Por mais parques, mais natureza e mais autoria na vida das crianças

O mundo está vivendo um aumento extraordinário e sem precedentes na urbanização: hoje, 54% da população mundial vive em áreas urbanas, uma proporção que se espera que venha a aumentar para 66% até 2050. Em tempos de rápida urbanização, apesar do corpo crescente de evidências mostrar que a natureza tem um papel crucial no combate ao declínio da saúde e do bem-estar das diferentes infâncias urbanas, as cidades continuam espremendo e afastando o mundo natural da rotina. 

A natureza é mais do que algo que promove bem-estar. É uma necessidade. O líder indígena Ailton Krenak nos lembra que é preciso coragem, disposição e resistência para sermos capazes de recriar a vida em outros termos, um desafio novo para a humanidade que está tão dissociada da natureza que esquece que nós, seres humanos, somos poros e células desse organismo que é a Terra. É urgente pensar em cidades como provedoras de ambientes que são mecanismos de biodiversidade, saúde e bem-estar.  

Um bom jeito de começar é reconhecer que os espaços públicos dedicados às infâncias, mais do que lúdicos, devem ser pensados como espaços de saúde que possibilitem o brincar e a interação com a natureza, onde as crianças se exercitam, se desenvolvem e criam uma relação afetiva com a cidade.

As crianças anseiam por aventuras. Udo Lange, diretor do Bagage, escritório de oficinas pedagógicas de Freiburg, Alemanha, faz uma provocação: por que não pensar a cidade como uma oportunidade para as crianças se aventurarem?

Recentemente, visitei um parque em Kiel, cidade ao norte da Alemanha, durante o tradicional festival de velas que anualmente acontece por lá. A secretaria de cultura contratou 23 oficinas com atividades “mão na massa” para as crianças, em que elas exercitam habilidades motoras, sensoriais e criativas. Todas as oficinas deveriam girar em torno de um único tema, “gelo eterno” e, ao final do festival, os trabalhos realizados deveriam compor o todo, com mobiliários e obras-primas que remetessem ao tema e que ficassem de legado para o parque urbano. 

A arte foi a linguagem escolhida para trazer a reflexão, de forma poética e nada alarmista, sobre conceitos e desafios relacionados ao aquecimento global. A estética pautou o tema. A prevalência da cor branca, cinza clara e azul cobriu esculturas feitas de lama, ou traçadas com fios de lã, que imitavam a fauna e a flora típicas das regiões geladas e remetiam também a aspectos dos povos tradicionais que habitam essas regiões.

Uma área do parque foi dedicada à interação com a lama. Em uma grande “piscina” vi crianças brincando e se sujando sem pudor, e outras construindo esculturas de animais enormes, como baleias, leões, marinhos, iglus etc. Me surpreendi com a atitude dos pais e mães, ao permitir que as crianças se sujassem, mesmo em um parque urbano.

No centro, estava uma marcenaria a céu aberto, que abraçava o fazer manual, e os riscos envolvidos nele, como um componente de aprendizagem e alegria para as crianças. Baldes com martelos e pregos, serrotes e tábuas estavam disponíveis para os pequenos construírem um barco enorme, que trazia no imaginário as grandes navegações. A confiança em suas habilidades motoras permitiu que meninos e meninas, a partir de 2 anos, manuseassem ferramentas reais, sem a supervisão direta dos artistas e educadores.

Não vi ali disputa por espaço. Vi crianças de diferentes idades dando formas a diferentes brinquedos, relacionando-se de maneira ativa com o espaço, exercitando sua liberdade e criatividade e tomando contato com conceitos e ideias socioambientais

Também chamou minha atenção a estética do espontâneo. Não havia preocupação com a simetria, ou com um padrão exato de junção de materiais ou, ainda, com uma combinação perfeita de cores. A liberdade de expressão era o mais importante. Através de uma arquitetura viva, as crianças participaram da construção de um mobiliário que trouxe uma perspectiva lúdica e orgânica, e que ficou como legado para a cidade que também pertence a esses pequenos cidadãos.

Esses parques urbanos trazem em seu DNA o uso de materiais naturais, a participação das crianças na construção do mobiliário lúdico e permanente e a oferta de oportunidades de atividades criativas que convidam à imaginação. São concepções eficientes de espaços públicos de baixo custo que dão vez e voz às crianças. Mais ainda: as convidam para construir uma cidade que lhes garanta o direito a brincar e exercer sua cidadania

Richard Louv, em seu chamado por um novo movimento ambiental, nos lembra que todo movimento – ou cultura – falha, se não for capaz de propor um futuro possível e otimista, onde todos queiram estar. Vamos começar a pensar, conversar e criar um futuro rico em natureza para as nossas crianças e jovens?

A seguir, algumas propostas de brinquedos que encontrei em minhas andanças por parques diversos e que me parecem bastante interessantes para atender a proposta deste artigo.

Fotos: Robert Collins/Unsplash (destaque) e Laís Fleury/Arquivo Pessoal

Laís Fleury

Mãe da Alícia e da Lia, é co-fundadora da Associação Vaga Lume, e reconhecida como empreendedora social pela Ashoka desde 2003. É coordenadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana, e pós-graduanda no tema "A vez e a voz das crianças: escuta antropológica e poética das infâncias"

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