Plástico é tema da 9a. Mostra SP de Fotografia, até 4 de agosto

Como acontece desde 2011, galerias, bares, restaurantes, docerias, lojas, escolas, escritórios de arte, além de tapumes e muros do bairro da Vila Madalena, em São Paulo, se rendem à fotografia. Mas esta é a primeira vez que a Mostra SP de Fotografia – em sua nona edição – terá uma causa como fio condutor: o plástico.

Fernando Costa Netto, diretor da DOC Galeria e idealizador do projeto, conta que os números do impacto do plástico no meio ambiente o impressionaram tanto que envolver a fotografia brasileira nesse tema aconteceu de forma natural.

“Em 2019, colocamos essa causa para guiar o nosso trabalho. As quase 30 exposições, mesas de conversas e outras atividades têm foco nesse problemão. O plástico descartável tornou-se uma mercadoria delinquente que precisa ser acompanhada, controlada e combatida. Ao mesmo tempo que mata, é disponibilizada nas prateleiras em embalagens cheias de design, mensagens fofas, divertidas, inteligentes. Vamos seguir usando os nossos canais para pressionar as empresas e denunciar”, ressalta Netto.

Eduardo Leal

Assim, de 3 de julho a 4 de agosto, 27 exposições apresentam as imagens selecionadas a partir de uma convocatória e de extensa pesquisa dos curadores – as fotógrafas Ivana Debértolis e Mônica Maia, além de Fernando -, além de dados que provocarão muitas reflexões sobre o consumo irresponsável de plástico e o impacto de seu descarte na vida no planeta.

Entre os fotógrafos convidados estão profissionais que também usam seus talentos como instrumentos de denúncia: Alê Ruaro, Andréa Barreiro, Apu Gomes, Barbara Veiga, Cássio Vasconcellos, Coletivo Rolê, Cris Veit, Diego Nigro, Doug Monteiro, Eduardo Leal, Família Schürman, Henrique Tarricone, Justin Hofman/National Geographic, Kátia Carvalho, Levi Bianco, Luciano Candisani, Luisa Dörr (foto de destaque deste post), Luiza Sampaio, Marcos Piffer, Michele Roth, Nathalie Bohm, Raphael Alves, Renato Negrão, Renato Stockler, Rodrigo Koraicho, Rodrigo Tomzhinsky/FAS e Yan Boechat. Neste texto, é possível apreciar algumas imagens desta curadoria.

Marcus Piffer

Para complementar as reflexões fotográficas, a Mostra ainda tem uma programação paralela com um ciclo de seis conversas organizado pela jornalista ambiental Paulina Chamorro. Uma caminhada ecológica pelas ruas do bairro com a dupla da iniciativa Rios e Ruas: o arquiteto José Bueno e o geógrafo Luiz Campos Jr. complementará uma das conversas. A programação está no final deste post.

“Estamos vivendo um sistema de produção e descarte insano e não sustentável. Mais de 40% de todo o plástico produzido durante 150 anos foi usado uma única vez antes do descarte. São produzidas um milhão de garrafas plásticas por minuto, por exemplo. Cerca de 80% do lixo nos rios e mares têm origem nas cidades e correspondem ao lixo que não é coletado ou que não tem o destino correto. Ou seja, este é um debate urbano. Precisamos discutir circularidade, o consumo, a responsabilidade de todos”, diz Chamorro.

O ciclo de conversas tem apoio institucional do programa Mares Limpos, da ONU Meio Ambiente, do WWF-Brasil, do Instituto Ecosurf, da FAS (Fundação Amazônia Sustentável), da Liga das Mulheres pelos Oceanos e da Grin.

Justin Hoffman, National Geographic

Outra novidade importante desta edição, que vem com o tema, é a assinatura de uma carta-compromissoresultado da parceria entre a ONU Meio Ambiente e a Mostra SP de Fotografia – pelos proprietários dos estabelecimentos do bairro onde acontecerá o evento: o Compromisso por Mares Limpos.

A ideia é incentivar a adoção de práticas sustentáveis no comércio local, de forma que o uso do plástico seja repensado e os estabelecimentos busquem opções sustentáveis: ou seja, deixem de consumir e oferecer canudos, copos, sacolas e embalagens descartáveis, feitos nesse material. A partir da adesão a esse compromisso, o objetivo é transformar a Vila Madalena em um bairro livre de plástico, em uma ação inédita no Brasil.

