunidades. A Articulação Pacari tem promovido formações junto a organizações comunitárias, proporcionando o conhecimento do conteúdo dessas políticas, a elaboração de propostas articuladas entre elas e a identificação de lideranças comunitárias para participação em espaços de representação. O objetivo é conquistar a elaboração de uma legislação especifica para o uso popular e tradicional das plantas medicinais.

Além disso, a Articulação publica o Protocolo Comunitário Biocultural das Raizeiras do Cerrado – Direito consuetudinário de praticar a medicina tradicional, oferecendo um instrumento político que garanta os direitos de quem faz o uso tradicional e sustentável da biodiversidade para a saúde comunitária. Os protocolos comunitários são instrumentos que contêm acordos elaborados por comunidades sobre temas relevantes em seus modos de vida, garantindo direitos fundamentados na tradição, expressos por valores, princípios, regras, cosmovisões e práticas, passados de geração em geração, em movimento contínuo.

Outro ponto importante da atuação da iniciativa é o trabalho para transformar o ofício de raizeira e raizeiro em patrimônio cultural imaterial junto ao IPHAN.

Conheça um pouco mais do ofício no vídeo abaixo. No próximo post, falarei de Farmacopeia Popular do Cerrado e farmacinhas comunitárias.

Foto: Divulgação/Articulação Pacari

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

2 comentários em “Raizeiras, raizeiros e a Articulação Pacari: saúde com recursos naturais do Cerrado

  • 12 de outubro de 2017 em 8:59 AM
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    É MUITO IMPORTANTE ESTA REPORTAGEM. DOS RECURSOS NATURAIS DA MÃE
    NATUREZA.
    JA VIVI ESTA VIDA DO CAMPO, POSSO LHE GARANTIR QUE REALMENTE AS PLANTAS
    TEM UMA COMPOSIÇÃO MEDICINAL MUITO GRANDE. EM TODOS OS BIOMAS EXITEM
    PLANTAS MEDICINAIS, PARA CADA TIPO DE DOENÇA. O QUE MAIS ME IMPRESSIONO
    É UMA RAIZ EM FORMA DE BATA, QUE CURA O VENENO DA MORDIDA DE COBRA.
    É A MAIOR REDE MEDICINAL DO MUNDO. PENA QUE O CAPITALISMO, A IMPEDE DE
    SE DESENVOLVER.

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