Por uma cidade mais lúdica

Por uma cidade mais lúdica

Já é bastante conhecida a necessidade das crianças de brincar, quanto melhor, se puderem brincar livremente. Muitos pesquisadores apontam para o brincar como a linguagem genuína da criança e o meio pelo qual ela apreende o mundo à sua volta. Muitos leitores aqui devem conhecer o inventário imenso de brincadeiras levantadas Brasil afora pelo Território do Brincar (TDB). O programa visitou as cinco regiões do Brasil, demonstrando de maneira bastante sensível as formas como as brincadeiras brotam espontaneamente na relação da criança com o mundo que a cerca.

A maior parte dos lugares visitados pelo projeto são comunidades pequenas de lugares do interior do país, onde ainda é possível observar a liberdade dos pequenos em circular pelo espaço. Assistimos, nas cenas retratadas pelo projeto, muitas brincadeiras que acontecem do lado de fora das casas, sem intervenção direta dos adultos, o que educadores hoje entendem como “o brincar livre”. E esse é o ponto que quero tratar aqui neste artigo: o que entendemos como liberdade na infância? O que é preciso para que ela aconteça? Como é possível propiciar maior liberdade nas cidades de hoje?

Eu cresci na cidade de São Paulo durante os anos 80, ainda lembro que a rua era palco de muitos encontros e brincadeiras. Embora eu morasse em um prédio, o campo de relações que eu estabelecia se estendia para além dos muros do edifício. Tínhamos uma quadra de futebol que acolhia competições entre o time das crianças da rua e do prédio, nós conhecíamos as crianças e adolescentes de ruas vizinhas e muitas tardes eram preenchidas por visitas entre a vizinhança.

Conhecíamos personagens caricatos de nosso bairro, percebíamos as diferenças sociais pelas diversas formas de moradia, sabíamos onde encontrar pés de fruta nos quintais, conhecíamos pelo nome os cachorros que moravam nas casas. A gente foi crescendo e nossos elos de relação foram sendo ampliados, expandindo nossa circulação pelo espaço. É possível pensar em uma relação entre crescimento e expansão territorial em um ambiente onde se pode circular com liberdade.

A palavra brincar tem como raiz o termo latim vinculum, brincar é o modo como a criança vincula-se ao seu território. Para sentir-se pertencente a um lugar é preciso ter uma relação de vínculo, de afeto com um território. Pense por um minuto em suas memórias de infância em sua cidade… Arrisco dizer que suas lembranças estarão preenchidas por eventos significativos e carregados de afeto no espaço da cidade. Por esse ponto de vista, é interessante pensar que o brincar livre na cidade é um dos primeiros sentimentos de cidadania.

Atualmente, convivemos com uma sensação de segurança muito menor e a violência urbana é um fenômeno complexo que impõe barreiras reais em nosso cotidiano, especialmente quando se trata de darmos maior liberdade aos nossos filhos para brincarem e circularem nos espaços públicos das cidades. Corre o risco de a rua deixar de ser o local do encontro para se tornar o lugar do medo. Frente a essa constatação, é impossível não se perguntar: o que podemos fazer para reverter esse panorama?

Um bom começo é pesquisar outras referências urbanas que tomaram medidas amigáveis à infância e conseguiram trazer as crianças de volta para as ruas da cidade. Com esse intuito o programa Criança e Natureza visitou Freiburg em 2017, na Alemanha, para conhecer quais os múltiplos aspectos que fazem desta cidade referência na qualidade de vida para suas crianças. Lá, pudemos conhecer algumas iniciativas interessantes que podem ser referências inspiradoras para nós. Irei listar algumas aqui:

• Intervenções lúdicas no espaço urbano: como o escorregador que conhecemos no Stadgarten (parque estadual), uma aventura para crianças e adultos na descida do parque, ou portas com faces divertidas como conhecemos na Bagage, oficina de ideias pedagógicas que faz intervenções lúdicas pela cidade;

