“Que diferença faz quem é Chico Mendes?” perguntou o ministro do Meio Ambiente em programa de TV

Ontem, 11/2, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura, e causou polêmica. Não tive paciência para assisti-lo, mas, hoje, ao abrir as redes sociais, me deparei com um trecho do programa em que ele dizia essa frase terrível que usei como título deste post. De tão absurda, viralizou rápido. Assisti ao programa interessada em comentar apenas esse trecho, a princípio, mas encontrei, ali, a essência atual da pasta que representa, as prioridades do governo, a forma como está lidando e vai lidar com desmatamento e mudanças climáticas, e suas considerações sobre os crimes da Vale, em Brumadinho e Mariana. Por isso, me alonguei neste texto.

Na apresentação, o programa esqueceu de contar que Salles foi condenado pela justiça paulista por improbidade administrativa e tentativa de favorecer uma mineradora, quando foi secretario do meio ambiente de São Paulo. Mas uma das jornalistas presentes, Vera Magalhães, lembrou da pena.

Também participaram do programa a jornalista Cristina Serra (que escreveu ivro sobre a tragédia de Mariana), Gustavo Cunha Melo, analista de riscos (que, no início, falou tanto quanto o entrevistado), Xico Graziano (que já foi secretário do meio ambiente em São Paulo pelo PSDB, e integra o partido Novo, o mesmo de Salles, desde as últimas eleições; isto o programa também não contou, apresentado-o apenas como académico da FGV) e Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima (OC), uma das organizações que Salles bloqueou no Twitter recentemente.

Agilidade nas licitações e auto-licenciamento

Salles é polido, articulado, bastante técnico, faz questão de dizer isso, aliás. Respondeu com tranqüilidade a todas as perguntas. Quero dizer, quase todas como mostro mais adiante. Argumentou, pareceu muito bem preparado para todas as questões (inclusive para não responde-las e ganhar tempo) que obviamente viriam à baila como sua gestão ambiental em São Paulo, o crime de Brumadinho e o futuro da mineração e das barragens que ainda são um risco à vida de muitos brasileiros… Na maioria de suas respostas, foi evasivo, escorregadio.

Firme ele foi ao defender mais agilidade nas licitações e até no auto-licenciamento, mesmo depois dos recentes crimes ambientais da mineradora Vale em Mariana e em Brumadinho. Ao ser questionado sobre o que o governo estava fazendo para evitar mais tragédias, comentou processos e sistemas e destacou sua indignação a respeito da localização do escritório e do refeitório da Vale no caminho da lama, dizendo que comentou isso com o presidente e diretores da empresa. Só!

E as vítimas de Brumadinho e Mariana? Qual é a resposta do governo para elas, queriam saber os entrevistados? Salles disse, então, que, para Brumadinho, a resposta já foi dada pela presença de autoridades. “O respeito às vítimas é essa resposta rápida, objetiva, a presença do governo em peso. Três ministros estiveram lá no primeiro dia. O próprio presidente foi ao local”, lembrando que não foi assim que Dilma agiu, em Mariana. Poxa, nisso tenho que concordar com ele: a presidenta demorou alguns dias para sobrevoar a região. Mas, voltando a Salles, ficou nisso. Ele não falou como vai punir a empresa, não comentou sobre a indenização das vítimas, nem tão pouco como serão evitadas novas tragédias.

E o pior de tudo isso: a cada frase dita por Salles, parecia que eu estava ouvindo Alckmin, ex-governador de SP, com quem ele trabalhou. Que horror!

“Vamos separar o desmatamento ilegal do legal”

Quando falou sobre desmatamento – Carlos Ritll lembrou que só cresce -, deixou bem claro que, qualquer decisão do governo será tomada para preservar o meio ambiente, mas respeitando o desenvolvimento econômico, “as atividades de exploração, o setor produtivo, sem fazer acobertamento, com o compromisso de combater o desmatamento ilegal”.

Insistiu na necessidade de fazer melhorias no sistema de monitoramento “para separar o desmatamento ilegal do legal, tratar de maneira correta os que estão dentro da lei, sem demonizá-los” – mas, se são corretos, porque seriam demonizados? – “e ser rigorosos com os criminosos” e que há recursos financeiros para isso, que podem vir do Fundo Amazônia. Sim, aquele fundo com dinheiro da Noruega, gerido por uma ONG internacional, uma instituição como as que Bolsonaro e Salles disseram que impediriam de atuar no país. Voltaram atrás porque viram a burrada que fizeram.

