Precisamos falar sobre Ahmed

imagem do jovem americano ahmed mohamed

O menino da foto acima é Ahmed Mohamed, de 14 anos. Ele foi um dos principais assuntos da mídia dos Estados Unidos na semana passada e seu caso viralizou nas redes sociais. Ele é um cidadão americano. Nasceu naquele país. Mas por ser filho de imigrantes – os pais vieram do Sudão – ele se tornou a face mais clara do preconceito e da ignorância em nossa sociedade.

Ahmed sempre gostou de mexer com eletrônica. Em sua escola antiga, em Irving, no Texas, era conhecido pelos amigos por consertar celulares e outros aparelhos. Seu sonho é estudar no renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT). Recentemente o jovem mudou de colégio e orgulhoso, decidiu levar para a professora um relógio que tinha montado em casa.

Quando a professora viu o relógio nas mãos do aluno imigrante e muçulmano, rapidamente se apavorou. Para ela, o artefato era uma bomba. Sem hesitar, a direção da escola chamou a polícia e o garoto de 14 anos saiu dali, algemado. A foto de Ahmed, vestindo uma camisa da Nasa, algemado, rodou o mundo.

Depois de esclarecido o lastimável mal entendido, o jovem foi solto. Deu entrevista coletiva em frente à sua casa, participou de programas de televisão, recebeu mensagens da Nasa e de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook. Recebeu ainda um convite do presidente Barack Obama (neto de um queniano) para levar seu relógio até a Casa Branca. Esta semana, entretanto, a família de Ahmed resolveu tirá-lo da escola.

O incidente que envolveu o adolescente americano é emblemático por uma série de razões. A primeira delas, é observar que aconteceu justamente em uma escola, onde mais que em outros lugares, é de se esperar que os profissionais estejam preparados a lidar com a diversidade de etnias, cultura e religião. Alguns podem alegar que os Estados Unidos já sofreram, em vários ocasiões, com a ação de jovens terroristas que, armados, mataram os próprios colegas.

Mas se Ahmed fosse branco, de olhos azuis e se chamasse John, teria tido a professora a mesma reação? Aí entra outro ponto a ser debatido. Os Estados Unidos sempre foram considerados a pátria, que recebe de braços abertos seus imigrantes. Assim é, em muitas cidades. Poucos lugares no mundo, como em Nova York, há tantas nacionalidades reunidas, gente que busca, através do American way of life, uma vida mais digna e feliz para suas famílias.

Mas nem todas as cidades são Nova York. Ahmed e sua famíla vivem no Texas. O prefeito de Irving já havia sido acusado anteriormente de preconceito contra a comunidade islâmica. O que fica subentendido nas entrelinhas é que, longe das grandes metrópoles, serão bem-vindos imigrantes que pertençam ao mesmo grupo religioso e cultural que o seu – e óbvio, tenham uma aparência física similar a de seus moradores.

E isso não acontece apenas nos Estados Unidos. Não há como apontar o dedo somente para o prefeito, a polícia ou a escola de Irving. Situações como a que Ahmed viveu ocorrem aos milhares, todos os dias, em todas as cidades do mundo. Inclusive na sua, leitor.

Esta é uma discussão muito séria, que fica mais evidente ainda agora, no momento em que milhões de refugiados fogem da Síria e buscam exílio em países europeus. Não vou falar aqui sobre a atitude do governo da Hungria em construir uma cerca para barrar a entrada dos imigrantes naquele país. Desnecessário fazer qualquer tipo de comentário sobre isso. Mas estarão preparados no futuro, os cidadãos da Alemanha, Suécia, Itália, França e Inglaterra (países que mais receberam pedidos de asilo em 2014) a conviver com refugiados de cultura, tradições e hábitos diferentes dos seus?

Agora estamos falando só dos sírios. Mas os especialistas apontam que as ondas de migrações só tendem a aumentar. Com os efeitos das mudanças climáticas, mais e mais pessoas deixarão seus países por enfrentarem problemas como a falta de água e a crescente frequência de desastres naturais.

Os sírios também têm procurado refúgio no Brasil. Assim como eles, um número cada vez maior de haitianos – que tiveram seu país devastado por um terremoto no passado -, chegam ao nosso país.

Tolerância, diversidade e respeito são tópicos essenciais para entrar no plano de aula de nossas escolas. Hoje. Não no futuro. Porque já vivemos em mundo diferente e não há mais espaço para ignorância e preconceito.

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Foto: reprodução vídeo youtube Fox News

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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