“Políticas públicas sérias para mudanças climáticas precisam focar a construção civil”

construções sustentáveis combatem aquecimento global

A afirmação do título desta entrevista é de Arab Hoballah. Ele é diretor de Consumo Sustentável e Produção do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês).

Arab HOBALLAH-menorEconomista e cientista político, ele estará esta semana no Brasil para participar da Expo Arquitetura Sustentável, Feira Internacional de Construção, Reforma, Paisagismo e Decoração, que será realizada em São Paulo, entre 10 e 12/11.

Antes de chegar ao país, Hoballah conversou de Paris, por Skype, com o Conexão Planeta. Falou sobre a importância de investirmos em construções sustentáveis para reduzir o consumo de energia no planeta e combater o aquecimento global, e ainda, sobre como todos precisam estar envolvidos nesta mudança: governos, empresas e cidadão. 

Qual é a importância das construções sustentáveis no combate às mudanças climáticas?
É absolutamente essencial. Atualmente a construção civil consome 1/3 da energia gasta no planeta e é responsável também por 1/3 das emissões globais de CO2. Então se falamos sobre o impacto da construção no aquecimento global, é fundamental que foquemos em construções sustentáveis e eficiência energética. É necessário que qualquer novo edifício seja erguido seguindo padrões rígidos de consumo mínimo de energia. Hoje já existem os chamados passive buildings, passive houses (edifícios e casas passivas, em tradução livre), que consomem somente a energia produzida por eles mesmos. Do ponto de vista técnico, é absolutamente possível. Do político, é uma necessidade absoluta para qualquer país do mundo. Caso contrário, não haverá nenhuma política pública séria para mudanças climáticas nos países que não derem atenção real ao setor da construção civil.

Quando se fala sobre mudanças climáticas, o segmento de transportes é sempre o primeiro a ser citado. O peso da construção civil sobre o aquecimento global ainda é subestimado?
É subestimado, mas está se tornando mais importante. Por que se dá mais atenção ao setor de transportes? Muito simples. Você pode ver em São Paulo ou outras grandes cidades do mundo. Você pode ver a fumaça saindo dos carros, então a poluição é óbvia. As pessoas conseguem vê-la, assim como a daquela saindo da chaminé das fábricas. Mas se você falar para alguém “Olhe este edifício e veja como ele polui”, a resposta será “Mas do que você está falando?”. O problema então é de percepção. As pessoas não enxergam, não sentem o cheiro. Carros, caminhões e indústrias geram uma poluição bastante visível e que deixam a população doente. Então os políticos precisaram tomar ações para resolver esta questão.

É mais difícil criar políticas públicas para o setor da construção civil?
Certamente. Geralmente há um número limitado de atores e partes interessadas nos segmentos de transporte, por exemplo. Há a montadora, a pessoa que irá comprar o carro e o governo. Fica mais fácil implementar mecanismos para o setor. Mas quando falamos sobre construção, há muitos atores envolvidos. O responsável pelo empreendimento pode decidir investir em eficiência energética, mas ao longo do caminho, há arquitetos, engenheiros, compradores, locatários, governantes. Todos precisam estar cientes que a construção impacta tanto as mudanças climáticas quanto o transporte. Felizmente, isto vem mudando nos últimos cinco anos e em muitos países já existem Green Councils  (conselhos municipais ambientais). Na agenda da COP21, em Paris, haverá um dia para edificações verdes.

Por que o senhor acredita que mercados emergentes são cruciais para uma mudança no setor da construção?
Países emergentes como Brasil, México, China e Índia terão impacto imenso sobre a construção civil com a ascensão da classe média. Muitas pessoas terão melhor renda e vão querer morar em casas maiores. Elas também vão consumir mais do que as outras faixas da população. A classe média será tão importante que se não houver direcionamento certo, toda a economia sofrerá com isto. Na minha opinião, esta classe começará a comprar um, dois, três carros, apartamentos. Ela terá papel crucial em determinar se a economia trilhará um rumo positivo ou negativo. Para tal,  será necessário haver uma legislação eficiente, instrumentos de mercado adequados para encorajar as pessoas a fazer as escolhas corretas.

Certificações são fundamentais para estimular a construção de mais edifícios sustentáveis?
Certificações são esssenciais não somente para as construções, mas para as marcas e indústrias de produtos sustentáveis. Elas impõem regras e regulamentações. Mas se olharmos para uma cidade como São Paulo, por exemplo, que é maior do que alguns países, só encontraremos prédios certificados em sedes de bancos, grandes companhias. A maioria das casas, universidades e edifícios do governo não são certificadas. Então, certificação é essencial, todavia, o mais importante é que seja amplamente implementada. Há de ser uma política séria, e para tal, devem ser criados subsídios e financiamentos especiais para que a população tenha meios para fazê-lo. Todos precisam entender que ao ter uma construção verde próxima, as pessoas vão ficar menos doentes, haverá mais luz natural, ar mais puro, que a água consumida será reciclada e a economia com energia será aplicada em determinado setor. É preciso que as pessoas sejam informadas destes benefícios para que os edifícios verdes se tornem populares e fáceis de construir.

Dependemos somente de mudanças na legislação para alavancar o setor?
Se queremos mudar a maneira como os prédios são construídos, precisamos de você e eu, o engenheiro e o arquiteto, o dono da construtora e o governo. Por isso é tão complicado. Quando você compra um café certificado, ele custa US$ 2 e você tem uma escolha. Mas quando se trata de um edifício, estamos falando de milhões de dólares. A escolha não é tão fácil quanto a de comprar uma xícara de café. Precisamos da legislação para que as regras da construção de prédios verdes sejam respeitadas. Mas impor uma legislação não será eficaz se o sistema financeiro não oferecer auxílio para aqueles que querem erguer um prédio sustentável, mas não possuem condições para fazê-lo. A população precisa saber que aquele apartamento é 10% mais caro, mas daqui a dois ou três anos a economia gerada pela conta de eletricidade valerá o investimento. O mercado também deverá estar preparado para fornecer matéria-prima e produtos para aquele tipo de construção.

Governos devem estimular e dar subsídios à empresas e pessoas que investem em construções sustentáveis (telhados verdes, paineis solares) ou desenvolvimento de matéria-prima reciclável?
Governos têm dois papéis fundamentais: o primeiro deles, se o governo é sério, é dar o exemplo. Isso quer dizer, prédios dos ministérios, escolas, universidades e hospitais públicos, devem implantar medidas de eficiência energética. Eles devem sinalizar às pessoas que o governo está comprometido com a mudança para consumir menos energia, água, etc. O segundo papel do governo é fornecer incentivos – se você investir em um sistema de ar-condicionado que use menos eletricidade deve receber redução de impostos. Isso já acontece na França. Se o morador investe em algo para diminuir o gasto de energia, ele ganha desconto no imposto. Em outros lugares da Europa, assim como no Japão e Xangai, este tipo de estímulo já foi implementado.

Além de reduzir o consumo de energia, construções sustentáveis economizam água e melhoram a qualidade de vida de seus moradores. Como fazer com que mais pessoas tenham acesso a este tipo de informação?
Usamos o nome “edifícios verdes” porque é o mais usado e de melhor compreensão. Mas eu e minha equipe só nos referimos a eles como “edifícios sustentáveis”. A redução no consumo de energia é mais conhecida e evidente porque ela aparece primeiramente e de forma mais significativa. Mas há uma série de outros benefícios. Pesquisas comprovam que quando as crianças têm mais exposição à luz natural, através de janelas maiores, a concentração delas aumenta. Para que todos estes benefícios sejam de conhecimento público, necessitamos de educação. Educação para os responsáveis pelas políticas públicas, para empresas de construção, mas também para os consumidores. A informação tem que estar acessível a todos.

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Foto: domínio público/pixabay

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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