Presente sujo

presente sujo

Abrir o olho, puxar o ar e por o pé no chão sabendo que a caminhada diária é em direção a um campo fétido e sujo – dizendo pouco – é para uma gente cuja descrição dá muito pano para manga. Manga num movimento de braço para tapar o nariz. Pano num indesejado vento de lado para desejar um banho de chafariz que faça sonhar com léguas de distância dali.

Réguas milimétricas, medindo desigualdade que se amontoa ao longo de quilômetros de distância das lixeiras cheias da veia consumista que de tão arraigada já parece genética e que, nessa época, vem embalada pela nobre vontade de presentear – essa atitude magnânima que transforma seres humanos e crianças em cordeirinhos do divino, sempre cambaleantes, sempre em dívida, sempre a espera de algo que não os decepcione. Sempre funcionando num toma lá, dá cá, tendo a certeza que esse ano merecem um presente melhor, uma frustração menor.

Para quem se presenteia com o achado do lixo, a expetativa talvez esteja anestesiada. Embalada, quem sabe, num saco maior do que o do Papai Noel, carregado todo dia por aí em carrinhos, cabeças e ombros. Uma paisagem em preto e branco que quando se colore mostra um azul.  Tanto céu para tentar aplacar o mar de sacos de lixos…

A exposição fotográfica Eu Catador – o olhar dos catadores sobre o cotidiano do trabalho – tem imagens tiradas pelos trabalhadores do Aterro Controlado do Jóquei Club, o lixão da Estrutural (DF). Foram feitas a partir de seus celulares.

 

Este é o maior lixão a céu aberto da América Latina. “Um retrato sensível do mundo real de milhares de profissionais que ressignificam a cadeia da reciclagem por meio do trabalho e sobrevivem à margem do sistema com as sobras da modernidade”, diz o texto de divulgação.

Para Isabela Coelho, idealizadora da mostra fotográfica, este trabalho é o retrato de “milhares de pessoas tidas como invisíveis para a sociedade, que transformam lixo em matéria prima e geram renda a inúmeras famílias no Distrito Federal”.

E, no meio da difícil disputa pelo resto de valor ainda posam amenos para fotografia. Mais: fotografam a realidade. E ainda fazem nossos olhos encontrarem arte nessa longa distância que mantemos desse ambiente insalubre nutrido por tanta atitude insustentável. Que encontremos também o senso de responsabilidade.

Exposição Eu Catador – o olhar dos catadores sobre o cotidiano do trabalho
Data: 11, 12 e 13 de dezembro
Horário: 8h às 19h
Local: Centro de Convenções Ulysses Guimarães/ Eixo Monumental

Fotos: divulgação

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Deixe uma resposta