Pobreza cresce 11%, renda média das mulheres cai e Brasil sobe no ranking mundial da desigualdade

A Oxfam Brasil revela que, depois de um período de queda iniciado em 2002, a desigualdade aumentou em 2016 e manteve esse quadro no ano passado, quando a quantidade de pessoas pobres registrou crescimento de 11% e, pela primeira vez, em 23 anos, a renda média das mulheres caiu em relação à dos homens.

Motivos? Recessão, aumento do desemprego e crise financeira do governo que impede investimentos em projetos sociais e em políticas públicas para os mais pobres.

Resultado: o país subiu um ponto no ranking mundial de desigualdade de renda, elaborado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento da ONU), passando de 10º para 9º país mais desigual do mundo, numa lista de 189.

Este é o resumo do relatório País estagnado: um retrato das desigualdades brasileirasque a ONG divulgou esta semana, com base em números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Teto de gastos e tributação na mira do estudo

Em comparação com 2016 e considerando os dados do Banco Mundial (pobre é quem tem renda de até US$ 1,9 ou R$ 7,30 por dia), a quantidade de pessoas pobres cresceu no ano passado, somando 15 milhões ou 7,2% dos brasileiros. Esse cenário ainda trouxe aumento no índice da mortalidade infantil e é fruto da crise socioeconômica e política que se iniciou em 2014, com o impeachment da presidente Dilma Roussef, quando o governo passou para as mãos de Michel Temer.

Com ele, veio o “teto de gastos” que, para a Oxfam, foi uma “medida extrema”, que contribuiu muito para piorar a realidade. O governo se empenhou em cortar custos, mas optou por um caminho cruel para boa parte da população: criou a emenda constitucional 95, que corta despesas públicas por 20 anos, acachapando áreas nevrálgicas como saúde e educação. Justamente aquelas em que não se deveria mexer. Medida cruel e imoral, na verdade, principalmente quando sabemos, pelos noticiários, que, esta semana, o mesmo Temer sancionou aumento para os ministros do Judiciário, que vão custar cerca de R$ 4 bilhões de despesas adicionais aos cofres públicos.

Para evitar que a desigualdade atual se aprofunde e comprometa ainda mais a liberação de recursos para as áreas sociais, a Oxfam propõe que o governo revogue o “teto de gastos”. Isso pode acontecer também graças à dinâmica causada pela medida, que promove a competição entre despesas sociais, ao mesmo tempo em que a população cresce e envelhece e, portanto, exige mais investimentos do governo.

Outra medida que o estudo sugere é o aumento da tributação sobre renda e patrimônio – com a criação de novas faixas e alíquotas no Imposto de Renda dos mais ricos – e a redução de impostos e serviços, que oneram demais o setor produtivo e penalizam justamente as classes pobre e média. Também propõe um combate mais agressivo da sonegação fiscal e o restabelecimento das tributação de lucros e dividendos de forma progressiva.

A renda média das mulheres – especialmente das negras – é outra questão importante a combater já, mesmo que essa situação não tenha alterado os índices do Gini (instrumento utilizado pela Oxfam em seu estudo, que mede o grau de concentração de renda em determinado grupo, apontando diferenças entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos). Em 2017, as mulheres receberam 70% dos rendimentos dos homens; em 2016, foi 72%. Foi o primeiro recuo em 23 anos, de acordo com o Pnad, por isso é digno de nota. Já os negros, que ganhavam 57% dos rendimentos médios dos brancos em 2016, receberam 53% em 2017.

Ou seja, a renda dos homens e da população branca continua sendo privilegiada.

Além de denunciar a realidade dos menos favorecidos em todas as esferas – econômica, social, cultural… -, o estudo da Oxfam deixa claro que a vida dessa parte da população brasileira piorou muito com a entrada de Temer no governo. E, a julgar por tudo que temos ouvido sobre o próximo – a cada dia, uma notícia mais surreal que a outra e o aceno de retrocessos inacreditáveis como o cerceamento da liberdade de expressão, o favorecimento de bancos e dos mais ricos etc -, a tendência é piorar.

Esse não será um governo para o povo, mas para a elite que, ao contrário do que se diz, em geral, representa a minoria do país. Foi a minoria que voltou nele: 38% dos brasileiros. Resta à sociedade – a maioria que não escolheu Jair Bolsonaro – transformar este momento numa oportunidade para que, independe desse governo, a inclusão e a igualdade prevaleçam e que possamos criar um país com base na verdadeira justiça, na democracia e na sustentabilidade ampla, geral e irrestrita.

Foto: Ben White/Unsplash

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “Pobreza cresce 11%, renda média das mulheres cai e Brasil sobe no ranking mundial da desigualdade

  • 28 de novembro de 2018 em 3:16 PM
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    Lamentável que o Brasil esteja se destacando por causa de índices nem um pouco recomendáveis, em matéria de ética ambiental e distribuição de renda. Continuará havendo pobreza e miséria enquanto priorizarmos o consumo desnecessário e o culto ao supérfluo, começando pela Mídia consumista e ávida de gastadores inveterados que incentiva escandalosamente os incautos para adquirem produtos que querem mas não precisam, enquanto o mundo morre de fome lá fora, por falta do que esbanjadores jogaram no lixo. Deveria ser proibida a ênfase dos comerciais enlouquecidos conclamando compradores sem noção para a “compra inadiável” de final de ano, com ofertas “imperdíveis” e “promoções jamais vistas” numa época de crise mundial, de desemprego, falta de moradia, com atendimento médico deficiente e/ou ausente, isso sim, a prioridade consciente e o foco racional que deveriam nortear qualquer tipo de anúncio e propaganda, antes de sua veiculação. Deveria ser proibida a propaganda de uma mesa farta, porque o pobre desempregado que a está assistindo em casa ficará mais desesperado do que estava e a criança que vê na TV o brinquedo que o pai não pode dar, ficará mais triste do que era. Natal deveria ser a época em que a miséria não fosse tão evidente, a desigualdade não fosse tão ululante e o contraste não gritasse tanto nos ouvidos do miserável, sempre que olha nas vitrines iluminadas tudo o que não tem e não terá no Natal nem sempre.

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