Pornografia e gênero

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Não faz muito tempo, emergiu uma discussão muito interessante sobre o papel da pornografia na manutenção de estereótipos questionáveis, e um tanto ultrapassados, de feminilidade e masculinidade.

A pornografia clássica, que começou com a famosa revista Playboy escondida embaixo da cama, evoluiu para plataformas virtuais que organizam o conteúdo por categorias, passando por Big Boobs (seios grandes), Rough Sex (sexo violento) e Double Penetration (dupla penetração).

Não é difícil observar que a representatividade da mulher na indústria pornô reitera um padrão obsessivo de extrema submissão, além de enaltecer atributos estéticos que objetificam o corpo feminino e fazem dele um mero espaço de extração de prazer unilateral pelo homem.

O que antes não se discutia é o efeito negativo sobre o consumo desenfreado desse conteúdo. Na última década, foram realizadas inúmeras pesquisas que avaliaram a influência do pornô sobre a vida de garotos adolescentes, suas relações amorosas e sexuais e suas performances escolares.

Outros resultados de pesquisas conduzidas sobre o tema foram apresentados por Gary Wilson, do site Your Brain No Porn (Seu cérebro sem pornografia) em uma palestra TEDx – The Great Porn Experiment – em Glasglow, na Escócia, em 2012.

Os índices de violência contra a mulher e casos de estupro também podem ser facilmente relacionados com os estereótipos reforçados pela pornografia, que endossam o sexo violento e não autorizado como um fetiche sedutor.

De acordo com o PornHub, um dos maiores sites de pornografia do mundo, somente em 2015 foram assistidos 87.849.731.608 vídeos  (mais de 87 bilhões!!), o que corresponde a 12 por pessoa no planeta. Levando em conta que algumas pessoas nunca assistem esse tipo de vídeo, dá pra imaginar a gravidade desses dados?

No Brasil, o termo mais procurado em sites de pornografia, em 2014, foi novinha, o que chama atenção para um problema ainda mais grave: o consumo de pornografia infantil que, de acordo com a ONG SaferNet, foi o crime mais reportado nesse mesmo ano.

Por tudo isso, está mais do que na hora de revermos e questionarmos hábitos como esse que, aparentemente não provocam nenhum dano direto aos envolvidos – já que pode ser uma prática solitária -, mas se reforçam como uma fonte inesgotável de manipulação pessoal e social, além de servirem como ferramenta de manutenção de estereótipos superados e que perpetuam a violência de gênero à qual estamos todos – mulheres e homens – diariamente expostos.

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Gabriele Garcia

Sonhadora, feminista e apaixonada por pessoas e histórias. Trabalhou por dez anos como advogada e em 2014 deixou o escritório para empreender o Think Twice Brasil, cujo primeiro projeto – Experiência de Empatia – foi uma viagem de 400 dias por 40 países para se aprofundar no aprendizado e identificação de soluções para desigualdade social e de gênero. De volta ao Brasil, está à frente do Instituto Think Twice Brasil e de projetos ligados à justiça social e de gênero.

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