Quilombolas cultivam 18 espécies de plantas e ajudam a preservar a Mata Atlântica

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É difícil de acreditar, mas, ainda em 2015, em meio à revolução tecnológica e profusão de pessoas hiperconectadas, um grupo de descendentes de ex-escravos, há pouco tempo, vivia em isolamento quase total a apenas 240 quilômetros da cidade de São Paulo. No coração de uma imensa reserva de Mata Atlântica, a comunidade do Nhunguara – situada entre os municípios de Eldorado e Iporanga, no Vale do Ribeira – teve ocupação afrodescendente no contexto do ciclo minerador, em 1700, e abarca 12 quilombos.

Desde então, 100 famílias quilombolas vivem em meio a uma deslumbrante paisagem praticamente intocada, cercados por ar puro e silêncio. Há dois anos, no entanto, um grupo de 11 pessoas começou a cultivar 18 espécies de plantas, metade delas nativa da Mata Atlântica. A ideia, além de ajudar a preservar a floresta, considerada uma das mais devastadas do Brasil, é garantir renda extra para os moradores, que conseguem dinheiro por meio das relações comerciais com agricultores locais e dos programas Bolsa Família e de aposentadoria.

“Ainda não vendemos muito. No último ano, plantamos 25 mil mudas. As vendas renderam mil reais para cada uma das 11 pessoas do grupo e ainda reinvestimos na compra de sementes. Espero que no futuro possamos melhorar, pois temos mais noções de administração para fazer tudo”, conta a produtora rural Ana Maria Marinho, de 58 anos.

O viveiro de plantas, construído com o apoio do programa Microbacias – resultado de uma parceria entre o Banco Mundial e o Governo do Estado de São Paulo -, também conta com uma composteira. Assim, os quilombolas  evitam o uso de adubos químicos e podem se estruturar para produzir e vender cada vez mais mudas.

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A região desempenha um papel crucial na proteção do bioma. Estima-se que, dos 13 mil km² de vegetação de Mata Atlântica restantes no estado de São Paulo, 8,35 km² estão no Vale do Ribeira. Para preservar a mata remanescente, foram colocadas em vigor leis ambientais que protegem 75% do território. Hoje, existem 12 Unidades de Conservação no Vale.

Por enquanto, os quilombolas vendem as plantas para agricultores familiares do Vale do Ribeira. Sem clientela fixa, a comunidade pleiteia o Registro Nacional de Sementes e Mudas, que lhes permitirá comercializar as espécies para pessoas físicas e empresas.

Abaixo, assista ao vídeo produzido pelo programa Microbacias:

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Quilombolas do Nhunguara

As comunidades se formaram no decorrer de 1700, quando uma senhora portuguesa proprietária de terras, sem filhos e perto do fim da vida, doou sua mina de ouro para a igreja e libertou os escravos que trabalhavam para ela.

Vivendo em casas de pau a pique e praticando agricultura em pequena escala, os quilombolas se mantiveram isolados até 1960, quando foi construída uma pista de terra. Antes disso, não havia estradas que conectassem a comunidade a outros lugares.

Os ex-escravos e seus descendentes também não usavam dinheiro; as compras e pagamentos eram realizados por meio da troca de bens e serviços. Ainda hoje, algumas pessoas utilizam esse sistema.

Fotos: Felipe Leal/ISA e Governo do Estado de São Paulo

Marina Maciel

Jornalista, Marina escreve sobre meio ambiente para diversas publicações brasileiras desde 2011. Já colaborou para veículos como Superinteressante, Exame, VEJA, VEJA SP, M de Mulher, Casa Claudia, VIP, Cosmopolitan Brasil, Brasil Post, National Geographic Brasil, INFO e Planeta Sustentável.

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