Por que se preocupar com a biodiversidade?

Esta pode parecer uma pergunta trivial, mas as respostas são várias e não tão simples. A preocupação com a conservação da natureza não é recente. Muito antes do primeiro parque nacional do mundo ser criado em 1872, nos Estados Unidos, várias civilizações demonstraram certa preocupação em manter seus recursos naturais protegidos de forma a garantir a perpetuação do seu abastecimento hídrico ou da disponibilidade de caça, por exemplo.

O próprio Dom Pedro II, imperador do Brasil, chegou a ordenar o reflorestamento da região da Floresta da Tijuca com mata nativa nos idos do século XIX para evitar que o abastecimento de água no Rio de Janeiro fosse comprometido. Nota-se que estas preocupações são pautadas principalmente nas necessidades humanas, mas diversos outros argumentos foram desenvolvidos ao longo da história como justificativa para a preservação da natureza.

Curiosamente, o grande motivador para a criação das primeiras unidades de conservação, como o já mencionado Yellowstone (nos EUA), era a ideia do valor da natureza per se. Obviamente, este valor intrínseco da natureza estava também atrelado ao sentimento de bem estar e das atividades recreativas associadas aos territórios selvagens, e também se refletia em algum tipo de benefício para o ser humano. Todas estas ideias estão ligadas ao conceito de serviços ecossistêmicos.

Os serviços ecossistêmicos são todos os benefícios obtidos pelo homem a partir do bom funcionamento dos ciclos naturais e processos ecológicos. Estes vão desde a renovação do solo, da água e do ar, até a provisão de alimentos, recursos e ambientes necessários para nossa sobrevivência e bem estar. Eles são chamados de serviços, já que são bens materiais ou imateriais essenciais pelos quais teríamos que pagar caso não fossem fornecidos gratuitamente pela natureza.

E é exatamente aí que entra a pergunta chave do nosso texto. Por quê se preocupar com a biodiversidade? O que ela tem a ver com tudo isto?

Para desenvolver o raciocínio, precisamos entender dois conceitos chaves em ecologia: a redundância funcional e a complementaridade funcional. Estes nomes complicados tem na verdade uma ideia simples por trás. A redundância funcional é uma consequência de organismos diferentes desempenharem as mesmas funções na natureza. Se um deles desaparece, os outros podem assumir o cargo, tal como funcionários dentro de uma empresa que realizam o mesmo trabalho. Este é o seguro dos ecossistemas.

Já a complementaridade funcional seria o equivalente aos funcionários desempenharem trabalhos diferentes, mas complementares, dentro da empresa, garantindo assim que o produto final seja feito corretamente na linha de produção. A redundância é o resultado da convergência adaptativa dos organismos, enquanto a complementaridade é o resultado da sua especialização. São propriedades distintas, mas fundamentais para que os serviços ecossistêmicos sejam provisionados. Entretanto, elas só são possíveis graças à biodiversidade. Na ausência de organismos distintos para cobrir a mesma função, ou para realizarem tarefas distintas e altamente especializadas, os processos ecológicos podem entrar em colapso.

Dificultou? Bom, vamos com calma.

Imagine uma planta que pode ser polinizada por cinco espécies diferentes de abelhas, mas que estas abelhas apresentam diferentes graus de tolerância à temperatura. Num cenário de mudanças climáticas, com o aquecimento do planeta, três destas abelhas extinguem localmente onde a planta ocorre, mas as outras duas sobrevivem melhor em temperaturas mais altas, e são capazes de se manter no local, polinizando a planta e compensando a perda das outras três.

Suponhamos agora que cada uma das referidas abelhas dependa exclusivamente do néctar desta mesma planta como fonte de alimento. Além disso, esta planta tem suas sementes dispersas exclusivamente por uma espécie de ave sensível à fragmentação de habitat. Ainda que não houvesse variações na temperatura, um aumento nas taxas de desmatamento na região provavelmente extinguiria esta espécie de ave. Sem ela, as sementes da planta não seriam dispersas, o que poderia levar à sua extinção local em longo prazo. As abelhas ficariam sem recursos e pereceriam logo em seguida.

Este curto exemplo, ainda que extremamente simplório, demonstra a importância da biodiversidade para a manutenção dos serviços ecossistêmicos, seja através da redundância ou da complementaridade funcional. Estas interações ecológicas ganham uma importância ainda maior quando levamos em conta que grande parte dos alimentos de origem vegetal consumidos pelo ser humano são dependentes das abelhas para sua reprodução.