• Planejamento urbano de bairros que incluem espaços livres para o brincar. Em Vaubaun, um modelo de distrito residencial sustentável, conhecemos duas medidas para acolher a infância. Uma delas é a regulação do trânsito nas ruas residenciais, medida conhecida como zona de tráfego reduzido (traffic calmed areas), onde a velocidade do carro deve ser 30km/h e a circulação de crianças e de bicicletas é sinalizada em placas de trânsito. Outra medida planejada no bairro são as grünspange (áreas verdes), espaços de convívio ao ar livre com alguns recursos naturais e parquinhos que permitem a criança brincar livremente em contato com a natureza;

• Campanhas como a “Mais espaços para as crianças, uma ganho para todos” (“Mehr Freiraumm für Kinder, ein Gewinn für alle” – site em alemão). Campanha que estimula os municípios a incluírem a infância em seu planejamento urbano a partir da escuta das crianças e da compreensão do raio de ação delas pela cidade;

• Pesquisa do Instituto de Ciência Social Aplicada (FIFAs) (site em alemão), coordenada por Cristina Kimpler, que buscou identificar as pegadas do brincar – as áreas onde as crianças brincam – para protegê-las.

Seguir as pegadas da infância pela cidade, aprender como elas se vinculam com os espaços e fazer intervenções lúdicas pelos seus caminhos são modos pelos quais podemos honrar a criança no meio urbano e contribuir para que elas possam ter maior liberdade de circulação conforme vão crescendo. É evidente que a desigualdade social no Brasil impõe outros limites para a segurança nas cidades e coloca diferenças estruturais em nossa realidade.

Parque infantil na cidade alemã de Freiburg

Entretanto, o senso de comunidade com a vizinhança do bairro e medidas como as ruas de lazer para as crianças brincarem nos finais de semana, ou a revitalização de praças como o Movimento Boa Praça realiza, são referências que partem da nossa própria realidade e que contribuem para uma cidade mais viva, onde a presença das pessoas nos espaços públicos pode favorecer a sensação de pertencimento, de liberdade e de segurança em nossas cidades. Assim como aprendemos com Andreas Bursakin, da empresa Alforia, que nos apresentou o bairro de Vauban em Freiburg: “a ideia é manter o bairro vivo e com isso aumentar a sensação de segurança. O aspecto vivo (luz, loja, restaurante, pessoas) substitui o sistema de monitoramento e vigilância”.

Atenção: criança na área!

Fotos: domínio público/pixabay e Albert Schmidt (Alemanha)

Mestre em educação pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre infância indígena. Atuou cerca de 10 anos no Parque do Xingu por meio do Instituto Socioambiental. É co-diretora do curta metragem Waapa, realizado em parceria com o Projeto Território do Brincar. É assessora pedagógica do Programa Criança e Natureza do Alana. Mãe da Nina e Luana.

Paula Mendonça

Mestre em educação pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre infância indígena. Atuou cerca de 10 anos no Parque do Xingu por meio do Instituto Socioambiental. É co-diretora do curta metragem Waapa, realizado em parceria com o Projeto Território do Brincar. É assessora pedagógica do Programa Criança e Natureza do Alana. Mãe da Nina e Luana.

Um comentário em “Por uma cidade mais lúdica

  • 3 de agosto de 2018 em 7:09 PM
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    Sim, recordar sempre será viver, brincar de cirandinha de novo, de pega-pega, de amarelinha, de rodar o pião, de bola de gude, de chupar pirulito, andar de velocípede, jogar bola, soltar pipa, comer algodão doce, ling-ling e mergulhar os pés nas poças de chuva. Recordar é ser feliz de novo, voltar a ser criança, esperar Papai-Noel e acreditar que a cegonha trabalha muito entregando os bebês, porém a gente cresce, o mundo gira e o mundo mostra a cara dele, não tão bonita quanto a gente esperava mas que é preciso encarar de frente e sem medo, afinal a gente cresce para ser muito feliz, ainda que nem tanto, porque impossível voltar.

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