Quão corajoso você é?

Quando nós, adultos, acompanhamos as crianças brincando ao ar livre estamos também nos relacionando com a criança que fomos, com nossos medos de adulto e com nossos impulsos. Quando vivenciamos uma situação que oferece risco, é bastante importante identificar quais medos são nossos, quais medos são das crianças, e o que precisamos fazer para diminuir os riscos da situação.Em muitos casos uma conversa com as crianças já ajuda a diminuir os riscos, assim como compartilhar o cuidado com sua segurança com as crianças. O adulto pode sentir medo, mas também precisa confiar na criança.

Jefferson Reis foi aluno do nosso curso virtual e, recentemente, compartilhou em suas redes sociais uma situação que vivenciou junto com suas filhas. Vejam que experiência riquíssima em aprendizagem:

“Medo !!! Será que é meu ou delas? Esse meu grande desafio.

Máxima de 11°C, quando escutei as duas sorrindo e já em cima do tronco gritando: – Papai posso ir? Minha resposta de bate pronto foi:

– Nãããooo!! (vocês vão cair e não sabem nadar direito).

A frase dentro dos parênteses eu consegui conter por alguns segundos, para chegar à resposta se o medo era meu ou delas. Claro que era meu.

Depois percebi que havia mais crianças à volta, algumas já atravessando o lago por cima do tronco. Nesse momento, também percebi o quão negativo seria para elas, se eu terminasse a frase gritando para todos ouvirem que elas não eram capazes. Em seguida, me dei conta de que não existia risco real. Elas não são um Cesar Cielo na natação, mas sabem nadar no estilo cachorrinho. Se caíssem, era só pular no lago e pegá-las e, com algum choro, ou na melhor das hipóteses, algumas risadas, seguiríamos para um bom banho quente. Ao final, o que ficaria marcado, para elas, seria a coragem por tentar e a certeza de saber que, se algo desse errado, o pai estaria lá quando precisassem.

Perguntei se elas estavam seguras da decisão e responderam juntas e em bom tom um sonoro “Siiiiiiiimmmmm !!!”.

Atravessaram com frio apenas na barriga e chegaram do outro lado com o coração aquecido e muito mais fortes e confiantes em suas capacidades.

A Camila Freitas (mãe), muito corajosa, ficou escondida atrás de um arbusto para não ver a travessia. Cada um enfrentando seus medos da melhor forma. No final, todos saíram mais fortes e assim seguimos.

Essa passagem me fez refletir sobre quantas vezes eu não consegui conter aquela frase dos parênteses e abalei a coragem de meus filhos, passando pra eles um medo que era meu. Então pare e pense: Quão corajoso você é? Quando os filhos chegam, eles trazem essa pergunta naturalmente”.

Precisamos ter coragem para enfrentar situações de risco, entretanto, mais coragem ainda para reconhecer os nossos medos e superá-los. Como fez Jefferson.


Foto: arquivo pessoal Jefferson Reis

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

2 comentários em “Quão corajoso você é?

  • 16 de agosto de 2018 em 6:40 PM
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    Importante ter coragem, mas não menos importante ter prudência. Jovens, por natureza, costumam ser temerários, arrojados e impulsivos, super confiantes em si, ousados e audazes, o que os tem levado a ocorrências de risco, muitas vezes, fatal. Devem ser incentivados a buscar seus ideais, enfrentando situações difíceis sem esmorecimento mas conscientes de suas limitações, em benefício próprio e daqueles que os amam porque o medo nem sempre é valor negativo, quando reprime impulsos e precipitações. A velocidade de um carro deve ser controlada pelo freio, ainda que a estrada pareça ser apenas dele.

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  • 24 de agosto de 2018 em 10:46 AM
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    Sandra, gostei muito do seu comentário, pra mim faz total sentido. Acho que o grande desafio é encontrar esse equilíbrio entre as reais limitações a serem vencidas e os impulsos precipitados que podem colocá-los em risco. Essa busca é o mais legal, é onde mais aprendo sobre eles, mas principalmente sobre mim. Obrigado por compartilhar seu comentário.

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