Quem tem medo da bancada ruralista?

A notícia é de umas semanas atrás. João Dória foi ter a mão beijada pela bancada ruralista em Brasília e os próprios deputados deram o tom dessa prosa imperdível no Estadão: “deputados (…) elogiaram a capacidade de “comunicação” do prefeito, uma dificuldade do setor”.

Traduzindo para bom politiquês: os ruralistas foram procurar o marketing de Dória porque a população não tem recebido bem os resultados do seu trabalho, como as manobras para redução de áreas protegidas, o ataque a direitos indígenas e de outras minorias, o lobby para expansão do agronegócio sobre o Cerrado e sobre os rios brasileiros e a defesa do presidente Temer de denúncias de corrupção. E se parece difícil entender como o marketing já decadente do prefeito paulistano vai transformar isso tudo em boa notícia, o que veio a seguir me deixou muito mais intrigado:

“A deputada mineira Raquel Muniz (PSD) pediu para ele mandar água para a região de Montes Claros. “Eu clamo ao senhor, na condição de prefeito de São Paulo, por água para o Norte de Minas Gerais, que enfrenta estiagem”.”

Difícil escolher o que é mais assustador, o erro de timing em não considerar que a única época que sobra água em São Paulo é no verão, quando a cidade fica “submersa”, ou o desconhecimento das causas da seca do norte de Minas.

O que levou a região de Raquel ao colapso hídrico é exatamente a agenda da bancada ruralista, com a depauperação das políticas de ordenamento do solo, notadamente com a ocupação de margens de rios com agropecuária e dos chapadões com monoculturas de eucaliptos, e a inconsequente liberação de empreendimentos de barragem e agricultura irrigada associados ao desmatamento dos últimos fragmentos das inestimáveis formações de mata seca daquela região.

Não custa lembrar que Raquel ficou conhecida nacionalmente quando viu o marido, então prefeito de Montes Claros, ser preso no dia seguinte ao inflamado discurso contra a corrupção que ela proferiu na sessão que cassou a ex-presidente Dilma Rousseff. Consta no processo, dentre outras acusações, a liberação do trabalho de assessores da Secretaria do Meio Ambiente para que atuassem como cabos eleitorais nas campanhas políticas do casal. Nada mais simbólico.

Também é de se estranhar a humildade do deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS) a Dória: “o senhor que é da área da comunicação, olhe o que a Gisele fez, o mundo inteiro está contra nós”. O choro do parlamentar em relação à defesa pública da Amazônia pela top model Gisele Bündchen contrasta com sua imagem altiva em casa, nas áreas agrícolas do sul do Brasil. Lá gritou recentemente, para quem quisesse ouvir, que quilombolas, índios, gays e lésbicas são “tudo aquilo que não presta”.

Outro ruralista gaúcho no encontro, Alceu Moreira, chutou o balde: pediu que Dória enfrentasse os “ambientalóides” e o movimento indígena, que teriam por trás “o interesse dos americanos”. Até onde se tem notícia, Alceu, a Cargill, maior companhia privada dos Estados Unidos, opera um porto em Santarém/PA onde processa e exporta soja transgênica – aquela de tecnologia estrangeira – plantada em áreas desmatadas de Cerrado e Amazônia -, aqueles biomas brasileiros. Tudo isso com total isenção tributária e com 5% dos empregos oferecidos aos moradores locais.

Desconfio que o “interesse dos americanos” é mais alinhado com o dos ruralistas do que com o dos “ambientalóides” que se dedicam a defender a riqueza biológica única de seu país, muitas vezes dando a própria vida em patriotismo, como mostram as estatísticas de assassinato de ambientalistas no Brasil e pelo mundo.

As falas de Alceu, Heinze e Raquel são sintomáticas da desonestidade intelectual e da fragilidade do discurso de nossos autoproclamados líderes ruralistas, incapazes de compreender as premissas mais básicas da atividade que dizem defender – a agropecuária. Blairo Maggi, o Ministro da Agricultura, passou vergonha na conferência do clima de um ano atrás, em Marrakesh, ao afirmar que manter 80% de vegetação nativa na propriedade rural como Reserva Legal seria equivalente a ter um hotel com cem quartos e só poder alugar vinte.

Não sei que hotéis esses caras andam frequentando com o nosso dinheiro, mas assim como a vegetação nativa que dá suporte às atividades econômicas nas propriedade rurais ao produzir água, regular o clima e prover polinização e ciclagem de nutrientes, entre outros serviços ambientais, boa parte do terreno dos hotéis que conheço é dedicada à infraestrutura que dá suporte ao serviço-fim, a.k.a, uma boa hospedagem.

