Quantos brasileiros mais serão intoxicados por agrotóxicos pulverizados perto de suas casas e escolas?


Quantos brasileiros mais serão intoxicados por agrotóxicos pulverizados perto de suas casas e escolas?

A pergunta acima faz parte do vídeo (que você assiste ao final deste texto) que acompanha o relatório lançado hoje (20/07) pela Human Rights Watch – “Você não quer mais respirar veneno”.

De julho de 2017 a abril de 2018, a organização entrevistou 73 pessoas afetadas pela utilização de agrotóxicos em sete zonas rurais, nas cinco regiões do Brasil, incluindo comunidades indígenas e quilombolas e escolas rurais.

Segundo o relatório, em todos estes lugares os entrevistados descreveram sintomas relacionados com a intoxicação aguda por agrotóxicos após verem pulverização dos mesmos nas proximidades ou sentirem o cheiro deles recentemente aplicados em plantações próximas. Os sintomas incluíram sudorese, frequência cardíaca elevada e vômitos, além de náusea, dor de cabeça e tontura.

O estudo da Human Rights Watch denuncia as falhas em nosso país para proteger as populações de comunidades rurais expostas à dispersão de pesticidas.

O relatório começa citando a tragédia, ocorrida em maio de 2013, quando um avião pulverizou agrotóxicos sobre a escola rural São José do Pontal, localizada em meio a plantações de milho e soja em Rio Verde, em Goiás. Na época, cerca de 90 pessoas – a maioria delas crianças que estudam na escola – foram imediatamente hospitalizadas.

Apesar do acidente ter chocado o país, muito pouco foi feito para acabar com este tipo de situação nestes últimos cinco anos.

“Me sinto impotente contra a pulverização aérea de agrotóxicos. Fizemos várias ocorrências no quartel, delegacia (de polícia civil). Ninguém resolve, não existe justiça”, contou Bernardo, de 30 e poucos anos, à equipe do Human Rights Watch. Morador de uma comunidade quilombola, em Minas Gerais. Assim como ele, outras 60 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, vivem na mesma situação.

A entidade também esteve em uma escola rural, no Mato Grosso. Há plantações bem ao lado dela, com as salas de aula mais próximas a aproximadamente 15 metros dos campos. Uma das 100 alunas da escola revela o que aconteceu quando sofreu uma intoxicação aguda em 2017: “Comecei a vomitar várias vezes, até que vomitei tudo que tinha no estômago e continuei com ânsia. As aulas foram canceladas para todo mundo e eu fui para casa”.

Famílias que sofrem com os agrotóxicos se sentem intimidadas e têm medo de denunciar 

A Human Rights Watch ressalta que o relatório investigou somente casos de intoxicação aguda, mas que “a exposição repetida a doses baixas por um período prolongado – também é uma séria preocupação de saúde pública. A exposição crônica a agrotóxicos é associada à infertilidade, a impactos negativos no desenvolvimento fetal, ao câncer e a outros efeitos graves à saúde – e mulheres grávidas, crianças e outras pessoas vulneráveis podem enfrentar riscos maiores”. Mostramos há pouco tempo, em outra reportagem, o ensaio do fotógrafo argentino que revela o devastador “custo humano” dos agrotóxicos (leia a matéria completa aqui).

Veneno no prato e no ar

O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Por ano, o setor comercializa algo em torno de US$ 10 bilhões. Em 2014, a estimativa era de que cerca de 7,5 quilos de pesticidas foram usados, por pessoa, no país. Entre as dez substâncias mais utilizadas por aqui, quatro são proibidas na Europa.

Se já não fosse o suficiente, há um projeto de lei tramitando em Brasília, o chamada #PLdoVeneno, que quer facilitar ainda mais o registro dos agrotóxicos. A sociedade civil está mobilizada para tentar barrar este absurdo, mas no final de junho, os integrantes da Comissão Especial que julga o PL 6299/2002 se reuniram a portas fechadas e aprovaram o texto, que será agora discutido no plenário.

O relatório “Você não quer mais respirar veneno” faz uma série de recomendações a órgãos públicos – Congresso Nacional, Ministérios da Saúde, Meio Ambiente, Agricultura, Direitos Humanos, dentre outros -, para tentar dar uma basta nesta situação inaceitável, em que brasileiros são tratados com completo descaso pela indústria agropecuária e pelo Estado, que teria a obrigação constitucional de protegê-los.

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Fotos: divulgação Human Rights Watch 

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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