Primeiro barco de plástico reciclado do mundo faz expedição na costa da África


“Em junho de 2016, decidimos tentar construir um barco inteiramente feito com plástico coletado nas praias e estradas do Quênia para mostrar o potencial desse material “já usado”. E dois anos depois, usando mais de 10 toneladas de resíduos e milhares de sandálias de dedo reaproveitadas – nós conseguimos! Construído na ilha de Lamu, com técnicas tradicionais dos pescadores africanos, este é o primeiro barco de plástico 100% reciclado do mundo”.

O texto acima descreve com paixão e orgulho, o projeto Flipflopi. O idealizador da iniciativa, Ben Morison. Depois de trabalhar anos com turismo na África, ele começou a perceber o sério impacto do lixo plástico. Animais estão morrendo sufocados com esses resíduos nos oceanos e a poluição nas cidades torna-se insuportável.

Há pouco mais de dois anos, o problema ainda não recebia tanta atenção na mídia, mas já estava lá. E o Quênia era um dos países que se deu conta que algo, urgente, precisava ser feito. Em 2017, o governo proibiu a produção, a venda e o uso de sacolas plásticas com pena de multa e até prisão.

O plástico continua sendo um sério desafio no continente africano, assim como no resto do planeta. Por isso mesmo, será tão importante a expedição realizada pelo barco Flipflopi. Na quinta, 24/01, a embarcação sairá de Lamur e percorrerá 500 km, com paradas em Malindi, Watamu, Kilifi, Mombasa, Diani, Shimoni, Pemba, até seu destino final, Zanzibar.

Ao longo do caminho, durante duas semanas, a equipe do Flipflopi irá fazer palestras em escolas e realizar encontros com organizações e governos locais. Também serão organizadas limpezas de praias nas diversas paradas.

Toda a parte externa (e coloridíssima) do barco à vela, que tem 9 metros de comprimento, foi feita com borracha de sandálias de dedo, daí o nome Flipflopi, já que em inglês, a nossa conhecida Havaiana chama-se flip-flop. Esse é um tipo de lixo muito comumente encontrados nos mares. Para o projeto, foram utilizadas cerca de 30 mil sandálias.

Voluntários fazendo coleta do lixo nas praias do Quênia

Foram utilizadas 30 mil sandálias no casco do Flipflopi

A expedição da embarcação com plástico reciclado tem o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e faz parte da campanha internacional Mares Limpos, Clean Seas, em inglês. 

O barco à vela foi construído com técnicas tradicionais africanas

Atualmente, apenas 9% das 9 bilhões de toneladas de plástico que a humanidade produziu foram recicladas. E por ano, 12,2 milhões de toneladas desses resíduos são jogados nos oceanos.

“Agora estamos presos nesta sociedade consumista, então precisamos reinventar a nós mesmos. Quanto mais nos reinventamos, mais descobrimos que precisamos voltar ao nosso passado … As respostas estiveram sempre lá”, diz Dipesh Pabari, um dos responsáveis pelo projeto Flipflopi.

Com essas e outras ações, aos poucos, o país africano se torna líder no combate ao lixo plástico. E a expedição pretende inspirar mais e mais pessoas nessa jornada!

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Fotos: divulgação Flipflopi

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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