Quanto vale preservar a água limpa de Bonito?


Ouço muita gente falar, achando graça, que grande parte das crianças de hoje não sabe que o leite vem da vaca. Os pequenos acreditam que ele vem, de fato, da caixinha que é encontrada na prateleira do supermercado. Passado o momento de ternura movido pela inocência infantil, um pensamento sempre invade a minha mente: os adultos que riem dessas crianças são, em geral, os mesmos que agem como se a água das suas casas viesse das torneiras!

Vale lembrar que o caminho que a água percorre antes de surgir nas nossas pias e chuveiros é longo e, muitas vezes, sofrido. A crise hídrica, que mostrou sua cara com mais intensidade no sudeste e sul do Brasil em 2014, na verdade, nasceu décadas antes. Por conta da ocupação desordenada de áreas de mananciais, do desmatamento de matas ciliares e do despejo de rejeitos nos corpos d’água, pouco a pouco, importantes rios estão adoecendo.

Nesse contexto, as unidades de conservação (entre elas, os parques florestas nacionais, estações ecológicas, etc) ocupam, cada vez mais, papel importante, não só na proteção do equilíbrio no funcionamento dos ecossistemas, mas também na proteção do bolso da sociedade. Não existe mágica: para obter água em maior qualidade e quantidade possível, é necessário, simplesmente, não fazer nada. Manter áreas de mananciais protegidas sempre será a maneira mais barata de obter água para consumo humano. Qualquer realidade diferente dessa implica em uma conta mais alta a ser paga.


O problema é que, do ponto de vista da economia, “não fazer nada” tem custo: o custo de oportunidade, que é, simplesmente, aquilo que deixamos de ganhar quando fazemos uma opção. Quando escolhemos passar as férias na praia, por exemplo, assumimos o custo de oportunidade de não desfrutar os benefícios de ir para as montanhas. E, quando criamos unidades de conservação, assumimos o custo de oportunidade de não obter mais as receitas de usos do solo incompatíveis, como agricultura, pecuária ou ocupação imobiliária.

É natural que haja conflito onde a conservação dos recursos naturais demanda a redução ou, mesmo, o impedimento às atividades econômicas. As pessoas costumam entender muito claramente o que significa colocar mais números no seu saldo bancário, mas sabem muito pouco sobre como a manutenção da biodiversidade afeta a sua vida, por exemplo. Esse falso embate entre desenvolvimento e conservação, em geral, vira uma guerra de forças que não se entendem, simplesmente porque seus argumentos são expostos em unidades de medida diferentes. O pessoal da geração de renda não consegue atribuir valor para a conservação da natureza, e vice-versa.

Mas o que acontece quando é possível expressar a importância da conservação, literalmente, na mesma moeda? Como as escolhas ocorrem quando a água, além de surgir das torneiras, também é a principal fonte de renda de uma sociedade?

Ao mencionar Bonito, no Mato Grosso do Sul, não é preciso outra informação para que nos venha à mente a imagem de rios com águas absurdamente cristalinas, povoados por fauna e flora aquáticas incríveis.


Esse município e seu entorno proporcionam um dos raros casos no Brasil, conservação e desenvolvimento econômico estão intimamente associados, impulsionados pelo motor do turismo de natureza. Como se não bastasse, essa receita de sucesso tem, como ingredientes, a participação do poder público, empresários, prestadores de serviço, sociedade civil e proprietários de terras com atrativos turísticos. Era de se esperar que, finalmente, todos esses elementos encontrassem um lugar para viverem felizes para sempre. Mas não é exatamente esse o caso.

Há alguns anos, tramitam em Bonito iniciativas que visam a criação de unidades de conservação para proteger, em especial, duas áreas de banhados. Apesar do pequeno apelo paisagístico, se comparados aos singulares rios, cachoeiras e cavernas da região, esses locais, além do habitat para espécies raras, abrigam nascentes do Rio Formoso e do Rio da Prata. Vale lembrar que a maior parte dos atrativos naturais de Bonito está localizada na bacia do Rio Formoso, incluindo o Balneário Municipal que, apenas no ano de 2015, recebeu mais de 71 mil visitantes. O Rio da Prata, por sua vez, abriga um dos principais atrativos da região que, só com ingressos, tem faturamento estimado em, pelo menos, R$ 3,8 milhões no mesmo período.

