Pimenteira, a multiuso da mata

pé de pimenteira

Sabe aquele óleozinho quase invisível que salta nos olhos quando se dobra a casca de uma laranja ou limão? Aquele que deixa um rastro indisfarçável nas mãos e é a razão de ser do codinome “mexerica” atribuído às tangerinas?

Trata-se de um hidrocarboneto da família dos terpenos, estável e resistente à hidrólise, conhecido entre os cientistas como limoneno. Na forma de óleo essencial, é usado como aromatizante pelas indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética, para garantir um cheirinho agradável a uma grande lista de produtos industriais, de pastas de dentes a pirulitos, passando por variadas “notas cítricas” de perfumes.

Mas não é só isso: o limoneno também serve de base a solventes e desengraxantes, substituindo produtos químicos mais pesados na limpeza de máquinas, motores, engrenagens, peças metálicas e até pisos industriais. E com duas imensas vantagens no campo da sustentabilidade: é bem menos tóxico para quem faz a limpeza e é biodegradável, facilmente digerido por microrganismos presentes no ambiente!

Além de ser extraído das cascas de laranjas processadas por agroindústrias para a fabricação de sucos – valorizando um subproduto que seria considerado resíduo – o óleo essencial limoneno também está presente em cascas de árvores brasileiras, como a pimenteira (Cinnamodendron dinisii), uma árvore da família das canelas, nativa em capões e florestas mistas de araucária, com distribuição dos estados do Sul até as serras de Minas Gerais.

Alberto Wisniewski Jr., Edésio Luiz Simionatto e Edson Torres – três pesquisadores da Universidade Regional de Blumenau (FURB), Santa Catarina – analisaram a composição do óleo essencial da pimenteira e encontraram alto teor de monoterpenos (85%), sendo o limoneno o componente principal (68% do total). Devido à predominância do limoneno, a casca da pimenteira tem o mesmo cheirinho cítrico agradável, o que motivou a pesquisa na FURB e vem interessando até os adeptos da aromaterapia, que consideram esse aroma relaxante, anti-estressante. Outra característica da casca justifica o nome da árvore em português – pimenteira: o sabor é picante e chega a ser levemente entorpecente, como as pimentas verdadeiras.

Nas matas nativas, a árvore chega a uma altura de 20 metros, com troncos de 60 centímetros de diâmetro. As flores são pequenas e carnosas, cor de vinho, e aparecem no inverno. No verão, a pimenteira dá frutos pequenos e ovais, muito apreciados pelas aves, responsáveis pela dispersão natural de sementes. Essa é, inclusive, uma das razões pelas quais a espécie é recomendada pela Embrapa Florestas nos reflorestamentos mistos para a recuperação de áreas degradadas. Aliás, o plantio é o mais indicado para quem quer usar a pimenteira comercialmente, pois a retirada da casca deve ser feita de modo racional, para não prejudicar a árvore, e não pode ocorrer em áreas protegidas.

Se a biodiversidade brasileira nos presenteou com um multiuso natural tão cheio de qualidades, o mínimo que podemos fazer é jogar limpo com a espécie!

Foto: Marcio Verdi/Flora Digital

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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