Quando o sonho de criança se realiza na vida adulta

A vontade de fotografar a natureza nasceu na infância, em meio à natureza do Rio de Janeiro, na Ilha de Itacuruçá. Pequeno, João Vianna pescava com os caiçaras, fazia artesanato, cultivava alimentos no próprio quintal. Na cidade, as memórias mais marcantes remetem aos tempos das velhas e pesadas enciclopédias, quando ele ficava horas olhando fotografias de vários cantinhos do planeta. Uma combinação boa que, em um coração de criança, definiu o propósito de sua alma, que hoje une elementos como fotografia, natureza e contemplação.

Ele se considera fotógrafo amador. “Fotografo por amor”. A curiosidade pela fotografia e o encantamento com a natureza o levou a morar em vários lugares pelo Brasil e a registrar em imagens o carinho que sentia no peito ao olhar para céus, mares, pássaros, praias e… pessoas.

Também na infância, talvez pela vida em comunidade, ele adorava dizer que queria ser indígena. Fazia muito mais sentido para ele. E, junto com esse desejo, nasceu um sonho: conhecer a Amazônia. “Um dia, fui sozinho para Manaus, no Amazonas. Conheci um caboclo e fiquei na casa dele, um flutuante à beira de um igarapé. Lembro do primeiro passeio de barco que fiz para dentro da floresta alagada. Foi muito emocionante sentir a vibração e a energia daquele lugar. Chorei. Foi bem forte. Pude sentir a vida pulsando com bastante intensidade”, conta.

Os dias na comunidade ribeirinha aguçou a vontade de conviver com indígenas. Os anos se passaram, João conheceu o amor de sua vida, ajudou a fundar a ecovila Piracanga na Península de Maraú, na Bahia, teve um filho lindo até que, um dia, um indígena do Xingu, da aldeia Kamaiurá, decidiu visitar a ecovila. “Eu o observava e sentia muita leveza em seu ser. Tinha a impressão de que ele não estava pensando. Estava apenas no estado de presença”.

O sonho do garoto indígena era conhecer o mar. E o de João era conhecer uma aldeia. Até que o convite veio: “Quer ficar na minha aldeia durante o Kuarup?” – trata-se de um dos rituais mais importantes dos povos do Xingu e acontece todos os anos para honrar os mortos. Imagina só o que aconteceu.

Um aviãozão e um aviãozinho depois (são dois voos para chegar ao local), duas emoções bateram forte. A primeira foi ver a floresta toda recortada, queimada, machucada, desde lá do alto. A segunda foi finalmente pousar.

O maior desafio dos 13 dias na aldeia aconteceu na chegada, em uma conversa só entre homens, com a presença da liderança. Queriam saber por que João havia decidido visitá-los. “Me senti um invasor, como se não devesse estar ali”. Foi então que, em uma atitude de entrega e humildade, com o coração em dor, ele fez um pedido. “Perdão por tudo o que minha raça branca tem feito de mal para vocês ao longo de tantos anos”. O perdão foi logo aceito. Paz.

Uma das coisas que mais chamaram sua atenção foi a maneira como os Kamaiurá se relacionam com a terra. “Se curvam a ela em várias situações, chamam seus ancestrais batendo os pés no chão, cultivam alimentos, tudo com muita simplicidade”. E, naqueles instantes, ele se lembrou do garoto Takumã em total estado de presença, no jardim de sua casa, lá em Piracanga. “Eles não têm pré-ocupações. Vivem com uma presença e uma calma que eu nunca havia experimentado”. João chama isso de “viver a espiritualidade no dia a dia”.

“A avó de Takumã me chamava de neto, isso era muito emocionante. Fui muito bem recebido. Me senti em família… me senti em família”, conta, com voz embargada.

João, o fotógrafo que registra imagens da natureza por amor por causa das fotos que primeiro conheceu por enciclopédias foi acolhido pelo povo da Terra como se também fosse um indígena, conforme um dia pediu seu coração de menino. A Amazônia e os povos da floresta nunca sairão de dentro dele.

Fotos: João Vianna

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

Karina Miotto

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

Deixe uma resposta