“Políticos não vencem eleições se falarem a verdade sobre as mudanças climáticas”, diz jovem ativista, na COP24

Greta Thunberg é uma ativista pelo combate às mudanças climáticas

A sueca Greta Thunberg, fala baixo, com voz delicada. Mas suas palavras são fortes e esta menina, que parece mais jovem do que seus 15 anos, está causando uma revolução entre a juventude mundial. Ela foi a inspiração para que milhares de estudantes na Austrália e em outros lugares do mundo fizessem uma greve geral na sexta-feira (30/11) e fossem protestar nas ruas contra a inércia de seus governos em combater as mudanças climáticas.

Nesta semana, Greta foi uma das palestrantes na Conferência das Nações Unidas para o Clima, a COP24, que está sendo realizada na Polônia, e reúne representantes de mais de 190 países.

Desde agosto, a adolescente decidiu fazer uma greve em frente ao parlamento sueco, em Estocolmo. Seu protesto é pelo clima. Ela argumenta que seu país precisa fazer mais. O último verão foi o mais quente da Suécia, com incêndios florestais e os termômetros alcançando temperaturas que não eram registradas há 262 anos.

Para a menina, que sempre usa tranças no cabelo, ela tem uma responsabilidade moral em ser uma ativista pelo clima. E não é da boca para a fora. Desde que começou a se interessar pelo tema, ainda com 9 anos, Greta se tornou vegetariana e se nega a comprar qualquer coisa que não seja absolutamente necessária. A família instalou painéis solares em casa, tem sua própria horta e um carro elétrico, que sai da garagem apenas quando é extremamente indispensável. Em outras ocasiões, o meio de transporte preferido é a bicicleta.

Greta, assim como a irmã, é autista. Ambas foram diagnosticas com a síndrome de Asperger, uma forma mais branda do transtorno. O que faz de seu comportamento e de sua luta algo ainda mais inspirador, pois as pessoas com esta síndrome podem ter dificuldade em se comunicar e interagir com outras pessoas.

Greta, antes do seu discurso, na COP24

Em Katowice, sentada entre o secretário geral da ONU, António Gutierrez, e a secretária executiva para Mudanças Climáticas, Patricia Espinosa, a ativista sueca fez um discurso lindo e emocionante. Ela falou o que todos nós temos engasgado na garganta e o que todos os líderes e presidentes das principais nações do mundo deveriam ter vergonha de ouvir:

Por 25 anos, um número enorme de pessoas esteve aqui, diante da Conferência das Nações Unidas para o Clima, pedindo aos líderes de nossas nações que reduzissem as emissões. Mas claramente, isso não funcionou, já que as emissões continuam a crescer.

Então, eu não irei pedir a eles nada. Em vez disso, vou pedir à mídia que trate a crise como uma crise. Em vez disso, irei pedir as pessoas ao redor do mundo que percebam que nossos líderes políticos falharam. Porque enfrentamos uma ameaça existencial e não há tempo para continuar nesta estrada de loucura.

Países ricos, como a Suécia, precisam começar a reduzir as emissões em pelo menos 15% por ano para tentarmos atingir a meta de 2oC (estabelecida pelo Acordo de Paris).

Você deve pensar que a mídia e todos os nossos líderes deveriam estar falando sobre nada além disso – todavia, ninguém menciona o problema. Nem menciona que estamos no meio da sexta extinção em massa da Terra, com 200 espécies desaparecendo a cada dia.

E mais. Ninguém menciona a necessidade primordial de igualdade, em escala global, estabelecida no acordo do clima. Isso significa que países ricos, como o meu, têm que zerar suas emissões, para que pessoas em lugares mais pobres possam melhorar sua qualidade de vida e construir aquilo que nós já temos – hospitais, acesso à eletricidade e água potável.

Como podemos esperar que países como Índia, Colômbia ou Nigéria se preocupem com mudanças climáticas se nós, que já temos tudo, não nos importamos com os compromissos que fizemos no Acordo de Paris?

Então, quando minhas aulas começaram em agosto deste ano, eu decidi me sentar em frente ao Parlamento da Suécia. E fiz greve pelo clima. Algumas pessoas disseram que eu deveria estar na escola. Outros que eu deveria estudar e me tornar uma cientista do clima e desta maneira solucionar a “crise climática”.

Mas a crise climática já possui solução. Já temos todas as informações e dados. E por que eu deveria estudar para um futuro que, em breve, pode não existir, já que não há ninguém fazendo nada para salvar o futuro? E qual o sentindo em aprender novos fatos quando os mais importantes claramente não significam nada para nossa sociedade?

Atualmente utilizamos 100 milhões de barris de petróleo todos os dias. Não há política que mude isso. Não há regras para manter isso embaixo do solo. Então não podemos salvar o mundo seguindo essas regras. Porque elas precisam ser mudadas.

Não viemos aqui para implorar aos líderes mundiais que se preocupem com nosso futuro. Eles nos ignoraram no passado e irão nos ignorar novamente. Viemos até aqui para informá-los que a mudança está a caminho queiram eles ou não. As pessoas se unirão a este desafio. E já que nossos líderes se comportam como crianças, teremos que assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido há muito tempo”.  

Fotos: reprodução Twitter Greta Thunberg 

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Deixe uma resposta