Povos indígenas vão pressionar países europeus para que boicotem commodities produzidas em terras invadidas, diz Sonia Guajajara

O governo Bolsonaro tem demonstrado constantemente que não está disposto a proteger os indígenas e suas terras, muito ao contrário. Na semana passada, em total desrespeito à decisão do Congresso e à Constituição Federal, o presidente devolveu a competência sobre a demarcação das terras indígenas para o Ministério da Agricultura, como havia feito quando tomou posse, com a polêmica Medida Provisória 870. Editou uma nova MP – 886/2019  -, que precisa ser aprovada (ou refutada) em 120 dias pelo Congresso, mas já vale como lei (para entender melhor a questão leia texto que publicamos a respeito).

Por isso, é preciso agir tão rápido quanto ele. Uma das formas mais eficazes para lutar contra o governo é convencer os países consumidores de commodities como soja, milho, algodão, entre outras, produzidas em terras indígenas invadidas, que boicotem o Brasil. Afinal, como confirma o relatório Cumplicidade na Destruição, lançado em abril deste ano, a devastação da Amazônia foi financiada por dezenas de empresas estrangeiras – bancos, madeireiras e fabricantes de acessórios -, e também por outras que compraram produtos de propriedades multadas pelo Ibama por desmatamento ilegal, também em terras indígenas.

Por isso, na última sexta-feira, 21 de junho, em entrevista coletiva à imprensa internacional em Bonn, Alemanha, Sonia Bone Guajajara, liderança indígena e coordenadora da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, anunciou que representantes de diversos povos indígenas brasileiros vão visitar empresas de cinco países e também participar de reuniões no Parlamento Europeu. “Vamos exigir o respeito a direitos ambientais e direitos humanos e conscientizar as pessoas sobre de onde vêm os produtos”.

A entrevista aconteceu ao fim da primeira semana de negociações preparatórias para a COP25 – Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, que será realizada no Chile, em dezembro. Lembra que esta conferência seria realizada no Brasil, mas Bolsonaro e o chanceler Eduardo Araújo se negaram a sediar o encontro? Pois é…

O pedido de boicote faz parte das estratégias da APIB para neutralizar as ações do governo Bolsonaro que tem tentado impedir, de todas as maneiras, o diálogo com esses povos.

Em abril, a APIB assinou a carta redigida por 107 cientistas europeus que pediram à União Europeia que só fizesse acordos comerciais com o Mercosul com base no cumprimento de uma série de salvaguardas socioambientais. Em maio, o terena Luiz Henrique Eloy, advogado da APIB, participou de encontro de acionistas da maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, também para pedir o boicote a commodities produzidas em terras indígenas. “Somente quando incidirmos sobre a economia o governo vai começar a se preocupar”, disse Guajajara.

Na ocasião, ela comentou e criticou duramente as ações de Bolsonaro, e falou sobre a nova MP. “Bolsonaro se colocou contra a Constituição Federal e o Congresso, porque ignorou a regra que proíbe a reedição de uma Medida Provisória com o mesmo objeto (após derrota de uma MP no Congresso, o que foi o caso com a das terras indígenas)”. E continuou: “Por mais que ele diga que não é um ditador, as atitudes estão mostrando isso”.

Na verdade, o presidente está cumprindo o que prometeu aos ruralistas durante sua campanha eleitoral: “Se depender de mim, não haverá mais nenhum centímetro de terra demarcado para os indígenas!”. Este é um governo sem lei, que fere a Constituição constantemente, para defender interesses econômicos. Mas, no que depender dos povos indigenas e dos brasileiros que estão ao seu lado nessa luta, isso não vai acontecer. A lei – muito clara na Constituição – vai ser cumprida.

Leia também:
Sônia Guajajara participa de fórum sobre questões indigenas promovido pela ONU, em Nova York

Fontes: APIB, Observatório do Clima

Foto: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta