Por que milhões de mulheres foram às ruas?

Por que milhões de mulheres foram às ruas?

No último sábado, 21 de janeiro, um dia após a posse do novo presidente americano, Donald Trump, milhares e milhares de mulheres tomaram as ruas das principais cidades do mundo. Caminharam pacificamente, ao lado de amigas, companheiros, filhos e desconhecidos. Empunhando cartazes e vestindo camisetas com frases de protesto, elas estiveram nas ruas para que suas vozes pudessem ser ouvidas. Para que sua força não seja menosprezada.

A Women’s March (Marcha das Mulheres, em inglês) conseguiu reunir mais de 5 milhões de pessoas. Só na capital dos Estados Unidos, Washington D.C., os organizadores estimam que mais de um milhão de participantes estiverem presentes na manifestação. O ato histórico começou a ser organizado logo após ter sido divulgado o resultado da eleição americana, ainda no ano passado.

Mas a Marcha das Mulheres aconteceu somente como um protesto contra o discurso xenófobo, preconceituoso e narcisista de Donald Trump? Não, não foi só isso. Infelizmente.

E por que, ainda hoje, as mulheres precisam reivindicar seus direitos? Ir para as ruas para protestar?

– Porque desde muito cedo, meninas e meninos ainda são tratados de forma diferente. Elas têm que ajudar na cozinha, enquanto eles podem assistir televisão. Elas brincam de boneca, eles de futebol.

– Porque elas ouvem cantadas de péssimo gosto quando andam nas ruas e eles acham que não há mal nenhum nisso.

– Porque elas são chamadas de (me desculpem os termos) “fáceis, vulgares, galinhas” e eles de “garanhões e conquistadores”.

– Porque a imagem das mulheres continua sendo explorada na publicidade e na mídia.

– Porque, em muitos países, meninas e adolescentes não têm direito à educação. Só os meninos. Das 110 milhões de crianças que não vão à escola no mundo, 2/3 delas são do sexo feminino.

– Porque, em muitas culturas, elas são obrigadas a aceitar casamentos forçados. A ir para a cama com homens que têm idade para serem seus pais. A andar atrás dos homens. A não confrontá-los.

– Porque as mulheres continuam sendo uma minoria na política. Não se candidatam. E quando o fazem, não conquistam sequer o eleitorado feminino.

– Porque, em muitas sociedades, elas ainda precisam dar explicações quando decidem não abraçar a maternidade.

– Porque, em muitos países, é o Estado que ainda decide sobre o corpo delas.

– Porque nenhum homem já ouviu, durante uma entrevista de trabalho, a pergunta “você pretende ter filhos?”

– Porque, em nenhuma pesquisa ou formulário, os homens têm a opção de escolher “do lar ou dono de casa” no campo ocupação.

– Porque, na hora da seleção para um emprego, muitas mulheres continuam a ser avaliadas pela sua beleza e não pelo seu currículo ou experiência.

– Porque elas continuam a receber salários MUITO menores do que eles.

– Porque estima-se que a cada 11 minutos uma mulher seja estuprada no Brasil.

– Porque uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência sexual ou física.

Foi por esta série de razões – e mais o protesto contra a política defendida por Donald Trump -, que milhões de mulheres foram às ruas no último sábado. Elas querem que de uma vez por todas, seus direitos e a igualdade de gêneros sejam respeitados.

Em Washington D.C., diversas celebridades subiram ao palco para apoiar a Marcha das Mulheres, entre elas, as cantoras Madonna e Alicia Keys e as atrizes Scarlett Johansson e Ashley Judd.

Ativista feminista, Ashley fez uma performance marcante ao ler e interpretar o poema “I am a nasty woman”, escrito por uma jovem de 19 anos, do Tennessee. O texto era uma crítica aberta a Donald Trump, ao seu discurso de ódio, ao seu comportamento desprezível em relação às mulheres, imigrantes e outras minorias.

Nina Donovan, a autora do poema, disse que o escreveu depois que Trump chamou Hillary Clinton de “nasty”. Em português, a palavra quer dizer desagradável, sórdida, nojenta, indecente.

“Primeiramente, quero que as mulheres acreditem em seu poder, sua beleza e sua força. As pessoas não podem ser tão perversas e aviltantes em relação às mulheres ou qualquer minoria ou raça. Se você não concorda com alguma coisa, sente e converse, não parta para o ataque imediatamente”, defende Nina.

Abaixo, você confere na íntegra o discurso, em inglês, de Ashley Judd na Marcha das Mulheres:


Leia também:
O estupro coletivo: até quando as mulheres serão subjugadas?
Blog Mulheres pelo Mundo
#ViajoSozinha: pelo fim da violência, discriminação e desrespeito às mulheres
O que você quer no Dia Internacional da Mulher?
Vidas refugiadas: exposição fotográfica retrata cotidiano de mulheres de diversas nacionalidades


Foto: divulgação Women’s March

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Deixe uma resposta