Poderia a mão visível do mercado resolver o impasse das mudanças climáticas?

iceberg como símbolo das mudanças climáticas

São muito poucos os economistas brasileiros que se dedicam a entender as mudanças climáticas com uma visão genuinamente ambientalista. E, entre esses, conta-se nos dedos de uma só mão aqueles capazes de se comunicar de maneira clara e empática com o público. Sérgio Besserman Vianna, ex-diretor do BNDES e ex-presidente do IBGE, é uma dessas aves raras.

Palestrante habilidoso, Besserman ri de si mesmo e de sua calva, explicando que quase todos os economistas são carecas porque vivem dando tapinhas na própria cabeça a cada vez que admitem seus erros. Conta isso com uma voz muito familiar, parecida com a de seu falecido irmão, Claudio Besserman Vianna, o Bussunda, fundador da Casseta e Planeta e dublador do personagem Shrek.

Sérgio já fez parte da delegação diplomática brasileira em convenções do clima, foi um dos organizadores da Rio+20 e hoje, na presidência do Instituto Pereira Passos (IPP), no Rio de Janeiro, coordena a implantação de um dos mais ambiciosos planos que uma grande cidade brasileira já preparou para se tornar mais adaptada ao aquecimento global. Besserman critica a inércia de países, empresas e cidades diante desses desafios, mas tem uma visão otimista quanto ao papel que o mercado pode vir a ter como condutor de de uma virada na direção de uma economia de baixo carbono.

A seguir os principais trechos de sua entrevista ao blog CLIMA21, às vésperas da COP 21.

Em que condições estamos chegando à convenção do Clima? O que é possível conseguir?
Como não fizemos nada, já ‘contratamos’ 2 graus Celsius. Isso já implica em muito custo, muito sofrimento, muitas vidas, mas ainda há motivo para acreditar que, embora seja impossível evitar, ainda dará para lidar. Para que fique nos 2 graus contratados — o que eu, pessoalmente, já não acredito ser possível —, haverá de ter uma extraordinária transformação, não só de tecnologia, mas de tudo, o modo de organização da sociedade, o modo de consumo e assim por diante. A chance de ficar perto de dois graus depende de fazer todas essas coisas rapidamente.

E ainda dá tempo?
É um período muito curto para passar da civilização dos combustíveis fósseis para a economia de baixo carbono. Se isso não ocorrer, ainda num cenário no meio do caminho entre os dois graus e o ‘business as usual’, digamos que a gente consiga 3 graus, isso já é muito perigoso não por algo que a gente saiba, mas justamente por aquilo que a gente não sabe. Mais do que dois graus é um limiar para que o clima comece a apresentar comportamentos muito imprevisíveis. Portanto, tornando muito custosa a reação e a adaptação. Então, se um cenário de 2 graus de aquecimento já é algo como fazer uma curva a 100 quilômetros por hora, com aquela ribanceira ali próxima, fazer essa curva a 3 graus já é muito mais arriscado, com uma velocidade 50% maior. Já estamos na fronteira critica. Já perdemos a chance de fazer um bom negócio.

O que seria um bom negócio nesse caso?
Um bom negócio é assim: o que é mais barato? Despoluir a Baía da Guanabara ou não ter poluído a Baía da Guanabara? Muito mais barato é não ter poluído. Essa chance a gente já perdeu. Já temos 2 graus Celsius. Estamos no limiar do perigo e da imprevisibilidade. E agora temos, nas próximas duas ou três décadas, começando anteontem, o desafio de ficar o mais perto possível desses dois graus. Pessoalmente não acredito que consigamos ficar em dois graus. Mas quanto mais perto, melhor.

Qual é a mensagem mais importante agora?
Já nos atrasamos demais. A mensagem a passar agora ficou mais complexa, porque será preciso fazer mitigação e adaptação ao mesmo tempo. Não dá mais pra evitar um monte de problemas, nem pra evitar gastar esse monte de dinheiro ao mesmo tempo. E para ficar perto dos dois graus Celsius, onde já ocorrerão muitas coisas, as próximas duas ou três décadas são decisivas. Se continuarmos com uma capacidade de reação muito lenta, por falta de governança global, por falta de capacidade da humanidade de pensar em um prazo um pouquinho, só um pouquinho, mais longo, se a inércia continuar, nós vamos nos aproximar de temperaturas cada vez mais elevadas. Não será o fim do planeta, nem da civilização, nem de nada disso, mas será uma garantia de eventos muito caóticos. Guerras, genocídios, migrações em proporção que farão com que o que está conhecendo hoje na Europa pareça uma brincadeira de criança, uma brincadeira perto do que vai acontecer. E tudo isso não é nenhuma especulação. É ciência robusta,.

O que a ciência prevê?
Veja a previsão do fundo de população das Nações Unidas (United Nations Population Fund ou UNFPA). Não é nenhuma organização climática, é uma organização de demógrafos que trabalha pra ONU. Pois eles prevêem, no cenário mais otimista, ou seja, aquele que já vai acontecer de qualquer jeito, aquecimento de 2 graus Celsius, que em 2050, daqui a 35 anos, haverá 255 milhões de refugiados ambientais.

Isso seria quatro vezes o número atual de refugiados em todo o mundo, que é calculado em aproximadamente 60 milhões de pessoas.
A diferença é que a maior parte dos refugiados hoje se desloca dentro dos próprios países, enquanto os refugiados ambientais, em sua maioria, tentarão ir para outros países, porque o impacto do clima vai causar isso. A própria guerra na Síria tem a ver com a seca. Se a seca tem a ver com aquecimento global ou não, é uma outra discussão. Não podemos garantir que o evento da estiagem em si foi causado pelas mudanças climáticas. Mas podemos garantir que se o planeta já não estivesse 0,8 graus mais quente esse seria um evento muito menos extremo.

