Queixadas: famílias comunitárias e nada de monogamia!


Queixadas
costumam ser confundidos (sim, no masculino) com porcos ou javalis. Não são nem estes, nem aqueles, apesar das semelhanças na aparência. Eles são taiassuídeos, um grupo de mamíferos de casco, exclusivo do Novo Mundo, do qual fazem parte apenas três gêneros, cada um com uma única espécie. O nome científico dos queixadas é Tayassu pecari. Os nomes comuns variam conforme a localidade.

Até este ano de 2018, muitas características e comportamentos desses animais eram incógnitas ou suposições: faltavam pesquisas, sobretudo relativas à reprodução e à vida sexual e social. Mas um artigo científico, recém publicado no jornal Mammalian Biology, preencheu grandes lacunas, revelando detalhes da intimidade dos queixadas e de suas famílias. Alguns desses dados já motivaram até um apelido bem-humorado para a espécie: os hippies das matas!

Distribuídos em florestas, cerrados e áreas úmidas, entre o sudeste do México e o norte da Argentina, queixadas alimentam-se de frutas, coquinhos, raízes, invertebrados e até pequenos vertebrados. São mamíferos sociais, vivendo em bandos de 100 indivíduos, em média (chegam ao exagero de 300 indivíduos andando juntos!). Eventualmente, os bandos grandes se subdividem em grupos menores e depois voltam a se reunir, num movimento sazonal associado à disponibilidade de alimentos e água.

Na natureza, mamíferos sociais apresentam certos padrões de comportamento sexual e dispersão de jovens, conforme a relação entre a quantidade de fêmeas e machos adultos associados a um mesmo grupo. É frequente, por exemplo, a dispersão de machos jovens após disputas com o macho adulto mais forte (chamado de alfa), do qual descendem os filhotes do bando.

O macho-alfa se relaciona com um harém de fêmeas e precisa lutar para garantir a exclusividade na descendência. Briga com qualquer um que se aproxime demais, incluindo os próprios filhotes, quando eles atingem a maturidade sexual. E os expulsa do bando para que procurem “sua turma” e formem seus haréns em outro território.

Caso o macho-alfa perca alguma luta, o desafiante assume seu posto e tende a matar os filhotes pequenos do pai vencido, forçando as fêmeas a entrarem no cio e gerarem sua prole. Assim é o padrão de leões, gorilas, cervos, hipopótamos, elefantes-marinhos, amplamente registrado em filmes de natureza.

Nas espécies com tal padrão, é comum existirem diferenças físicas marcantes entre machos e fêmeas – sejam jubas, chifres, caninos desenvolvidos ou porte muito diferente (dimorfismo sexual). No caso dos queixadas, entretanto, é difícil distinguir machos e fêmeas pelo visual: ambos têm o mesmo tamanho, são cobertos de pelos pretos, com manchas claras no queixo. Ambos têm perigosas presas. Mas não as usam para brigas entre pretendentes de alguma dama disponível ou para matar filhotes e expulsar jovens do bando. Usam para quebrar coquinhos e raízes ou para enfrentar ameaças externas, como onças e humanos.

E a dama disponível? Bem, ela transa com quem quiser. Ou com quantos quiser, a julgar pela alta frequência de filhotes de pais diferentes em cada ninhada. A tarefa de cuidar dos pequenos não é só da mãe: é de todo bando! Filhotes já foram flagrados mamando em mães diferentes. Pais se revezam para vigiar “creches” mistas: os seus, os meus, os nossos.

Não há casais monogâmicos, logo os filhotes podem ser de qualquer um, então todas as ninhadas estão seguras, sob os cuidados de todos os adultos do bando! “Sem essa parada” de promover infanticídios, “sem esse bode” de disputar o posto de macho grandão. Todos fazem parte de uma mistura de famílias comunitárias. Todos “irmãos”, tudo “paz e amor” exceto, claro, por eventuais briguinhas normais em qualquer família grande.

Tem mais: se os jovens resolvem “botar o pé na estrada” sem os pais, num dos momentos de subdivisão do bando grande, eles podem ir. Seja qual for o gênero, pois a dispersão vale para os machos e para as fêmeas. Eles e elas podem curtir sua liberdade e ir para o matinho em nova companhia, viver as próprias aventuras. Sem estresse. Voltam quando o bando se reunir novamente. Ou não voltam: saem para integrar outro grupo familiar comunitário, contribuindo, assim, para reduzir o risco de consanguinidade excessiva na comunidade de origem.

Esses e outros detalhes de comportamento foram obtidos no Pantanal, por um grupo de pesquisadores ligados ao Peccary Project, ao Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC (CCNH-UFABC) e ao Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP).

Os estudos incluíram muitas horas de observação direta ou por meio de câmeras com sensores de movimento (camera-traps) e coleta de amostras de sangue e fezes para exames genéticos (testes de paternidade).

Os pesquisadores Dalila Alves Leite, Alexine Keuroghlian, Danilo Aqueu Rufo, Cristina Yumi Miyaki e Cibele Biondo contaram com o apoio logístico das fazendas Campo Lourdes e Santa Emília e da Pousada Araraúna, além do apoio técnico do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Biodiversidade e Computação (NAP BioComp) da USP e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para quem quiser se aprofundar:
– artigo científico sobre reprodução de queixadas (Leite, D.A., et al., Genetic evidence of promiscuity in a mammal without apparent sexual dimorphism, the white-lipped peccary (Tayassu pecari). Mammal. Biol. 218).
– artigo científico sobre dispersão de queixadas (Biondo,C., Keuroghlian, A., Gongora,J., Miyaki, C.Y. 2011. Population genetic structure and dispersal in the white-lipped peccaries (Tayassu pecarifrom the Brazilian Pantanal. Journal of Mammalogy 92, 267-274):

Fotos: Douglas Fernandes (acasalamento e mãe com filhote) e Liana John (bando de queixadas no Pantanal)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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