A pequena sequência de fotos, ao final deste texto, também ilustra esta questão. Podemos ver uma mesma planta (Agave sp.) sendo visitada por pelo menos quatro espécies de animais diferentes: morcegos, abelhas, mariposas e marimbondos. É possível que nem todos estes animais sejam polinizadores do Agave, talvez alguns estejam apenas roubando seu néctar sem depositar pólen no estigma de outras flores.

É possível notar também uma terceira relação: um pequeno sapinho a espreita de visitantes florais desavisados. Todas estas fotos foram feitas no intervalo de algumas horas, o que mostra o amplo leque de interações estabelecidas entre a planta e seus visitantes florais e ainda, um terceiro animal que interage com os visitantes florais da planta. Mas talvez o aspecto mais interessante destas fotos seja exatamente a redundância funcional: várias espécies de animais ocupando uma função parecida na natureza. Em outras palavras, a polinização da planta (caso todos os visitantes florais estejam realmente a polinizando) está assegurada graças aos seus múltiplos parceiros.

Este caso é especialmente relevante para o ser humano, já que o Agave é a matéria-prima para a produção da famosa tequila, bebida amplamente consumida no mundo e que movimenta uma indústria bilionária.

Em resumo, a diversidade morfológica, genética, fisiológica e comportamental entre os organismos faz com que eles explorem nichos diferentes na natureza, assumindo funções especializadas, mas que possam também atuar de maneira semelhante no ambiente, ajudando assim, a amortecer o efeito de mudanças ambientais e perturbações. Isso tem influências diretas e indiretas sobre nossas vidas – desde o alimento que consumimos até os grandes padrões climáticos em escala global.

Na natureza, as espécies não se encontram isoladas umas das outras, mas conectadas por uma teia emaranhada de interações, de forma que a alteração em uma das partes pode ter consequências sobre o todo. Muito mais do que uma vitrine bonita para ser admirada, a biodiversidade é a segurança de que os serviços ecossistêmicos de que somos tão dependentes sejam mantidos.


Referências

Blüthgen, N. 2012. Interações plantas-animais e a importância funcional da biodiversidade. In: Del-Claro, K. & Torezan-Silingardi, H.M (orgs.). Ecologia das Interações Plantas-Animais. Uma abordagem ecológico-evolutiva. Ed. Technical Books. Rio de Janeiro, RJ. 336 p.

Millennium Ecosystem Assessment, 2005. Ecosystems and Human Well-being: Synthesis. Island Press, Washington, DC. Disponível em: http://www.millenniumassessment.org/en/index.html.

Novais SMA, Nunes CA, Santos NB, D`Amico AR, Fernandes GW, Quesada M, et al. (2016) Effects of a Possible Pollinator Crisis on Food Crop Production in Brazil. PLoS ONE 11(11): e0167292. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0167292.

Ricklefs, R.E. 2010. A Economia da Natureza. 6ª ed. Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro. 572 p.

Fotos: Augusto Gomes

Biólogo, mestre em Ecologia e fotógrafo da natureza. Desde 2010, desenvolve pesquisas voltadas para a ecologia e conservação de ecossistemas tropicais, com foco em morcegos e ambientes cavernícolas. Atualmente, busca na fotografia uma ferramenta para difusão do conhecimento científico e conservação da biodiversidade. É vencedor de vários prêmios nacionais e internacionais. Já teve suas fotos publicadas em oito livros. É colaborador do Conexão Planeta, do Bocaina Biologia da Conservação e do Instituto Últimos Refúgios. É membro da Associação dos Fotógrafos de Natureza do Brasil (AFNATURA) e mantém uma página na internet dedicada à divulgação científica e sensibilização ambiental: Andirá Imagens

Augusto Gomes

Biólogo, mestre em Ecologia e fotógrafo da natureza. Desde 2010, desenvolve pesquisas voltadas para a ecologia e conservação de ecossistemas tropicais, com foco em morcegos e ambientes cavernícolas. Atualmente, busca na fotografia uma ferramenta para difusão do conhecimento científico e conservação da biodiversidade. É vencedor de vários prêmios nacionais e internacionais. Já teve suas fotos publicadas em oito livros. É colaborador do Conexão Planeta, do Bocaina Biologia da Conservação e do Instituto Últimos Refúgios. É membro da Associação dos Fotógrafos de Natureza do Brasil (AFNATURA) e mantém uma página na internet dedicada à divulgação científica e sensibilização ambiental: Andirá Imagens

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