Coletivo Mulheres Negras – comida saudável e solidária – faz campanha para financiamento coletivo

O Porão da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, é hoje um espaço que abriga programação cultural promovida pelos estudantes. Mas não só. O Porão da Sanfran, como é conhecido o lugar, é também o endereço da lanchonete administrada pelo Coletivo de Alimentação Mulheres Negras, um empreendimento de economia solidária da cidade de Santo André.

O grupo, que existe desde 2008, administra a lanchonete há cerca de um ano e é composto por mulheres que moram na região do ABC e dependem desta renda e da prestação de serviços do buffet. A administração da lanchonete pelo coletivo foi apoiada pelos estudantes da Faculdade de Direito e pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, mas o grupo ainda precisa de recursos para investir em adequações do espaço e compra de equipamentos, pois sem isso operam abaixo da capacidade.

Surgiu então a ideia de promover uma campanha de financiamento coletivo para conseguir a adequação necessária, comprar equipamentos e obter algum capital de giro, tornando a lanchonete sustentável. O valor total que precisa ser arrecadado é de R$ 19 mil. É pouco perto da transformação que esse recurso vai proporcionar. A campanha está aberta até o dia 30 de novembro.

O Coletivo de Alimentação Mulheres Negras acredita que a transformação da realidade se dá na coletividade e solidariedade, e trabalha com alimentação saudável junto com outros empreendimentos da economia solidária ligados à agricultura familiar e ao Movimento Sem Terra (MST), que são fornecedores e garantem a origem saudável dos insumos usados no preparo dos itens de alimentação.

Tapiocas, pastéis, bolos, sucos naturais e outras opções feitas de modo caseiro estão entre as opções oferecidas pela lanchonete. Com isso, proporcionam aos estudantes da Faculdade uma nova cultura de alimentação, substituindo os tradicionais salgados que geralmente são consumidos nesses espaços sem que se conheça a procedência dos insumos que os compõem, na pressa no dia a dia.

A lanchonete funciona das 8h às 22h, e muitas vezes os estudantes promovem eventos culturais que ampliam o público que circula por lá e, consequentemente, o público da lanchonete. Além disso, ajudar na comercialização faz com que o trabalho do coletivo e seu conceito sejam conhecidos por mais pessoas.

Uma de suas integrantes, Cida Reis, militante da economia solidária que defende o protagonismo das mulheres negras no mundo e na economia solidária há mais de 15 anos, está no coletivo desde sua criação. Antes disso ela trabalhava em uma lanchonete, inicialmente como garçonete e depois como cozinheira, e foi ali que, se articulando com outras mulheres, atendeu a uma demanda de buffet para um casamento. A essa demanda se seguiram outras, e logo o grupo de mulheres começou a pensar em ter um empreendimento para atender aos pedidos.

O ano era 2006 e, então, seis mulheres com idades variando entre 26 e 58 anos se articulavam para dar conta dos trabalhos. Buscaram formações e faziam doces para vender e ter algum dinheiro. No ano seguinte, Cida conheceu a economia solidária durante um curso sobre manipulação de alimentos, e passou a se interessar cada vez mais pelo tema. Logo o grupo se formalizou como empreendimento, com saída de algumas mulheres e chegada de outras. E os pedidos começaram a surgir, um café aqui, um lanche acolá, e nesse movimento o coletivo conheceu o movimento estudantil.

Em 2010 veio um grande desafio: fornecer, por cinco dias, refeições para mais de mil pessoas durante o Encontro Nacional de Estudantes de Direito, realizado na Faculdade Zumbi dos Palmares. Foi o maior evento já enfrentado por elas, e apesar dos riscos, aceitaram e foram bem sucedidas.

“Hoje estamos dentro da Faculdade de Direito da USP, há um ano, porque mais de mil estudantes se mobilizaram para quebrar a hierarquia do edital e se empenharam para colocar lá um empreendimento de economia solidária, com propostas bem diferentes de alimentação. Foi uma luta grande, e nós ganhamos em votação por uma diferença de 400 votos a mais do que o segundo colocado. Assumimos com os equipamentos que tínhamos, que não são muitos. E por isso estamos tentando nos estruturar melhor. Somos o primeiro empreendimento de economia solidária a estar dentro de uma faculdade no formato que nós estamos. O que buscamos não é financiamento apenas, mas também levar para as pessoas a importância de nosso empreendimento estar lá. É uma porta aberta para outros empreendimentos”, define Cida, que informa ainda que a PUC também mostra interesse em desenvolver proposta semelhante com o coletivo – que já trabalhou com vários estudantes ali, de direito, comunicação e psicologia.

O coletivo tem hoje 18 mulheres, cinco que trabalham diretamente com vendas e outras que trabalham com produção. A mais velha tem 72 anos e faz com doces caseiros. A mais nova tem 19 e faz formação em informática. “Hoje eu me sinto uma pessoa mais viva, mais realizada. Gero trabalho na comunidade onde eu vivo também. Quando temos um evento grande, muitas mulheres vêm trabalhar com a gente, ou produzem nas suas bases. Isso é muito importante”.

Vamos lá, tornar essa uma realidade possível?

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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