Por que fechar a torneira e apagar a luz podem ser péssimos para o clima?


Por Luciana Vicária*

Pesquisadores tentando compreender como as pessoas se comportam diante da crise climática acabam de chegar a uma conclusão importante e pra lá de inconveniente: famílias estimuladas a apresentar boas ações individuais pelo clima, como comer menos carne, apagar as luzes ou fechar a torneira, são também as menos propensas a apoiar ações governamentais, como a cobrança de taxas pela emissão de carbono.

Após comparar a proatividade climática de cidadãos japoneses e americanos, estudo publicado no periódico Nature Climate Change, em 12/6, concluiu que os cidadãos dos dois países têm comportamentos muito semelhantes, especialmente quando cobrados sobre suas ações de sustentabilidade em casa. De acordo com o especialista em comportamento político e autor da pesquisa, Seth H. Werfel, da Universidade Stanford, trata-se de uma mistura de relaxamento com sensação de dever individual cumprido. “Imagine aquela pessoa que passou horas na academia com um professor cobrando esforço e dedicação. Ela chega ao fim do dia e sente que pode tomar sua cervejinha sem culpa alguma”, diz.

Algo parecido aconteceu com parte dos 14 mil cidadãos japoneses afetados pelo desligamento da usina nuclear de Fukushima, após o megaterremoto de 2011. Para evitar um apagão, todos os entrevistados receberam orientações sobre como economizar água e energia, mas um grupo específico de famílias recebeu cobranças incisivas sobre suas práticas e feedbacks periódiocos sobre seu consumo de água e energia. O monitoramento constante permitiu que evoluíssem mais que o grupo orientado apenas uma vez e, em pouco tempo, se tornaram os campeões em economia de água e energia.

Mas, de alguma forma, esta cobrança surtiu efeito contrário quando o assunto foi o engajamento político. Os cidadãos mais ativos ambientalmente foram também os menos engajados em causas governamentais. Quando perguntados se estariam dispostos a apoiar o debate público sobre o tema, incluindo o aumento de impostos relacionados à emissão de gases de efeito estufa, revelaram engajamento de 12% a 14% menor do que o do grupo menos estimulado a colaborar.

Uma análise do comportamento dos entrevistados revelou três formas de compreender o que os cientistas chamam de teoria da exclusão. A primeira delas nos remete à máxima do “já fiz a minha parte, quem não fez que se mobilize”. Os cidadãos que se comportam seguindo esta lógica justificam que o engajamento familiar já exigiu tantos esforços que mobilizar novamente os familiares em uma ação pública de mitigação seria, na verdade, um exagero.

A segunda revela que a cobrança pelo esforço individual gerou uma falta de confiança na coletividade. Os resultados positivos dentro de casa criaram a falsa sensação de que as ações políticas teriam um efeito infinitamente menor para o meio ambiente e, por isso, não seria conveniente apoiá-las.

Uma terceira linha de raciocínio, igualmente perigosa, mostra que o efeito de aportar o indivíduo os fez concluir que não haveria muito mais a fazer pela sustentabilidade ambiental, uma vez que todo o progresso já teria sido feito. Logo, apoiar políticas de mitigação seria mais do que um excesso, uma atitude desnecessária e sem efeito.

“Temos de trabalhar para que as pessoas entendam que o comportamento doméstico e o apoio político são ações complementares, não excludentes”, disse Werfel. Segundo ele, o maior mérito de seu estudo é alertar para o cuidado na construção de um discurso coletivo quando o assunto são as mudanças climáticas, para que o resultado não seja o oposto do esperado. “Infelizmente todo esforço que fizermos não será o bastante para evitar os danos causados pela emissão excessiva de gases de efeito estufa”.

Este texto foi publicado originalmente no site do Observatório do Clima em 13/6/2017

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