Nesta última quarta-feira, 15/11, o atual governador Pedro Taques manteve o que parece estar se tornando uma tradição mato-grossense de passar vergonha em COPs (Conferências Internacionais da ONU) e apresentou ao mundo um relatório que mostra o estado como liderança na conservação no Brasil. O problema é que a fama de Mato Grosso não ajuda, com seus intermináveis latifúndios transgênicos e conflitos agrários, ainda mais com o documento trazendo na capa a foto de uma monocultura de eucaliptos.

Colocado contra a parede pelos jornalistas que apontavam o óbvio – que plantar eucalipto é exatamente o oposto e conservar florestas -, o governador disparou esta que já nasce como mais uma incrível “pérola ruralista” em sua plena dificuldade de dialogar aliada à ausência de embasamento técnico: “Eucalipto é floresta, captura carbono, produz papel, além o que o Estado é capitalista, não vivemos na Venezuela”.

Outros políticos, até menos engajados com a causa, frequentemente se contaminam pelo lobby poderoso do setor e adotam postura semelhante ao discutir as grandes questões do país, superestimando a importância do agronegócio para os brasileiros e exaltando suas supostas virtudes, incapazes de enxergar a coisa em maior escala.

Há alguns anos, ambientalistas foram ao Congresso para se manifestar contrários à destruição do código florestal pelo governo Dilma e toparam com o senador de oposição e, até aquele momento antipetista, Aloysio Nunes na linha de frente da defesa do governo. O senador bradava que aquelas pessoas – entre as quais os maiores pesquisadores e cientistas do Brasil, que passaram graduação, mestrado, doutorado e vida profissional dentro de florestas -, “nunca viram uma galinha viva”. E dizendo-se revoltado com o fato absurdo de que cidadãos estariam gritando impropérios pelos imaculados corredores do Senado, saiu pelos corredores do Senado gritando impropérios contra os cidadãos.

Aloysio parece não guardar mágoas dos que ele considera ambientalistas de fachada, já que escreveu a eles de coração, no mês passado, defendendo o cumprimento das importantes metas do Acordo de Paris com a expansão do cultivo de etanol – “um grande contribuidor para o desenvolvimento sustentável do Brasil”. Talvez eu fosse muito cretino se desmerecesse a causa do Ministro das Relações Exteriores questionando quantos pés de cana ele plantou na vida, ou qual o conhecimento dele sobre os impactos da cadeia produtora do etanol, enquanto atividade baseada na monocultura canavieira que dizimou a Mata Atlântica no sudeste e nordeste do país. Mas cobrar coerência de lobistas do agronegócio é desconhecer a própria lógica de funcionamento desse ramo, cuja plasticidade discursiva faria corar a senadora Kátia Abreu e sua recente “guinada à esquerda”.

O crítico britânico Christopher Hitchens deixou uma recomendação memorável em seu livro de despedida, a autobiografia Hitch-22: “Chegue o mais perto possível dos supostos mestres e comandantes e descubra de que matérias eles realmente são feitos. (…) Tive a oportunidade de conhecer ministros religiosos e parlamentares de perto (…) e mais uma vez ficar impressionado quão ignorantes e, às vezes, absolutamente idiotas eram as pessoas que diziam comandar o país”.

Quem olha bem de perto a bancada ruralista não enxerga nada além de um amontoado de coronéis oriundos do Brasil profundo, se impondo politicamente pela força e pela chantagem, incapazes de colocar na mesa um projeto claro, amplo e definitivo de desenvolvimento, que seja minimamente sustentável econômica e ambientalmente em longo prazo.

A bancada, hoje, está totalmente distante da luta diária dos pequenos trabalhadores rurais e agricultores familiares que produzem a comida que vai para a mesa dos brasileiros, e de uma parte do setor do agronegócio capaz de compreender a importância dos serviços da natureza na sustentação de suas atividades. Perde, assim, a chance de colocar o Brasil na vanguarda do desenvolvimento sustentável e da produção de alimentos a baixo preço em uma agenda minimamente viável em longo prazo – ao contrário do prognóstico atual – considerando-se a abundância de insumos para a agricultura no país, como solo, água, condições climáticas e serviços ambientais.

