Pimenta-rosa: boa para temperar, melhor ainda contra lesões causadas por bactérias

Há muito tempo o frutinho vermelho-rosado da nossa aroeira-mansa ou aroeira-pimenteira (Schinus terebinthifolius) acrescenta aroma, cor e sabor aos mais variados pratos, da cozinha cabocla à alta gastronomia. Apelidado de pimenta-rosaou poivre-rose para os chefs à francesa – ele até passou a dar um toque especial a cervejas artesanais (leia o post Tem matinho bom na cerveja, aqui no blog Bioconecta).

Do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, onde a espécie é nativa, as florezinhas brancas aparecem do início da primavera ao fim do verão, atraindo abelhas, abelhinhas sem ferrão, vespas e borboletas. Os frutinhos vêm a seguir, do tamanho da pimenta-do-reino, com uma única semente envolvida por uma casca aromática. E são muito apreciados pelas aves. Eles crescem verdes, depois ficam rosados e amadurecem bem vermelhos, em cachos, servindo também para enfeitar as árvores de cinco a dez metros de altura, utilizadas no paisagismo urbano.

Mas não são essas qualidades gastronômicas ou estéticas que estão em foco numa pesquisa etnobotânica em curso na cidade de Atlanta, Geórgia, EUA. Ali, a pimenta-rosa é considerada uma das melhores opções para combater lesões provocadas por bactérias da espécie Staphylococcus aureus resistentes a meticilina (conhecidas pela sigla MRSA).

Essas bactérias provocam furúnculos, abscessos e um grande número de infecções: cutâneas, subcutâneas, pós-cirúrgicas e até nos ossos longos (osteomielites). Os estafilococos áureos também causam pneumonias, inflamações cardíacas (endocardites) e “envenenamento” do sangue (bacteremia). As lesões e infecções precisam ser tratadas com antibióticos muito potentes (com fortes efeitos colaterais) ou podem causar a morte do paciente.

A alternativa ao tratamento convencional é um extrato (430D-F5), composto de 27 substâncias químicas encontradas nos frutinhos de aroeira-pimenteira, obtido por uma equipe de quatro pesquisadores da Universidade de Emory e três da Universidade de Iowa, coordenada pela etnobotânica Cassandra Quave, com financiamento do Instituto Nacional de Saúde do National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH). Os cientistas testaram o extrato em feridas infectadas por cepas resistentes, em camundongos.

“O extrato não elimina as bactérias, mas desarma sua virulência ao bloquear a habilidade das MRSA de criar as toxinas responsáveis pelas lesões e infecções, letais em casos de septicemia”, explicou Cassandra Quave ao Bioconecta. Segunda ela, as bactérias se comportam de forma branda quando são poucas e de uma maneira agressiva quando são muitas. As substâncias químicas da aroeira-vermelha silenciam a comunicação entre as bactérias e então elas mantêm o comportamento brando, como se fossem poucas, deixando de excretar as toxinas causadoras de feridas e infecções. “Nos casos de septicemia, acreditamos que o extrato possa potencializar os antibióticos ou fazê-los funcionar melhor”.

A julgar pelos primeiros testes, o extrato não afeta a pele do paciente e nem mata as bactérias benéficas, como acontece com os antibióticos. Assim, nos casos em que não há risco de morte, o próprio sistema imunológico tem a chance de eliminar as bactérias nocivas. Com isso, evita-se o círculo vicioso de desenvolvimento de antibióticos cada vez mais potentes para atacar bactérias cada vez mais resistentes.

A mesma equipe já havia obtido resultados semelhantes com um extrato de castanha europeia (Castanea sativa). Agora a pesquisa com a aroeira confirma a validade dessa abordagem de silenciamento e bloqueio dessas bactérias. O próximo passo são os testes de eficácia e de segurança, após os quais virão os testes clínicos. Cassandra Quave está solicitando aprovação junto à Food and Drug Administration (FDA) para fazer os ensaios com o extrato como uma nova droga experimental (Investigational New Drug/Botanical Drug Regulatory Pathway) e estima iniciar os testes clínicos em 18 meses. E, se tudo correr bem, depois irá atrás de recursos para transformar o extrato de pimenta-rosa em um medicamento ao alcance da população.

Fotos: Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Deixe uma resposta