Primeira-ministra da Nova Zelândia ignora autor dos ataques, dá voz às vítimas e suas famílias e altera leis sobre uso de armas

Firme e implacável, Jacinta Ardner se recusa a dizer o nome do autor do massacre nas mesquitas - "ele queria notoriedade, mas não vai ter" - e, ao anunciar nova lei para uso de armas, cidadãos se mobilizam e entregam as suas voluntariamente

Ela foi rápida e certeira como todo governante íntegro, humanista e responsável deve ser. Deu um grande exemplo ao mundo. No mesmo dia (15/3) do massacre de duas mesquitas em Christchurch, cidade da Ilha Sul da Nova Zelândia, que matou 50 pessoas e feriu outras 48 gravemente, a primeira-ministra Jacinda Ardern fez um pronunciamento na TV, em cadeia nacional, para anunciar que, até 15 de abril, serão proibidos a aquisição e o uso de armas semi-automáticas como fuzis de assalto e rifles de estilo militar. “Agora é a hora de mudar”, disse.

Ela reconheceu que os atuais donos de armas agiram dentro da lei, quando fizeram suas aquisições, mas garantiu que ninguém será lesado e que o governo deverá anunciar, em breve, um esquema de recompra, certamente com custo estimado entre $NZ 100 milhões e $NZ 200 milhões. Também será definido um período de anistia dos usuários para que todo o processo seja finalizado com tranquilidade. E, claro, quem mantiver armas após esse período, ao ser descoberto será punido: pagará multas de até $NZ 4 mil e ficará detido por três anos.

Como a implementação das novas leis ainda leva alguns dias, o governo já criou uma medida imediata para impedir a venda e o armazenamento de armas. E Ardern destacou: “Nós só queremos essas armas de volta para evitar outras tragédias como essa”.

Ardern foi firme, e alguns cidadãos responderam precocemente à seu decisão. Assim que ouviram a primeira-ministra na TV, decidiram entregar suas armas voluntariamente às autoridades. E a polícia teve que agir rapidamente também para orientar os interessados: todos devem entrar contato com a delegacia mais próxima de suas casas e se informar sobre como transportar suas armas com segurança até os oficiais. 

O ataque resgatou o movimento desarmamentista na Nova Zelândia, onde a posse de armas é legalizada. E bastante liberal. Estima-se que existam 1,1 milhão de armas de fogo no país, o que equivale a uma para cada quatro habitantes, incluindo armas para caça. 

Quando foi preso, o australiano de 28 anos, autor do homicídio nas mesquitas, portava cinco armas legalmente registradas. Na hora do massacre, agiu sozinho, mas teve o apoio de mais cinco pessoas – entre elas, uma mulher. – que também foram presos.

Jamais pronunciar seu nome

Mas a primeira-ministra da Nova Zelândia não dominou o noticiário mundial por dias somente por causa dessa medida radical e muito bem vinda.

No mesmo dia em que os corpos de seis vítimas foram entregues às suas famílias, ela estava lá, a seu lado. Levou flores, abraçou viúvas e crianças.

Numa sessão especial do Parlamento, Muito emocionada, em seu discurso ela também enviou uma mensagem à comunidade muçulmana. Vestida de preto e com um gesto solene, abriu a sessão com a expressão salam aleikum, que, em árabe, quer dizer “a paz esteja sobre vós”, um cumprimento habitual no mundo muçulmano.

Prometeu que jamais pronunciará o nome do autor dos ataques em Christchurch, declarando que o assassino – um supremacista branco, de extrema-direita -, enfrentará toda a força da lei. E completou: “Com este ato terrorista, ele buscava várias coisas, entre elas notoriedade, por isto jamais me ouvirão dizer seu nome”, declarou Ardern aos deputados em Wellington, capital. “E peço à vocês que digam os nomes de todos que morreram em vez do nome do homem que provocou suas mortes. Ele é um terrorista, um criminoso, um extremista, mas nunca será chamado pelo seu nome”.

Com suas atitudes, Adern disse que está ao lado das vítimas e que os muçulmanos fazem parte da sociedade neozelandesa. Ela ignora o autor dos ataques, nomeia as vítimas, dá voz a seu sofrimento e ainda promete fazer tudo para que isso jamais se repita. Ela sabe que quanto menos armas, maior a segurança. Uma boa governante.

Uma alento contra o extremismo

Toda essa movimentação a cerca do atentado na Nova Zelândia é muito importante para este momento delicado vivido por algumas nações que, recentemente, viram-se no comando de líderes de extrema direita, como é o caso do Brasil, com Jair Bolsonaro. Ainda na campanha presidencial, ele já anunciava que liberaria o uso de armas no país.

Desde que ele assumiu, em 1 de janeiro deste ano, a violência tem se acirrado em todos os cantos. Seja contra mulheres, indígenas, quilombolas, negros, pessoas vulneráveis, tanto por parte da polícia como de civis.

Há duas semanas, uma escola em Suzano foi invadida por dois jovens armados – que, na internet, se declararam fãs de um dos milicianos presos acusados da morte de Marielle Franco -, que mataram cinco crianças e três adultos. E só não mataram mais porque uma mulher, responsável pela merenda na escola, impediu que eles entrassem na cozinha, onde estavam muito crianças, ao colocar uma geladeira na passagem. Em seguida, os dois assassinos se mataram.

O que ouvimos do presidente? Palavras de lamento. E de um deputado do PSL (partido do presidente), Major Olympio, veio a declaração de que, se os professores estivessem armados, poderiam ter evitado a tragédia. Não houve nenhum movimento do governo no sentido de abortar a ideia de liberação da posse de arma no Brasil. Diante dessa tragédia, nenhuma voz contra a flexibilização das leis que, hoje, não proíbem, mas garantem que, quem vai comprar e usar a arma, realmente precisa dela e não tem antecedentes que o desabonem.

Veio dos EUA de Trump, não dele obviamente, uma das reações públicas de apoio à decisão de Jacinta Ardern, que resumiu muito bem o que deve ser feito. Bernie Sanders, senador democrata e pré-candidato à presidência, comentou em seu Twitter: “Isso é o que é ação real para parar a violência armada! Devemos seguir o exemplo da Nova Zelândia, assumir a NRA (National Rifle Association) e proibir a venda e distribuição de armas de assalto nos Estados Unidos”.

Na semana passada, em São Caetano do Sul, São Paulo, uma menina de dez anos, que perdeu a mãe há oito meses antes, se matou com a arma do pai enquanto este tomava banho.

Espero que a visão humanista de Ardern cresça, inspire cada vez mais políticos como Sanders e cidadãos comuns e dê conta de controlar a sanha violenta e racista que tem se espalhado pelo mundo e pelo Brasil.

Vale contar ainda que, no ano passado, divulguei, aqui no Conexão Planeta, a consulta pública do Congresso Nacional criada para saber a opinião do povo brasileiro a respeito do projeto de lei que propõe a revogação do Estatuto do Desarmamento. Essa consulta é obrigatória para todo novo Projeto de Lei.

Divulgamos o post no Facebook e fomos xingadas e atacadas por defensores da posse de armas. Alguns chegaram a nos agradecer por indicar o link da consulta pública porque iam lá votar a favor da revogação. A votação terminou e, pra nossa felicidade, o NÃO venceu.

Este resultado não tem poder de voto, mas pode influenciar muitos parlamentares quando o PL chegar à Câmara dos Deputados para votação. E, apesar do resultado apertado, significa que a maioria não quer a liberação para o porte de armas e concorda com o que diz o Estatuto do Desarmamento.

Foto: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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