É emblemática, por exemplo, a invasão de grandes fazendas por pequenos agricultores ocorrida no interior da Bahia no início do mês. O motivo: o monopólio da água pela agricultura industrial, que tirava dos pequenos a chance de plantar a própria comida.

É hora de reunirmos nossas melhores cabeças e partir para o enfrentamento de ideias, de maneira aberta e franca, contra a maior ameaça à transição a um projeto de país com bases minimamente sustentáveis.

Precisamos mostrar que o Agro não é tech, nem é pop, muito menos carrega o Brasil nas costas, como disse recentemente Blairo Maggi. O Agro dos coronéis do Congresso é que é carregado nas costas pelos brasileiros, que lhes dão 200 bilhões de crédito subsidiado todo ano, 72% da água do país, obras megalomaníacas de infraestrutura e terras infinitas para produzir commodities sobre cemitérios de biodiversidade. E que, como parasitas, ao menor sinal de fraqueza de seu hospedeiro – o Brasil – começam a tradicional chantagem pela flexibilização de leis contra a grilagem, pela liberação de pesticidas sabidamente perigosos, por mais crédito e anistias, por destruição de leis ambientais e áreas protegidas.

Eles são como saúvas em pastagens degradadas da Amazônia, disciplinadamente, dia e noite, cortando e enterrando direitos, políticas públicas, regras e mecanismos de controle.

É preciso mostrar ao cidadão brasileiro que o “interesse americano” mencionado por Alceu está nas multinacionais produtoras de agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes e nos grupos de investidores estrangeiros que financiam a mineração, por exemplo. Os artífices do modelo que transforma o Brasil em um imenso curral exportador de commodities às expensas de suas riquezas naturais.

Patriota de verdade, seja lá o que isso quer dizer, é o brasileiro que defende as florestas, nossa riqueza de animais e plantas, nossas populações tradicionais, nossa abundância de água e nosso grande reservatório potencial de inovação tecnológica. Esses são elementos genuinamente brasileiros, cantados no hino e representados na bandeira, precisamente o que nos distingue de todas as outras nações do mundo, como nossa música ou nosso futebol.

Com o século XXI oxigenando a política socioambiental de quase todos os países do mundo e explicitando as consequências nefastas do modelo agropecuário em curso no Brasil, alguém ainda tem medo da bancada ruralista?

Fotos: Beto Barata/Divulgação Planalto (cerimônia de posse da Frente Parlamentar Agropecuária), Divulgação/Cimi (protesto dos índios em Brasilia) e André Aroeira (mata seca em Jaíba, norte de Minas Gerais)

Biólogo e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG, é especialista em políticas públicas para a conservação da biodiversidade. Trabalha com financiamento e gestão de projetos socioambientais e áreas protegidas, mas sempre acha tempo pra conhecer, descrever, fotografar e observar a vida no Brasil

André Aroeira

Biólogo e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG, é especialista em políticas públicas para a conservação da biodiversidade. Trabalha com financiamento e gestão de projetos socioambientais e áreas protegidas, mas sempre acha tempo pra conhecer, descrever, fotografar e observar a vida no Brasil

3 comentários em “Quem tem medo da bancada ruralista?

  • 17 de novembro de 2017 em 6:29 PM
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    André Aroeira, parabéns pelo seu artigo. Sintetiza bem o momento que estamos vivendo, as questões sociais, ambientais. A maioria tem medo dos ruralistas, sim, quando na atualidade manda mais quem resolve “à bala” e para quem o pêndulo da força e poder pende mais. Quantas vidas – humanas, flora e fauna – se perderam? E quantas ainda se perderão? Infelizmente muitas, até que a sociedade quebre as correntes e decida assumir o que é seu por direito e tenha respeito pela natureza.

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  • 18 de novembro de 2017 em 9:06 AM
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    Somos muitos cidadãos honestos e comprometidos com a natureza com um todo.
    Vc fez um texto bastante pedagógico .
    Temos qie juntar as pessoas porque
    Juntos somos fortes..
    Eles nao passam de uma matilha de LOBOS COVARDES. SE BATERMOS. OS. PÉS , ELES CORREM.

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  • 20 de novembro de 2017 em 10:51 PM
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    Parabéns André ! precisamos sim, trocar conhecimentos (e não a desinformação que tem sido estimulada por estes e outros senhores) e fazer avançar a verdadeira proposta do Brasil biodiverso e tolerante que tanto amamos. Não vamos desistir. Parabéns.

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