E o que se pode esperar da COP 21?
Quanto a COP teremos de ser meio zen-budistas. Eles terãoo de se esforçar para as contribuições nacionais chegarem ao nível necessário. Se isso não ocorrer em Paris, será o fracasso de Paris. Se a soma total das contribuições nacionais não juntar toda a quantidade de carbono equivalente necessária para que a gente tenha a aspiração de ficar perto de 2 graus Celsius, será um fracasso absoluto da COP. Isso terá de ser reconhecido e a tarefa terá de ser jogada para 2016 e os países terão de aumentar suas contribuições nacionais. E se não conseguirem em 2016, terão de conseguir em 2017, porque tudo tem que ser implementado a partir de 2020.

Os países precisariam praticamente dobrar os dobrar os compromissos nacionais para chegar perto dos 2 graus. Na sua opinião, se a convenção do clima não chegar a esse ponto será um fracasso?
Dobrar o compromisso conjunto que se tem até agora não é uma garantia de sucesso da COP. Por isso falei que tem que ser zen-budista. Isso significa um sucesso parcial. De um lado estão ali as contribuições prometendo, se conseguir dobrar, que o volume seja suficiente para chegar a 2 graus Celsius. Mas como não tem nenhuma obrigação legal, como não há um sistema de governança global que dê conta não só desse assunto como de assunto nenhum, nem Estado Islâmico, nem Síria, nem Grécia, nem as finanças internacionais, nem absolutamente nada, o fato de os países terem se comprometido com essas contribuições — e ainda por cima no médio e longo prazo, ou seja, não serão essas mesmas autoridades que terão de prestar contas —, é um arranjo frágil demais ainda. Então, mesmo que dobrem as contribuições nacionais, a governança global continuará sendo merecedora de críticas porque não há garantias. O setor privado não faz negócios sem garantias, jurídicas, ou o que for. E aqui estaremos fazendo o negócio mais importante de toda a humanidade, e sem garantias. Existem apenas promessas.

O senhor não enxerga alguma possibilidade de superar esse impasse?
As grandes companhias globais e também uma grande parte do mercado em geral, mercado global, alguns setores mais do que outros, podem ser importantes condutores de uma mudança importante. O mercado, a partir da conferência de Paris, caso ela consiga dobrar os compromissos e apresentar êxito pelo menos nesse aspecto, já estará recebendo a sinalização de que o caminho para uma economia de baixo carbono é inevitável. Ele pode se atrasar agora — e com isso terá de se acelerar mais à frente — mas este terá que ocorrer e aí o mercado começa a ter uma dinâmica própria, a precificar carbono de maneiras parciais, mas o mercado começará a receber um sinal dos preços. O mercado funciona de acordo com o sinal do preços. E pode ser que tudo se acelere com as inovações tecnológicas, as oportunidades que o mercado verá nisso e, principalmente, com os riscos que o mercado verá nisso. Por exemplo, existe a possibilidade de um setor muito carbono intensivo simplesmente desaparecer. Na hora em que o caminho se acelerar é possível que o mercado revele uma dinâmica que volte a despertar algum otimismo. O mercado pode atropelar isso tudo na medida que ele entender que é inevitável.

A solução, então, pode estar na mão peluda e visível do mercado?
A mão visível, peluda e sabedora de que uma bomba atômica cairá sobre a estrutura geral de preços relativos na economia de mercado global. Ela vai mudar completamente, na hora em que o carbono for, aos poucos, sendo precificado. Assimetricamente que seja, mas o carbono vai sendo precificado, vai entrando em todos os preços. Se todo mundo (empresas, países, cidades, materiais) tivesse a mesma intensidade de carbono seria o mesmo problema pra todo mundo e as coisas não mudariam tanto em termos de competitividade. Mas como a intensidade de carbono é completamente assimétrica — a matriz energética da China é uma e a do Brasil é outra; o alumínio gasta tanto de energia e o outro material gasta tanto; as fontes fósseis gastam tanto de carbono, vai ficar muito mais caro e as fontes renováveis vão ficar muito mais competitivas porque não vão ter o preço do carbono adicionado. Então, tudo isso vai mudar. Quem calcula a taxa de retorno hoje, para projetos de 30, 40, 50 anos, está produzindo uma ficção. E o mercado está começando as sentir muito essa incerteza e está até preferindo dizer ‘ok, precifica isso logo de uma vez, pra eu pelo menos saber qual é o meu horizonte de investimento’. A resposta do mercado não só é um dos principais condutores para a descarbonização da economia, como pode ser o componente que vai acelerar tudo.


*Este texto foi originalmente publicado no blog Clima 21 do canal de Sustentabilidade do Estado Online, no dia 17/11/2015

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Foto: domínio público/pixabay

Caco de Paula é jornalista, criador do Planeta Sustentável e coautor do gibi Heróis do Clima. Foi diretor da edição brasileira da revista National Geographic e presidente do Global Compact no Brasil. Organizou e dirige a agência AUÁ Brasil, dedicada a reunir talentos, prestar consultoria e implantar projetos de comunicação e sustentabilidade. Escreve o blog CLIMA21 no site do jornal O Estado de São Paulo

Caco de Paula, Blog Clima21 - Estadão Online

Caco de Paula é jornalista, criador do Planeta Sustentável e coautor do gibi Heróis do Clima. Foi diretor da edição brasileira da revista National Geographic e presidente do Global Compact no Brasil. Organizou e dirige a agência AUÁ Brasil, dedicada a reunir talentos, prestar consultoria e implantar projetos de comunicação e sustentabilidade. Escreve o blog CLIMA21 no site do jornal O Estado de São Paulo

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