Os raios de Edith Derdyk já não iluminam

Os raios de Edith Derdyk já não iluminam

Não. Não se assuste. São raios. Ainda que sejam de um sol às avessas. De sombras enraivecidas que resolveram raiar, mesmo sem iluminar. A vantagem é que não precisam entrar pela janela. Vêm da profundeza de uma superfície qualquer e cortam o ambiente. Rasgam a visão que não acredita nesses raios disfarçados, anunciando o apocalipse, a explosão solar que pode dar no nada frio e escuro. Que medo! Essa brincadeira da artista paulista Edith Derdyk vira um emaranhado de pensamentos daqueles que a face avessa dos fios do tapete adora recolher num puxão para baixo nessa gravidade que nos sustenta a duras penas.

Os raios de Edith Derdyk já não iluminam

Daria para escrever um livro com essa linharada da vida toda. Linhas conturbadas! Melhor que sejam apócrifas para não sofrer a censura da vergonha da história humana. Escrita que salta desse papel. Vergonhosamente ele ainda precisa de muita celulose, água e poluição para ser fabricado.

Os raios de Edith Derdyk já não iluminam

Bobinas enormes de verde massacrado. Reflorestado. Grande vantagem essa floresta de espécie única, nada biodiversa. Papel sulfite, cartão, crepom, marrom. Com som… De serra zunindo na ventania que arranca páginas e arrasta tudo. E nós achando que se não fizermos nada, ainda assim as férias na serra estarão garantidas. Ingenuidade pensar  que o orvalho formado sempre refletirá a manhã límpida, de uma noite sem chuva ácida para borrar as páginas de escrita superficial e patética sobre a brevidade da vida e a importância de aproveitar o presente insustentável.

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Sim, só resta ao ser ansioso viver o agora porque pensar seriamente no que constrói para o futuro ou no que já estragou no passado é tarefa frustrante e deprimente. E mudar de rumo? Parece impossível a única tarefa possível antes que a enciclopédia da vida humana caia sobre nossas cabeças, enquanto pensamos estar protegidos por esse telhado de folhas que despencam em qualquer estação…

# katya

Encontrar a saída nessa cortina rasurada? São muitas. Uma a cada centímetro inspirado, ou menos. Tantas que nos deixam confusos. Com receio de escolher a errada e descobrir que do outro lado só há mesmo o nosso reflexo esfumaçado, redimensionado sem milagres e subterfúgios. Nós e nós. Eu e eu. Você e você. Responsabilidade total sobre as atitudes sem nexo. Responsabilidade sobre a linha que tece o caminho e a forma que ela revelou nessas luzes e  sombras emaranhadas entre raios de densidades e consistências duvidosas que insistem em entrar pelas frestas.

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Rasures-III-1998

Obras: 1. Tramas, 2. Dia Um (Livro cópia), 3. Vento Branco (Foto: Gal Oppido), 4. Fragmento (Foto: Fernanda Frazão), 5. (Foto: Katia Kuwabara), 7. Rasuras

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Um comentário em “Os raios de Edith Derdyk já não iluminam

  • 29 de outubro de 2016 em 1:52 AM
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    Agora ,depois de séculos séculorem,os homens inteligentes que com ajuda de ambientalistas sérios e realmente preocupados com a situação ambiental fazem por onde deter os estragos mas todos os órgãos públicos ,na esfera Federal,Estadual e municipal ,todos os bons políticos'”se é que ainda temos alguns”,também devem atuar se quiserem que nós eleitores nas próximas eleições votemos neles,mas nós temos que ve-los agir e por um vigilante da polícia ambiental!!

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