Planta ou mato?

Planta ou mato?

Recentemente nos perguntaram sobre a diferença em usar a nomenclatura planta ou mato. Uma pergunta simples, mas que pode nos levar a muita reflexão. Planta é planta, não tem muito o que explicar, pois nesse contexto estaremos sempre nos referindo a espécimes vegetais (e não à planta de uma casa ou a planta do pé…!!!).

Já a palavra mato é carregada de significados. Usualmente nos referimos a mato de forma pejorativa, significando terreno que não foi cuidado e onde cresceram plantas espontâneas. O mato é o lugar “desocupado”, esperando por ser transformado em uma construção, na cidade. Não estamos acostumados a pensar em mato como um terreno que está ocupado por plantas, que se expressaram espontaneamente, sem o envolvimento direto de um ser humano, e que estão seguindo seu fluxo natural: algumas sementes vieram trazidas pelo vento, outras pelas fezes de animais, outras ainda estavam dormentes naquele solo, antes da ocupação humana. Porque a Terra vive esse fluxo incessante desde sua formação. Nossa chegada é que é recente.

A relação que a maioria das pessoas tem com o mato reflete o modo de pensar da nossa sociedade, que separa natureza e cultura, o dentro e o fora, o bem e o mal, a luz e a sombra, o feminino e o masculino, o introvertido e o extrovertido. Na natureza tudo está integrado; essa separação é própria do tempo e do tipo de sociedade em que vivemos. Para nós, mato é a planta indesejada, a erva daninha, que não foi escolhida para fazer parte dos nossos jardins. Uma casa com mato é vista como descuidada, feia.

Outro dia Rita estava observando as plantas de um canteiro e de dois vasos grandes na varanda de sua casa e se deu conta de uma grande quantidade de “mato”. Mas que mato era esse? Era capim cidreira, quebra pedra, picão, boldo, alecrim, entre outros, ou seja, todos medicinais. Quanta coisa estamos perdendo quando classificamos essas plantas como sendo de menor importância que as que escolhemos. Elas estão ali para nos ajudar a cuidar da nossa saúde. Mas costumamos dar mais valor àquilo que podemos controlar. A espontaneidade da natureza nos incomoda.

Essa pergunta chegou a nós justamente porque durante uma atividade de uma professora que nos acompanha, uma criança disse “mato”. Ela então nos escreveu: mas é planta ou é mato? Aproximar o olhar das crianças para as características singulares de cada planta aprimora a percepção e aumenta a intimidade com a mesma. Assim, o que era visto como mato passa a ser visto com outra perspectiva, gerada pela empatia e o afeto despertados pela observação.

Retomar o convívio com a natureza do jeito que ela é, sem o nosso controle, significa uma mudança cultural, significa reorganizar o nosso olhar, re-educar nossos sentidos. Ao nos “renaturalizarmos”, estaremos aceitando o fluxo da vida que nos anima, permitindo que ele se expresse em toda sua plenitude, trazendo assim a sensação de bem estar, paz e harmonia.

Foto: domínio público/pixabay

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

2 comentários em “Planta ou mato?

  • 15 de março de 2018 em 10:09 AM
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    É o que sempre falamos em nossas Rodas de Passarinho. Bacana ler discutido por aqui. Outra questão fica por conta da Mata Atlântica, que utilizamos sempre a poderosa “Floresta Atlântica”, pelo mesmo motivo. Vale ressaltar que a resposta seria praticamente a mesma para a “Mata ou Floresta?”. Abração!

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  • 20 de fevereiro de 2019 em 6:33 PM
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    Certa vez quando era criança, passei por uma praça com minha mãe. Deslumbrada eu disse: olha mãe! Plantaram flores aqui!
    E ela disse: – que flor o que menina! Isso é mato!

    Anos mais tarde conheci uma senhora que eu amo muito, que tinha a incrível habilidade de transformar a realidade. Ela é uma grande contadora de histórias e eu sempre dizia: – a senhora consegue transformar mato em flores!

    Sempre fiquei muito triste comigo mesma, pois sempre enxerguei a realidade de forma muito dura, vendo apenas o mato e nunca as flores.

    Esse artigo me ensinou a beleza que existe em olhar pros matos da vida por outro ângulo. Aquele que vem sem a nossa interferência, pelo fluxo da vida, e, sobretudo, aquele que cura.

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