Marcus Piffer

Uma mostra de fotografia diferente

Para apresentar a 9a. Mostra SP de Fotografia, Fernando Costa Netto escreveu um texto muito bacana que reproduzo, aqui, para deleite dos leitores. Nele estão informações e reflexões interessantes que balizam todo o trabalho realizado nesta edição. Vale muito a leitura.

Apu Gomes

Duas pesquisas – uma inglesa, outra austríaca – apontam que o organismo humano já apresenta traços de plástico no sangue. Ele invade o nosso corpo pela cadeia alimentar e pelos resíduos que se desprendem das embalagens, especialmente as de água, refrigerantes e sucos. As consequências em longo prazo e o que isso significa saberemos lá na frente.

Outra informação relevante mostra que o microplástico, além de já ter contaminado os oceanos, também alcançou pontos improváveis do planeta, como os Pirineus, montanhas isoladas a 1.500 metros de altitude entre França e Espanha, quilômetros do povoado mais próximo. E pior, em doses semelhantes às das grandes cidades.

Um terceiro dado que está mais para roteiro de filme de ficção tem como cenário o Oceano Pacífico. Há algumas semanas, uma expedição americana ao fundo do mar, às águas mais profundas já visitadas pelo homem, avistou sacolas e embalagens de balas a 11 mil quilômetros da superfície. Flutuavam desrespeitosamente avizinhadas a peixes de profundezas e outros seres que nem sequer conhecemos. Os dados da invasão plástica do planeta são alarmantes.

Michele Roth

Esta Mostra traz mais uma vez para a Vila Madalena imagens e dados que merecem reflexão. Mas, desta vez, voltados para uma causa, a do lixo plástico. Um dos trabalhos que mais chama a atenção é sobre o lixo internacional. Garrafas PET, embalagens de suco e desinfetante, um pote de sopa e outros cadáveres plásticos que vieram de países como Japão, EUA, Jordânia, Senegal, Malásia repousavam da longa jornada à deriva nas areias das praias de fora de Fernando de Noronha. Não saberemos nunca se vieram com as correntes de seus países de origem ou se foram descartados de embarcações em alto-mar. Mas estavam lá, para permanecerem no nosso território por, pelo menos, 400 anos.

As empresas mais poluidoras do mundo têm nome, endereço e são grandes conhecidas de todos nós. Estão à disposição via Google. São grupos econômicos responsáveis por mortes em larga escala e a destruição acelerada do planeta. Para se ter ideia da gravidade, só no Brasil, quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, são 2 milhões e meio de toneladas jogadas nos 8 mil quilômetros de costa todos os anos, e só pouco mais de 1% desse material é reciclado, de acordo com o WWF-Brasil.

O poder da indústria ainda é muito forte, mas o monitoramento das organizações apoiadoras deste evento, como a ONU Meio Ambiente, WWF e FAS (Fundação Amazonas Sustentável), alerta: ou mudamos o hábito ou as cidades e mananciais em breve estarão esgotados. Afirmação desoladora é a de que em dez anos a expectativa da indústria é dobrar a atual produção.

Luiza Sampaio

Em 2019, colocamos essa causa para guiar o nosso trabalho. As quase 30 exposições, mesas de conversas e outras atividades têm foco nesse problemão. O plástico descartável tornou-se uma mercadoria delinquente que precisa ser acompanhada, controlada e combatida. Ao mesmo tempo que mata, é disponibilizada nas prateleiras em embalagens cheias de design, mensagens fofas, divertidas, inteligentes.

Para nós, é um privilégio promover este debate, tão urgente quanto inédito em uma Mostra Nacional de Fotografia”.

O ciclo de conversas

São seis encontros em lugares diferentes – alguns ainda a definir -, que detalho, a seguir, pra você se agendar.

