Quando a fotografia é pouco

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Meu amor original é a natureza! Desde muito antes da primeira câmera se materializar nas minhas mãos, eu já buscava formas de estabelecer uma relação com as paisagens naturais e bichos que, até então, habitavam sobretudo meu imaginário. Essa paixão (que muitas vezes achei que poderia ser meramente platônica) era alimentada principalmente por livros, que meus pais incorporavam à biblioteca da família. E eu passava horas viajando e fazendo planos com base, obviamente, nas fotografias desses livros!

O tempo passou, a natureza agora é parte importante da minha vida e a fotografia se tornou minha principal forma de relacionamento com ela. Mas a hierarquia dessas relações nunca se alterou.

Desde muito antes de mudar para Minas Gerais, já ouvia falar e alimentava uma imensa vontade de conhecer os Muriquis. O maior primata das Américas habita os pequenos e escassos fragmentos da nossa tão sofrida Mata Atlântica. O Muriqui-do-Norte é considerado uma espécie “criticamente em perigo” de extinção, e já esteve na pouco invejável lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo.

Finalmente, depois de 13 anos morando a menos de 400 km da RPPN Feliciano Miguel Abdala em Caratinga que, nos seus menos de mil hectares, abriga a maior população de Muriquis-do-Norte, consegui me organizar para uma visita. No meu planejamento, seria só mais uma viagem para fotografia de vida silvestre, mas não foi exatamente desse jeito.

Já havia feito expedições para fotografar primatas antes. Sabia que esse tipo de atividade, em geral, significa muita correria por baixo da floresta enquanto os bichos fogem pela copa. O saldo normalmente é um pescoço dolorido de tanto olhar para cima, uma quantidade desproporcional de fotos de bumbum de macaco e galhos vazios e, quando rola uma sorte, algumas fotos que se aproveitam.

Quando perguntei ao Roberto, que foi meu guia, se deveria sair com o equipamento na mão desde o começo da trilha, sua resposta foi “Não, não, fica tranquilo”. E eu fui despejando perguntas, tentando antecipar um pouco do que deveria esperar quando encontrássemos os bichos, já que teria apenas um dia para fotografá-los. Mas ele nem respondia muito, só tentava transparecer que minha ansiedade era infundada.

Passados alguns poucos minutos, no primeiro encontro com um grupo de Muriquis, pude entender tudo. De repente, cerca de 40 indivíduos desses gentis gigantes da floresta se alimentavam de folhas e frutos sobre nossas cabeças. A esperada correria não aconteceu. Eles continuaram se movendo com calma, sem se importar com nossa presença. Depois de mais de 30 anos sendo diariamente acompanhados por pesquisadores, se acostumaram com a presença humana.

E aí começou meu trabalho de fotógrafo (só que não muito). Fui totalmente surpreendido pelo comportamento dócil e afetivo desses primatas fantásticos. Toda vez que colocava o olho na ocular da câmera, sentia que estava perdendo um mundo de cenas incríveis que aconteciam ao meu redor. Eles se abraçavam, penduravam pela cauda, se agrupavam em uma só árvore, comiam folhas, se aconchegavam em um lugar confortável para descansar, me espiavam com curiosidade. E quando, no meio daquele momento maravilhoso, comecei a ficar ansioso por não conseguir registrar tudo, resolvi que não deveria registrar nada.

Alguns momentos não podem ser expressos pelos limites bidimensionais de uma foto. E é aí que o amor original fala mais alto: se a fotografia atrapalha o namoro com a natureza, é hora de ela ficar de lado por algum tempo. Passei vários minutos sem câmera, apenas admirando e me emocionando com aquele surpreendente mundo novo que acabava de descobrir. Depois, com mais tranquilidade, retomei meu trabalho. Até porque fui inundado pela vontade de revelar um pouquinho daquela sensação para as pessoas.

Essa não foi a única vez que tive esse tipo de sentimento. Já passei por isso com baleias, onças, paisagens. Porque, afinal de contas, nessa relação com a natureza, às vezes a fotografia é pouco!

Os dados da foto estão abaixo e, a seguir, mais alguns cliques desse encontro amoroso:
– Câmera Nikon D810 + lente Nikon AFS 80-400 f/4.5-5.6G VR @ 185mm
– ISO 2800, abertura f/5.3, velocidade 1/320s.

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Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

4 comentários em “Quando a fotografia é pouco

  • 24 de agosto de 2016 em 1:37 PM
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    Amigo querido é assim q me sinto diante da natureza, logo q vejo algo interessante esqueço a câmera e fico embasbacada tentando ser parte do q ta rolando… Seria uma péssima fotógrafa mas graças a pessoas como vc eu enamoro a natureza como se eu tivesse lá.. Q parentes mais lindos esses.

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    • 25 de agosto de 2016 em 9:00 AM
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      Então se prepare para vários momentos de “não fotografia” no Mamirauá, minha amiga querida! hehehe
      Certamente vamos passar algumas dessas experiências por lá.

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  • 24 de agosto de 2016 em 5:57 PM
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    É Marcos, eu bem sei como são maravilhosos esses momentos mágicos! Nada melhor do que podermos nos integrar e vivenciar o momento! O clique é só uma consequência que decorre da nossa vontade de compartilhar essa magia da natureza! Ótimo texto! Abraços!

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    • 25 de agosto de 2016 em 9:01 AM
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      Pois é, minha amiga! A gente teve vários desses momentos no Pantanal, não é? Aquela dúvida se a gente fotografava a onça ou a anta, ou só observava aqueles bichos lindos no seu habitat. Tem hora para tudo! =0)
      Abraços

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