Quer se motorizar comigo?

 


Se você acompanha as notícias com alguma regularidade, não deve ter escapado da sua atenção que o governo chinês anunciou em setembro sua intenção de substituir progressivamente a frota do país movida a combustíveis fósseis. Como a França e o Reino Unido que pretendem fazer o mesmo até 2040, o plano é alavancar a produção e a venda de automóveis elétricos e híbridos nos próximos anos, mas também deter a infame poluição atmosférica em centros urbanos como Pequim, onde as autoridades locais já aplicam, a exemplo da Política do Filho Único, algo semelhante a uma “política do carro único”. Contudo, apesar de benéfica, esta medida gerou uma outra distorção social curiosa, caso de um mercado negro de casamentos arranjados e temporários.  

A demanda por maridos e esposas de aluguel tem alguma justificativa no lugar-comum quando se fala de China. Vitrine do seu acelerado crescimento econômico, na saúde e na doença, hoje, a capital do país possui 5,6 milhões de carros particulares em suas ruas, mais que o dobro de dez anos atrás. Por isso, na tentativa de limitar um pouco este número, efeito de uma classe média em ascensão, Pequim realiza seis vezes por ano uma concorrida loteria de licenciamento de placas para novos veículos. Teoricamente, é simples. Para concorrer, basta ser habilitado, residir na cidade por mais de um ano e torcer (torcer muito, mesmo). No último sorteio, em junho, 2,8 milhões de moradores disputaram míseras 823 placas.

Há quem tente “desencalhar” da vida não motorizada desde que o sistema foi implementado em 2011, mas os menos pacientes e mais inescrupulosos encontraram uma brecha nas regras: as placas licenciadas podem ser passadas para os cônjuges. Deste modo, virou corriqueiro encontrar gente que dê a mão em casamento pelo preço certo em troca de uma placa. Em redes sociais chinesas, como a Tencent QQ, é fácil encontrar anúncios. “Tudo que precisamos é um registro de casamento e podemos te arranjar uma placa” e “Sem necessidade de loteria. Pague uma vez e tenha o benefício para sempre” são alguns que estão lá.

Em média, o custo do esquema matrimonial é de 90 mil yuans, cerca de R$ 42 mil. É muito mais que o carro nacional na China e chega a ser quase um ano de salário para muitos. Mas se o motorista é supersticioso, e os chineses normalmente são, o valor pode aumentar para até 150 mil yuans. Muitos querem placas com números repetidos por três vezes ou com o número 8 para atrair sorte. Não bastasse, soma-se a isto o gasto com estacionamento, pois Pequim exige dos motoristas também comprovação prévia da existência de uma vaga para o carro. 

Transferida a placa, vendedor e comprador geralmente se divorciam, contribuindo para uma estatística alarmante para o governo. Segundo o Ministério dos Assuntos Civis da China, o país registra uma média de 5 mil divórcios por dia. Assim como os casamentos falsos, separações falsas são uma constante na cultura contemporânea chinesa. Uma lei de 2013, criada para impedir a especulação imobiliária, permite que casais comprem somente uma casa e somente em suas cidades natais. Além disso, de acordo com a polêmica legislação, os casais têm que dar entrada mínima de 50% do valor da propriedade na compra e ainda pagar 20% de impostos caso queiram vender o imóvel para um novo dono.

Fato é que, com ou sem preocupação com a sustentabilidade, o ”amor” de alguma forma está no ar em Pequim. Cerca de 70% do material particulado encontrado na atmosfera da cidade é emitido por veículos motorizados, enquanto os outros 30% são originados em atividades industriais e da construção civil. E, infelizmente, a ironia não para por aí em umas das metrópoles mais congestionadas e poluídas do mundo.

Com uma geração de homens solteiros após décadas de política do filho único, encontrar a alma gêmea exige investimentos em símbolos de status social, caso do carro e da casa próprios. Já imaginou o trabalho em ter que arranjar uma esposa de mentira antes de arranjar uma de verdade? Parece o roteiro para um filme ruim do Adam Sandler, mas pode ser justamente a vida de um chinês comum.

Fotos: Jack Loh/Flickr (destaque) e Safia Osman/Flickr (tráfego em Beijin)

É repórter e escreve sobre sustentabilidade desde 2012.

Julio Lamas

É repórter e escreve sobre sustentabilidade desde 2012.

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