Diego Nigro

PARAÍSOS PLASTIFICADOS
Fernando de Noronha vista pela lupa do lixo plástico revela que nem mesmo os paraísos naturais estão livres dele.
Data: 5 de julho / Local: Civi.Co
Convidados: Michele Roth, Luiza Sampaio e Doug Monteiro (fotógrafos ativistas de Fernando de Noronha)

VOZ DOS OCEANOS 
A nova aventura da Família Schurmann, que há mais de três décadas viaja pelos mares do mundo.
Data: 10 de julho / Local: Civi.Co
Convidados: Família Schurmann
Leia Familia Schurmann encontra (e recolhe) lixo em praia deserta no Oceano Pacífico

RIOS – ESPELHOS DA SOCIEDADE BRASILEIRA 
Assim como os mares, os rios brasileiros estão marcados pela contaminação plástica. Nesta mesa, vamos ouvir o ativista Eduardo Srur sobre outras formas de abordar o tema, o fotógrafo Carlos Alkmim e seu olhar para os rios paulistas, além das ONGs que trabalham diretamente com rios no Brasil: SOS Mata Atlântica, que há décadas tem o projeto Rede das Águas, e FAS (Fundação Amazonas Sustentável), que participa da campanha Mares Limpos com o projeto fotográfico Rios Limpos, da ONU Meio Ambiente.
Data:12 de julho / Local: a definir
Convidados: Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica; Eduardo Srur; FAZ; Carlos Alkim, fotógrafo 

CAMINHADA RIOS E RUAS 
Um passeio ao longo do leito do Rio Verde, que corta a Vila Madalena sob o asfalto, promove o reconhecimento da cidade, conscientiza e aguça a imaginação. A caminhada será conduzida pelos especialistas em hidrografia paulista, José Bueno, arquiteto, e o geógrafo Luiz de Campos Júnior, pelos curadores Paulina Chamorro e Fernando Costa Netto. 
Data: 13 de julho, a partir das 10h30 / Local de encontro: Bar do Beco, R. Aspicuelta, 17
Leia: Rios Re.Descobertos: os rios ocultos de São Paulo em exposição lúdica

Alê Ruaro

PRAIAS E O PLÁSTICO – UMA CHAMADA PARA AÇÃO 
Itens plásticos são os principais objetos encontrados em mutirões de limpeza de praias pelo mundo. No Brasil, não é diferente. Nessa mesa, vamos conhecer a campanha global da ONU Meio Ambiente, Mares Limpos, e do Instituto Ecosurf, um dos mais reconhecidos projetos de limpeza de praia do país.
Data: 20 de julho / Local: a definir
Convidados: João Malavolta, da Ecosurf; representante da campanha Mares Limpos, da ONU Meio Ambiente; Gabriela Otero, representante Abrelpe; Representante ABRE – Associação de Embalagens
Leia:

ECONOMIA CIRCULAR E OUTRAS SOLUÇÕES PARA AS CIDADES
Trabalhar com soluções frente ao problema do lixo plástico nas cidades passa pela economia circular. Vamos conhecer a origem dessa nova forma de pensar resíduos e de que forma São Paulo está enfrentando o problema.
Data: 18 de julho / Local: EBAC
Convidados: Guilherme Brammer, da Boomera; Daniela Lerario, da Triciclos, Thaide, artista

PLÁSTICO PELO MUNDO 
O WWF-Brasil apresenta os dados do seu principal relatório sobre o plástico no mundo e uma conversa entre a jornalista Paulina Chamorro e o premiado fotógrafo da National Geographic Luciano Candisani.
Data: 25 de julho / Local: EBAC
Convidada: Anna Carolina Lobo, gerente do programa Mata Atlântica & Marinho do WWF-Brasil.

Luísa Dorr

Onde ver as imagens selecionadas

Estes são os endereços da Vila Madalena que aderiram à Mostra SP de Fotografia:

Floricultura A Bela do Dia, sorveteria Pinguina, restaurante Banana Verde, lojas Arteira, basico.com, Fernanda Yamamoto, Flávia Aranha, Juliana Bicudo, Prototype e Uma, mercado Casa Orgânico, mecânica Tório, livraria Casa Plana, espaços Civi-co, Chá de Rabiscos e Casulo Colab, Ecoótica, doceria Bolo da Madre, Centro Articular, bares Bar do Beco e Cazu, DOC Galeria, EBAC – Escola Britânica de Artes Criativas, entre outros espaços como tapumes e muros.

Levi Bianco

Fotos: Divulgação (os créditos dos autores estão indicados nas fotos)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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