Quando as crianças andam a pé pela cidade, o benefício é para todos

Nós, adultos, pertencemos a uma geração que brincou muito na rua com os amigos durante a infância. A rua era lugar de convívio e de bons encontros, e essas memórias são sempre associadas a uma infância de qualidade. Infelizmente, as crianças de hoje têm uma experiência inversa, na qual a rua é um ambiente hostil à infância, sinônimo de ameaça à vida, seja pelo tráfego intenso de veículos motorizados ou pela violência urbana.

A desigualdade social também configura relações diferentes com a rua: crianças mais pobres costumam ter mais contato com a rua, enquanto crianças abastadas estão mais confinadas e dependentes do carro para todos os seus deslocamentos. No Brasil, faltam dados sobre a quantidade de crianças que se deslocam a pé, mas é fácil afirmar que elas caminham cada vez menos se comparadas, por exemplo, aos nossos pais, que iam a pé para a escola.

O estilo de vida mais sedentário das famílias contemporâneas influencia as crianças a passarem mais de 90% do seu tempo em ambientes fechados. Honrar a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), para que as crianças pratiquem 60 minutos de atividades físicas por dia, é um desafio e tanto no contexto urbano. Nossas crianças passam, em média, 5h35 em frente à TV (Ibope Media, 2014) e o impacto na saúde é grande: 30% das crianças brasileiras já apresentam sobrepeso (IBGE, 2010).

Considerando que 87% da população brasileira vivem em contextos urbanos, repensar as cidades é uma oportunidade. Como trazer as crianças de volta para a rua e reintegrar o brincar na malha urbana? Como deixar a cidade mais atraente para que as crianças circulem por ela com autonomia e segurança, e tenham contato com a natureza?

Segundo Tim Gill, autor e consultor pela Rethinking Childhood, se queremos que as crianças cresçam saudáveis, vivenciando a conexão com a cidade, sendo capazes de circular com autonomia e confiança, não vai ser passando todo o seu tempo em construções encaixotadas que elas vão conseguir.

É importante estabelecer um olhar não apenas para os lugares especificamente construídos para as crianças, como parques e praças, mas aos diferentes trajetos por elas percorridos. Como diz Udo Lange, diretor do Bagage, uma oficina de ideias pedagógicas que planeja e constrói espaços para o brincar livre em Freiburg, na Alemanha, “a gente não precisa só de parques, precisamos de uma cidade inteira para brincar”.

A cidade de Freiburg é um bom exemplo de como o planejamento urbano pode  ajudar a trazer as crianças de volta para as ruas da cidade. Ruas designadas ao brincar, redução do limite de velocidade dos veículos para 30km/h, prioridade para o uso de bicicletas, valorização dos rios e uso das áreas verdes para ações educativas são alguns exemplos de medidas de baixo custo adotadas.

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Já falei sobre isso, aqui no Conexão Planeta: Como faz para trazer as crianças de volta para as ruas da cidade? Assim como Raquel Franzim, também do Alana – Sem risco, sem diversão – e o educador Guilherme Blautgh, que também viajou com a gente para essa cidade alemã e escreveu suas impressões: 20 dias contemplando as crianças na natureza
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Um bom ponto de partida é pensar em ações pelos bairros. Nós não usamos a cidade inteira, nos atemos a trajetos de interesse da nossa rotina semanal. Pela perspectiva da criança, este recorte é ainda menor. Por passarem grande parte do seu tempo na escola, os momentos de usufruto da cidade se limitam ao caminho entre a casa e a escola.

A criança que vai a pé para a escola tem a oportunidade de descobrir a cidade onde mora. Além de ser importante para sua saúde, pela prática de exercícios, ela conhece, toca e cheira a cidade, criando um senso de pertencimento ao território em que vive.

Pesquisas que investigam a percepção das crianças sobre o que é significativo para elas em seus percursos rotineiros, através de desenhos, constatam que nos bairros de maior dependência de automóveis são poucas as referências a elementos naturais e da comunidade e abundantes as referências à vias de ligação entre os trajetos realizados por automóveis. O isolamento do entorno passa a ser não só físico, mas mental e afetivo.

Já em bairros em que é possível se deslocar a pé ou de bicicleta, os desenhos apresentam uma rede de pessoas e lugares que permeiam os caminhos, trazendo uma imagem mais humana da cidade.

No filme Caminhando com Tim Tim, dirigido por Genifer Gerhardt (você pode assistí-lo no final deste post), o caminho do pequeno Valentim até a casa da avó é muito mais do que percorrer duas quadras. É a possibilidade de interagir e descobrir a natureza do seu entorno: brincar com pedrinhas, árvores, e poças d´água para se refrescar. É também a oportunidade para encontros valorosos, como com o Sr. João, morador de rua, que quando Tim Tim vê dormindo, por empatia, passa sussurrando e falando baixinho em respeito ao sono do amigo.

No Carona a Pé, uma iniciativa de professores de uma escola particular de São Paulo que leva grupos de crianças que moram próximas para caminhar juntas até a escola, são mapeados jornaleiros, comerciantes, porteiros e moradores como Amigos do Carona a Pé que, por estarem acostumados com a presença das crianças no bairro, estabelecem uma relação afetiva com eles e ampliam o repertório de cuidados que a criança recebe ao longo do trajeto de forma segura.

Esse senso de família ampliada é tão forte e significativo para nós, seres humanos, que muitos moradores de bairros com alto índice de violência justificam não querer mudar de bairro pela importância que essas relações têm e pela satisfação que proporcionam.

Esta semana levei minha filha para a aula de natação, e fomos as duas de bicicleta. O primeiro trecho do caminho não tem um espaço designado para ciclistas. Minha filha, desconfortável com o esforço de ter que se espremer com a bicicleta na rua estreita para desviar dos carros, me perguntou por que não tem ciclovia em todas as ruas.

Interessante o pensamento crítico que naturalmente brota quando uma criança sente na pele o que a conforta e o que a incomoda na cidade. A mobilidade ativa, além de proporcionar inúmeros benefícios para o desenvolvimento saudável da criança, contribui para sua formação como cidadã e garante o seu direito ao uso da cidade.

Agora, assista ao delicioso filme Caminhando com Tim Tim:

Foto: Carona a Pé/Divulgação

Laís Fleury é diretora do projeto “Criança e Natureza”, do Instituto Alana, fundadora da Associação Vaga Lume e empreendedora social reconhecida pela Ashoka Empreendedores Sociais.

Laís Fleury

Laís Fleury é diretora do projeto “Criança e Natureza”, do Instituto Alana, fundadora da Associação Vaga Lume e empreendedora social reconhecida pela Ashoka Empreendedores Sociais.

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