Quando as crianças começaram a ter medo de borboletas?

borboletas

Entre as minhas lembranças mais felizes de infância estão aquelas passadas no quintal da casa da minha avó materna. Passávamos longas horas – eu, meus primos, minhas amigas – em meio à folhas, galhos, árvores e insetos. Até hoje me lembro da minha excitação nas brincadeiras noturnas, quando caçamos vagalumes em vidros para ver seu brilho bem de perto e depois os soltávamos novamente. Ainda consigo sentir o cheiro deles e da grama molhada após a chuva.

Algumas décadas depois, agora vejo meus filhos tendo uma infância completamente diferente da minha. Não é por culpa deles ou da atual geração de pais (ok, talvez um pouco de ambos), mas o mundo mudou. Muitos de nós vivemos verticalmente hoje. Em prédios, não há quintais, muito menos insetos e verde. Algumas das crianças de hoje em dia têm muito pouco contato com a natureza, por mais que nos esforcemos em levá-las para parques ou em viagens para locais mais distantes dos centros urbanos nas férias.

Recentemente convidei meus filhos para ver uma exposição de borboletas no Museu de História Natural, em Londres*. Adoro borboletas! Não sei bem qual a razão. Se são as cores ou  o voo descompromissado. São simplesmente lindas!

A exposição que está em cartaz, na capital britânica, chama-se “Sensational Butterflies” e tem como objetivo a educação ambiental. Em uma estufa climatizada com temperatura e plantas dos trópicos, cententas de espécies de borboletas e mariposas voam livremente. Foram trazidas de lugares como África, América do Sul, América do Norte e Ásia. Ao longo do caminho, textos informam curiosidades e fatos sobre estes incríveis insetos.

Ao entrar na exposição, fico deslumbrada. Mas o que realmente me surpreende é a reação dos meus filhos. O mais velho não mostra medo exatamente, mas uma certa tensão ou desconforto ao estar tão próximo das borboletas. Ele move o corpo discretamente, quando uma passa muito perto dele.

O mais novo, em certo momento, solta um grito baixinho. Pergunto o que foi. Ele responde que só se assustou um pouco quando uma borboleta passou muito perto da cabeça dele. Depois, me pede desculpas (ele pede desculpas por tudo e acho que ficou sem graça diante da mãe que escreve justamente sobre meio ambiente, animais e sustentabilidade). 

Nunca imaginei que veria crianças com medo de borboletas. Muito menos meus filhos. Me bate uma certa tristeza em pensar em que momento nos deixamos distanciar tanto assim da natureza. Mas seguimos em frente e aos poucos, os dois começam a relaxar. Mostro aos dois as cores e tento ler junto com eles todas as informações. Paramos para ver os casulos e o mais novo fica empolgadíssimo ao perceber que uma nova borboleta está saindo de um deles.

Logo adiante, João Eduardo, o mais velho, me chama. Uma mariposa está pousada em seu casaco. No rosto dele, vejo um esboço de sorriso, que para mim, já valeu o passeio.

Juntos, aprendemos a diferença entre mariposas e borboletas. Você sabe qual é? Eu não tinha a mínima ideia. Apesar da maioria das pessoas achar que mariposas são marrons e sem graça (assim como eu, tenho que admitir), elas podem ser coloridas e de tamanhos variados. A maneira para diferenciá-las é através das antenas. Geralmente, mariposas possuem antenas que parecem como minúsculas asas e borboletas antenas com uma pequena bolinha na extremidade (se você não entendeu a explicação, assista o vídeo ao final deste post).

Borboletas e a biodiversidade

Biólogos afirmam que as borboletas existem em nosso planeta há aproximadamente 50 milhões de anos. Elementos importantes da biodiversidade, mariposas e borboletas exercem um importante papel na cadeia alimentar. Além disso, são indicadores da saúde de um ecossistema: onde estes insetos estão presentes, há equilíbrio ambiental.

Infelizmente, no mundo todo, o número de borboletas vem caindo. Desmatamento, aumento das áreas de cultivo agrícola e pecuária e o uso de pesticidas são apontados como algumas das causas para o desaparecimento delas.

Assim como as abelhas, as borboletas são polinizadoras. Para atraí-las, o ideal é ter muitas flores no jardim. Ou na sacada. Não importa. O importante é criar um ambiente que atraia estas lindas voadoras. E que nossas crianças voltem a se sentir maravilhadas ao lado delas.

 

*A exposição Sensational Butterflies está em cartaz no Museu de História Natural de Londres e vai até o dia 11/09.

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Fotos: domínio público/pixabay (abertura) e arquivo pessoal

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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