De todo modo, o Fundo Amazônia não pode cobrir o monitoramento de todos os biomas do país e o governo só fala em redução orçamentária, arrocho fiscal. O ministro disse estar tranquilo porque recursos existem. Então, tá.

Vale lembrar que, em janeiro, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Salles chamou os sistemas de monitoramento atuais de ineficientes. O Inpe respondeu.

“Trataremos as mudanças climáticas de acordo com os interesses do Brasil”

Desconsideradas por Bolsonaro e por um Ministro das Relações Exteriores negacionista (e bem doido), as mudanças climáticas tiveram destaque na conversa. Rittl, do OC, lembrou que o presidente só entendeu que esse tema é importante porque o Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro, destacou o aquecimento global como um risco grave para a economia. Salles aproveitou para elogiar o chefe: “Isso mostra que o presidente tem postura equilibrada e toma decisões à luz de informações que são levadas a ele, sabe ouvir”. Poxa…

O ministro logo deixou claro que o Brasil fica no Acordo de Paris, mas não vai se curvar a agendas internacionais, nem a exigências do mundo globalizado. Chamou o acordo de “agenda externa” e foi logo corrigido por Vera Magalhães: “Não é externa! Todos os países aderiram de livre e espontânea vontade”. Ignorou a observação e fez questão de destacar que o Brasil não está entre os maiores emissores de gases de efeito estufa: “O país que mais emite é a China, depois vem os Estados Unidos. O Brasil está em décimo lugar com 2%”. Foi corrigido por Rittl: “Em sétimo lugar, com 3%”. E Salles respondeu como convém a um seguidor de Bolsonaro: “É que vocês fazem um pouco de terrorismo, que faz parte do business, as consultorias ganham dinheiro com isso. Mas que seja 3%, Carlos, o fato é que o Brasil está muito longe da China, da Índia e dos Estados Unidos”.

Que visão obtusa! Esses países estão nessa situação justamente porque trilharam o caminho que os empresários brasileiros e a população despreparada desejam: o do consumo cada vez mais elevado. E ainda é preciso levar em conta que o nosso país exporta muito para a China, por exemplo. E, levando em conta a forma como o agronegócio e outros setores querem crescer – apoiados pelo governo -, não vai demorar muito para estarmos colados nesses países nesse ranking.

Salles, então, revelou a essência do seu discurso e da orientação de seu ministério: “Nós temos que atender os interesses do brasileiro, do Brasil e não sermos tolhidos ou pautados por interesses internacionais, de cunho comercial ou porque são reservas de mercado”.

Mas de que brasileiro ele fala? Do empresário? De que Brasil? O povo pode não entender muito sobre mudanças climáticas e como mitigar gases de efeito estufa, mas, em qualquer pesquisa que se faça, ele diz que quer a preservação do meio ambiente. A seguir, travou-se uma pequena discussão sobre as metas do acordo climático, assumidas pelo país:

Vera – Minha pergunta é objetiva: quero saber se vocês vão mudar as metas.
Salles – Não, a gente não vai mudar as metas, embora o acordo preveja alterações.
Rittl – O acordo prevê alterações para cima, metas mais ambiciosas.
Salles – Não! Não é pra cima! Vc pode alterar as metas como quiser. Mas o fato é que vamos lidar com as mudanças climáticas de acordo com os interesses do Brasil.

E, novamente, a pergunta que não quer calar e não foi feita a Salles ontem: de que Brasil ele falava? A resposta veio rápido, meio enviezada, mas veio.

“A agricultura, que é demonizada muitas vezes, por exemplo… o Brasil precisa monetizar e trazer resultados financeiros para o brasileiro”. O ruralista, suponho. E continuou: “O Brasil não vai ser pautada por agendas internacionais que não estejam alinhadas com os interesses do país. Onde houver alinhamento, faremos de bom grado como estamos fazendo. Aquilo que tiver diferença de posicionamento, não vamos fazer. Vamos atender os interesses dos brasileiros, não fazer cortesia com o chapéu dos outros”. Neste momento, ele olhou para Carlos Rittl, do Observatório do Clima. Por que será? E “outros”, quem?