Mas, mesmo em uma realidade onde a qualidade da água desses rios, em grande parte mantida pelos banhados, tem tanta importância para a economia local, o processo de criação das áreas protegidas se tornou um grande embate jurídico. E, aí, entra uma outra característica cruel desse delicado equilíbrio econômico da proteção da natureza: enquanto os benefícios de uma unidade de conservação são distribuídos coletivamente em pequenas porções, seus custos de oportunidade costumam ter endereço certo. E quando um pequeno grupo é afetado de forma intensa (mesmo que em uma escala menor, se comparado à sociedade), em geral há uma assimetria na intensidade da reação.


E como a economia – tantas (e, frequentemente, infundadas) vezes usada como justificativa para iniciativas que degradam o meio ambiente – poderia ser utilizada para orientar essa tomada de decisão?

Se essas áreas de banhado que, juntas, somam 5.548 ha, não forem protegidas, seu uso alternativo será, supostamente, para a produção agropecuária. Ocorre que a agropecuária do município responde por 25% do seu PIB total (dados de 2013), enquanto os serviços, movidos sobretudo pelo turismo, respondem por 39%. Se, hipoteticamente, atribuirmos aos banhados a mesma rentabilidade das demais áreas do município, em termos de quantos Reais elas podem gerar por cada hectare produtivo (com base em valores atualizados do último censo agropecuário), chegamos a uma capacidade de impacto no PIB de 0,19%.

Ou seja, do ponto de vista do município, vale a pena colocar em risco 39% do seu PIB quando o custo de oportunidade do caminho alternativo teria capacidade de, no máximo, acrescentar 0,19% de ganho na economia? Fica claro que, sob uma perspectiva econômica, a pergunta a ser respondida no caso da criação dessas unidades de conservação, não é “o que fazer”, mas “como fazer”.

Cabe, agora, aos atores envolvidos a capacidade de negociar um caminho onde a sociedade local, como um todo, permaneça ganhando. De fato, a maior necessidade, talvez, seja equalizar o aspecto distributivo dos custos e benefícios. A criação de uma unidade de conservação com categoria que não necessite desapropriação das terras, como uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) ou Refúgio de Vida Silvestre, pode ser um bom começo. A criação de um sistema de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), onde os beneficiários da conservação compensam os proprietários de terras que “produzem” a tão famosa água cristalina da região, também é uma opção já avaliada e com boas chances de sucesso. Sem contar que, apenas pelo aumento de suas áreas protegidas, o município já teria um incremento nas suas receitas com ICMS Ecológico que, em 2010, já rendia aos cofres públicos o equivalente a R$ 4,2 milhões (valores atualizados para 10/2016).

Enfim, a crise hídrica está batendo na nossa porta e já não pode mais ser ignorada. O uso da terra no Brasil precisa começar a considerar, além das receitas privadas, seu custo social. E, cada vez mais, precisamos começar a tomar decisões com base em boa informação. Do contrário, corremos o risco de continuar a aceitar passivamente a degradação da nossa natureza, mesmo nos lugares onde a água tem mais valor.

Este artigo foi publicado originalmente em 12/6/2017, no Blog do Planeta 

Marcos Amend é biólogo e desenvolve estudos e projetos na área de Economia da Natureza. Aqui, no Conexão Planeta, integra o blog coletivo Por Trás das Câmeras, onde revela seu talento como fotógrafo (as imagens que ilustram este post são dele) e ótimo contador de histórias.

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Um comentário em “Quanto vale preservar a água limpa de Bonito?

  • 22 de julho de 2017 em 8:26 AM
    Permalink

    QUE BELO COMENTÁRIO ! PENA QUE A NOSSA SOCIEDADE NÃO AS LÊ. E NEM SE PREOCUPA EM AJUDAR NA CONSERVAÇÃO, ESTAMOS VENDO O NOSSO PLANETA MORRER
    E PRATICAMENTE NÃO ESTAMOS FAZENDO NADA PARA REDUZIR. ESTE IMPACTO, A SOCIEDADE HOJE SÓ SE PREOCUPA COM O SALDO BANCÁRIO . SE ESQUECE QUE A NOSSA SOBREVIVÊNCIA DEPENDE DESTE EQUILIBRIO ..
    EM BREVE ENVIAREI AO CONEXÃO PLANETE, UM PROJETO QUE ESTOU ELABORANDO, EM
    BUSCA DE MELHORIA DO MEIO AMBIENTE. JUNTO A SOCIEDADE. ” PROJETO AMIGOS DA FLORESTA”. E GOSTARIA DE CONTAR COM A COLABORAÇÃO NA DIVULGAÇÃO DELE, JUNTO AO CONEXÃO PLANETA. ABÇ. ALDOMAR.

    Resposta

Deixe uma resposta