E o ministro voltou a falar dos brasileiros do seu dicionário: “A agricultura é responsável pela maior parte do PIB, que tem feito o Brasil avançar, e vários setores do país – que não são o mercado de consultoria” (e olhou para o Rittl de novo) – “dependem da atitude responsável do governo. Por isso, “a agenda das mudanças climáticas deve ser ajudada pela agenda ambiental urbana e vários outros temas. Não estamos descartando esta contribuição macro”.

“Que diferença faz quem é Chico Mendes, neste momento?”

Quase no final do programa Roda Viva, o jornalista Ricardo Bessa geralmente faz perguntas rápidas e pede para o entrevistado indicar um livro, uma figura inspiradora, um verso… Começou dizendo, então, que soube que o ministro iria para a Amazônia, nesta semana, em sua primeira viagem para conhecer a região (quatro dias para conhecer a Amazônia parece pouco, não?) e, por isso, ele gostaria de saber sobre sua visão a respeito de Chico Mendes. Acompanhe a conversa que se seguiu:

Salles – Não conheço o Chico Mendes, e eu não costumo falar de coisas que eu não conheço.
(repare que ele disse “coisas”, não pessoas)
Salles – Eu escuto histórias de todos os lados. Do lado dos ambientalistas, ligados à esquerda, um enaltecimento do Chico Mendes. Mas as pessoas que são do agro ou da região dizem que ele não era isso que dizem.
Cristina – E o que o pessoal do agro diz para o senhor sobre Chico Mendes?
Salles – Que ele usava os seringueiros pra se beneficiar. Fazia uma manipulação da opinião.
Bessa – Se beneficiar de que? Ele morreu pobre…
Salles – O fato é que isso é irrelevante! Que diferença faz quem é Chico Mendes, neste momento? Eu sou muito pragmático. (aqui ele perdeu a polidez)
Cristina – Ele é um homem reconhecido pela ONU, uma liderança reconhecida pela ONU.
Salles – A ONU reconhece muita gente errada também. A ONU às vezes tem pauta que a gente…
Vera – Precisa ideologizar uma figura como Chico Mendes?
Salles – Não. Eu só estou respondendo uma pergunta.

Que diferença faz quem é Chico Mendes, ministro? Nestes dias, o senhor está visitando um pedacinho da região que esse brasileiro lutou para preservar. Chico deu sua vida para proteger a Amazônia e os povos da floresta, é um ambientalista reconhecido mundialmente, que foi assassinado há 30 anos (em dezembro, Xapuri, sua cidade, ficou em festa para celebrar seu legadopor pessoas que não entendem a importância da floresta. Na verdade, sabemos que ativistas como Chico Mendes não interessam a este governo.

E como o ministro não tinha o que dizer sobre o mais importante líder seringueiro do país, o apresentador pediu que ele indicasse uma personalidade da área ambiental que admire, um cientista… Salles disse que tem vários, apontando o colega de partido, Xico Graziano, que participava do programa, e o ambientalista Fabio Feldmann. “Quando assumi a secretaria do estado, conversei com vários ex-secretários, Xico, Fabio (estaduais), José Goldemberg e Paulo Nogueira Neto (estes últimos de governos federais, numa época em que ainda não havia ministério do meio ambiente)…”.

Livro de cabeceira? “Já li vários livros de meio ambiente e, hoje, estou lendo os técnicos sobre licenciamento ambiental, pagamento por serviços ambientais…”. “Nenhum inspirador?”, perguntou Bessa. “Na área de meio ambiente, são os livros técnicos que eu uso, que têm a ver com o meu trabalho”. Nossa, fiquei com pena, mas passou rápido. 

E uma frase para encerrar o programa? “O Brasil precisa avançar no desenvolvimento econômico e cuidar muito bem do meio ambiente. Temas indissociáveis e que precisam ser cuidados de maneira equivalente”. Será que ele sabe o significado de desenvolvimento sustentável?

Não teve nenhum verso, claro. Falta um pouco de poesia na vida desse homem.

Abaixo, dá pra assistir ao programa, na íntegra.

Foto: Reprodução 

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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